Ergon
e Parergon
Um estudo sobre as relações entre a
Alquimia e os Arcanos maiores do Tarot
Autobiografia
Alquímica
Luis Carlos de Morais Junior
(Hermes Grau)
Volume Um: Filosofia Hermética
Dedico este livro a Luiz Carlos de
Moraes, meu pai, que me fez um pensador, com suas conversas e provocações, com
seus ensinamentos e lições, com suas invenções e os livros que ganhava ou
comprava e me dava pra ler, com sua presença e sua crítica na música
brasileira, no rádio e na televisão, desde quando nasci; ele, que nos mostrava,
a seus filhos pequenos, deslumbrado e intrigado, os movimentos erráticos e
constantes de uma pequena quantidade de mercúrio; ele que me ensinou a derreter
chumbo e ao mesmo tempo alertou para o perigo dos vapores que dali se emavam, e
que se maravilhava com isso, e me transmitiu essa sensação; ele que amava
línguas, as ciências e a História, e falava por horas sobre esses e outros
assuntos; grande comunicador, que apresentou durante décadas programas nas
maiores emissoras de rádio do país; ele, que, ao se aposentar, cuidava de um
enorme jardim na sua casa, e todos na vizinhança o chamavam de alquimista,
porque, além de ler os livros de Alquimia que eu lhe emprestava e insistia que
lesse, e comentar sobre eles, tinha uma mão mágica para plantar, e todas as
mudas e sementes que ele semeava sempre vingavam, e cresciam viçosas e fortes.
The
Lovers
(Lui
& Lia)
Vou
pintar o espetáculo puro
Com
a luz dos fatos, a cor da carne
O
fundo fútil dos noticiários
Mestres
anônimos do cotidiano
Emprestam
vozes ao tempo tátil
Renovam
rostos no quadro móvel
Da
plataforma extrema e prática
As
rosas róseas em nuvens à tarde
Serão
rubras no arrebol do encontro
E
haverá os fogos de artifício
Efervescendo
em taças a champagne
A
música fará mais suaves os gestos brandos
Envoltos
em detalhes e brilhantes
Será
pleno e claro, triunfante
O
amanhecer dourado, todo belo
O
dom eterno dos amantes
É
uma colcha que se estende
Por
tantas eras e futuros
Eu
gosto do calor da tua pele
Eu
amo o sabor de tua boca
O
nosso amor é um pomar Jardim do Éden
E
a cada instante surge a nova fruta
O
futuro é a fúria da epiderme
O
amor é a verdade justa
Mais
cerne e carne e flor que a sociedade
A
verdade a realidade ou outra coisa
O
nosso amor é um sol que me ilumina
E
alimenta e esquenta e me dá vida
A
terra inteira e o universo inteiro
Me
deito em nosso leito de alegrias
Ergon e Parergon
Um estudo sobre
as relações entre a
Alquimia e os Arcanos maiores do Tarot
Autobiografia
Alquímica
(Hermes
Grau)
Volume
1: Filosofia Hermética
Apresentação:
Questões sobre Alquimia
Prefácio:
Felix Fênix (Χαρούμενος Φοῖνιξ)
Prólogo: Catecismo sobre a Arte, Ciência e Filosofia
Hermética
Capítulo
22: O Louco ש
Capítulo
1: O Mago א
Capítulo
2: A Sacerdotisa ב
Capítulo
3: A Imperatriz ג
Capítulo
4: O Imperador ד
Capítulo
5: O Papa ה
Capítulo
6: Os Enamorados ו
Capítulo
7: O Carro do Triunfo ז
Anexo:
Harmonia
Anexo
2: Poemas do Micro e do Macro
Anexo
3: O Pequeno Caderno
Volume
2: A Semente Universal
Alquimia
e Conhecimento
Apresentação:
Lua e Sol
Capítulo
8: A Justiça ח
Capítulo
9: O Eremita ט
Capítulo
10: A Roda da Fortuna י
Capítulo
11: A Força כ
Capítulo
12: O Pendurado ל
Capítulo
13: Sem Nome מ
Capítulo
14: Temperança נ
Capítulo
15: O Diabo ס
Capítulo
16: A Casa de Deus ע
Capítulo
17: A Estrela פ
Capítulo
18: A Lua צ
Capítulo
19: O Sol ק
Capítulo
20: O Julgamento ר
Capítulo
21: O Mundo ת
Bibliotheca
Chemica Curiosa
Anexo 4: Poesias Complexas
Anexo
5: Poemas Alquímicos
Volume 3: Química Real
Apresentação: Questões sobre Alquimia
Eliane Colchete coloca tópicos e questões
filosóficas para Lui Morais
Captai um raio de sol,
condensai-o sob uma forma substancial, alimentai de fogo elementar esse fogo
espiritual corporizado, e possuireis o maior tesouro deste mundo.
(Fulcanelli)[1]
Tópico 1:
Relação entre senso-comum, Arte e Ciência: Alquimia e modernidade
Bachelard e Foucault – episteme como
modernidade é igual à concepção do objeto da Ciência produzido pela própria
Ciência, não significando o objeto do senso comum; o objeto da Ciência é
produzido como objeto de pesquisa, relacionado aos instrumentos, conceitos etc.
Foucault escreve sobre “objetos quase
transcendentais”, definindo a episteme contemporânea (“modernidade”), a partir
dos inícios do século XIX e o Evolucionismo, porque o objeto de cada Ciência se
torna estabelecido pelos seus processos de pesquisa, pela linguagem científica.
Não é a experiência que define o campo da Ciência, mas sim a especificidade da
Ciência como linguagem do seu próprio objeto. A episteme contemporânea se opõe
assim à do classicismo (séc. XVII e XVIII), cujo a priori histórico epistemológico é a Representação, ou seja, o
objeto de cada ciência corresponde ao senso comum da coisa, enquanto suposta
integrante do mundo como quadro representável na totalidade, composto como
natureza pela integração dos gêneros fixos. Na modernidade, a Representação
significa portanto o pré-científico, ou não-científico, Foucault a atribuindo
às ciências humanas como pretensão científica do que seria um objeto
pré-conceituado, o Homem (o que podemos questionar em função da preminência da
teoria sobre a observação nas ciências humanas, mas aqui sendo nosso foco
relacionado à definição da perspectiva estruturalista, “transdisciplinar”, não
porque conjugue ciências várias numa mesma pesquisa “interdisciplinar”, mas por
ser uma metodologia aplicável a qualquer ciência real, assim, uma mesma
metodologia acima das fronteiras das disciplinas).
Para Lyotard, esse objeto que Foucault
designou quase-transcendental, produzido na própria Ciência, corresponde à
concepção da Ciência pós-moderna, visto que no século XIX a concepção de
totalidade ainda persistia, na programação universitária oriunda do idealismo
alemão.
Exemplo em Bachelard: o elemento químico
artificial[2],
produzido em laboratório, é um objeto sem númeno, porque é puramente racional.
Questão 1: A Alquimia é uma matéria
pré-científica ou não?
Resposta: A Alquimia é uma prática que
nasceu na Antiguidade e ficou na clandestinidade por muito tempo, tanto por uma
opção de se esconder das perseguições dos poderosos e da ganância das pessoas,
quanto pela sua natureza, de não ser compreensível pela consciência humana
comum.
Mesmo tendo um objeto autônomo, produzido
na pesquisa, irredutível aos objetos do senso comum, a ciência é integrada pelo
estudo e pelo aprendizado, acessíveis a qualquer um que queira se formar nas
suas instituições, sem precisar mudar interior/mente. Ao invés, a Alquimia é um
contexto esotérico, que pretende atuar a partir de transformações internas do
homem, em níveis de consciência irredutíveis aos conhecidos pelas pessoas
comuns. Por isso os alquimistas referenciam a “nossa” ciência, ou o “nosso”
elemento, para designar um correlato inacessível ao comum em nível da
consciência, não só do objeto.
A Ciência e a Alquimia possuem histórias
quase total/mente independentes, são práticas autônomas, sendo que pouca
influência ou compartilhamento tem havido entre as duas, pela sua natureza, que
é muito diferente.
Podemos encontrar a Ciência nascendo na
Antiguidade; por exemplo, muitas das pesquisas, teorias e práticas de Aristóteles
(séc. IV a. C.) e de Arquimedes (séc III a. C.) demonstram ser, essas, sim,
pré-científicas. Definir um conceito de objetos cujo conjunto constitui o mundo
experimentado pelo ser humano, utilizar a matemática (aritmética e geometria) como modelo e desenvolver uma
explicação teórica sobre o mundo, que nos dá entendimento sobre como as coisas
funcionam, e que ainda pode, às vezes, aumentar em muito a qualidade de vida do
ser humano com suas técnicas, isso nasce na Antiguidade, se desenvolve ao longo
da história, e vai ganhar uma forma que pode ser generalizada
(internacionalizada, “universalizada”), e status, nas sociedades humanas, com o
desenvolvimento do método empírico científico, desde a Renascença até a
atualidade.
Os textos alquímicos circularam mais ou
menos ampla/mente durante esse tempo, e a maioria dos seus leitores não
entendia a Filosofia Hermética. Todavia, as ideias de riqueza e longa vida
seduziram muitas pessoas, que, mesmo não compreendendo as bases da Alquimia,
tentavam realizar a Grande Obra, inspirados no que se lia nos textos e via nas
ilustrações.
Esses são propria/mente os sopradores,
sobre os quais escrev(ere)i que “denigrem a nossa Arte”, no livro Alquimia o Arquimagistério Solar e aqui.
Suas práticas, muitas vezes, ajudaram a
enriquecer e desenvolver as pesquisas sobre a natureza, que geraram a Ciência
contemporânea. Nesse sentido, muito indireto, a Alquimia contribui, e bastante,
para a criação e o desenvolvimento da Ciência.
Pensar que a Alquimia seja uma prática
antiga e medieval, baseada em visões místicas e mágicas, que projeta tolices e
que obedece à sacra imbecilidade dos seus praticantes, que vieram antes de nós,
errando através dos milênios, e que insistiram numa visão fantasiosa, cuja
falsidade a realidade mostrava o tempo todo; supor isso é não entender a
Alquimia. Pretender que a Alquimia inteira seja essa bobagem, e que, apesar
disso, por mexer com as matérias, gerou a Ciência, isto é, que seja uma prática
pré-científica, está errado.
A Alquimia é uma outra prática, total/mente
diferente daquilo que chamamos Ciência. Como as palavras fazem devires nas suas
significações, “ciência” pode querer dizer outras coisas, como, por exemplo,
aquilo que se sabe sobre determinado tópico. É por causa dessa polissemia que a
Alquimia se apresenta nos seus melhor fundamentados textos como Ciência, como
Arte e como Filosofia – sendo preciso entender que é a “nossa” Ciência, a “nossa”
Arte e a “nossa” Filosofia, não aquelas que são ensinadas nas academias e
consumidas pelo público em geral.
Isso não propõe uma desvalorização da
Filosofia, da Ciência e da Arte. Elas são valorosas, são práticas de produção
de conhecimento humano valiosas, que funcionam e geram ótimos frutos.
O que estou falando é que a Filosofia
Hermética, a Ciência Alquímica, a Arte Real (três nomes que a designam) é outra
coisa, não rivaliza com a Ciência, a Arte e a Filosofia, não faz as mesmas
práticas nem produz os mesmos resultados.
Questão 2: E a Alquimia é uma prática
pré-científica no sentido de que ela não se restringe ao objeto da Ciência, mas
se coloca em função de algo acima da Ciência, como Teologia ou Arte? É ou não
uma Ciência autônoma?
Resposta: Nesse sentido, a Alquimia é
autônoma, é uma Ciência autônoma. Contudo, quando o alquimista a chama de
ciência, não se refere ao que a contemporaneidade entende por essa palavra.
Melhor seria apresentar o que a Alquimia
faz, o que ela é, no lugar de fazer definições negativas. Mesmo assim, é
importante dizer: a Ciência estuda a matéria que nos circunda, a qual nós experimentamos
o tempo todo, que se traduz em matéria e energia no continuum espaço-tempo. A Ciência estuda a matéria, a energia, o continuum, o espaço e o tempo; e junto,
tudo que está contido aí, todos os seres que encontra na natureza. Mesmo que os
objetos científicos sejam produzidos pelas próprias teorias e instrumentos da
Ciência, o seu escopo é o referente, o que está no mundo.
A Alquimia não estuda as “coisas” da
natureza. Quando fala em quinta essência ou matéria prima, que é a matéria da
obra e tem muitos sinônimos alquímicos, inclusive caos, ela fala da força
pré-material, pré-existencial, pré-substancial, pré-temporal e pré-individual
que constitui tudo, ao mundo e a nós mesmos.
Os textos alquímicos (a começar pela
maravilhosa se/mente que contém uma floresta que é a Tábua de Esmeralda) ensinam como a pessoa faz de si mesma e do
mundo à sua volta um laboratório para separar o espaço e o tempo e atingir com
seu ser (sua percepção, sua consciência) a matéria prima, depois como sublimar
(isso é, refinar e potencializar) essa matéria no seu ovo, depois como voltar à
pedra (situação substancial), sendo essa prática reiterada enunciada como “solve
e coagula”. E, mais que isso, há métodos para que essa separação e reunião da
matéria prima na pedra gere uma potencialização, uma espiritualização da pedra.
Os neoplatônicos e os cristãos falam em
corpo, alma e espírito; a Árvore da Vida da Cabala judaica tem três triângulos
com uma Sephirah em cada aresta, e os triângulos têm essa correspondência.
Mesmo o corpo humano está organizado em três regiões, como os títulos de Henry
Miller, Sexus (o baixo ventre, os
instintos e apetites), Plexus (o
peito, que irradia a força vital e a coragem) e Nexus (a cabeça, que agencia o pensamento, e que é também a ligação
do corpo humano com o espiritual).
Proponho que a Alquimia não é uma prática
mística, ou interior, ou “espiritual”, no sentido geral/mente usado, que coloca
uma dicotomia entre corpo e alma. A Alquimia é a prática que trabalha operativa/mente,
material/mente, com o contínuo das três dimensões, assim como são apresentadas
nas Sephiroth. Isto é, afirma a univocidade: o um no todo, o todo no um.
Sendo o homem o mesmo contínuo em suas
dimensões corpórea, anímica e espiritual, ele pode mover sua consciência
desperta para o mais sutil e a Alquimia estuda e ensina esse procedimento, no
qual o homem age sobre si próprio e sobre o mundo, porque macro e microcosmos
são dois focos da mesma luz.
Questão 3: A matéria da Alquimia é
diferenciada, conforme o objeto científico, segundo a concepção pela qual
Bachelard considera a(s) matéria(s) da Ciência?
Resposta: A visão de Gaston Bachelard é
forte, no caso de a epistemologia entender e ajudar a servir à Ciência, bem
como dos outros autores que você traz neste tópico. Não vou me colocar sobre o
que penso ser o objeto científico neste texto, mas, reafirmo que existe sim um
objeto científico, pois a ciência é metodológica, racional e referencial.
Quando Bachelard tenta criticar a
Alquimia[3],
ele se engana completa/mente, atribuindo aos alquimistas tolas teorias e
práticas, que foram realizadas na Antiguidade e
na Idade Média, mas que, nova/mente repito, nada têm a ver com a
Alquimia, sendo autoengano ou tentativa de enganar o próximo, no caso dos que
produziam ouro falso para vender o próprio falso ouro ou a suposta prática ou as
suas lições, ou no caso daqueles sopradores que achavam que poderiam partir do
chumbo e chegar ao ouro manipulando as suas qualidades e o seu peso.
Essas detrações atabalhoadas, junto com a
pretensa valorização que os junguianos propõem, nitida/mente ignoram as mais
simples características da Filosofia Hermética e da Alquimia.
Fazendo um jogo de palavras nada tolo,
posso afirmar que a Alquimia é compliximetodológica, transracional e
multirrefencial. Isto é, tem um método que é físico e espiritual, um método
padrão, que é ensinado em vários textos, a começar pela Tábua de Esmeralda. Porém, como não é “universal”, não é igual para
todos, nem “referencial”, não trabalha com o mundo dado, esse método em esboço
precisa ser refeito ao modo de cada um. Essa é uma grande diferença entre a
Ciência e a Alquimia.
Vou citar a explicação dada pelo
Dicionário Informal online sobre o que significa a palavra transracional (é uma
palavra, mesmo, está até dicionarizada):
Que ultrapassa a razão, sem, contudo,
contradizê-la.[4]
Muitas práticas humanas ultrapassam a
razão sem, no entanto, contradizê-la; uma relação saudável entre duas pessoas é
sempre transracional.
A Alquimia não abandona a razão, não se
trata de irracionalismo, loucura, misticismo fanático, nada disso. O hermetismo
usa a razão o tempo todo, e, ao mesmo tempo, como se liga e lida com dimensões
do ser que a razão não abrange, pratica a transrazão.
A Filosofia ocidental também traz
pensamentos assim, como podemos ler na genealogia das forças de Friedrich
Nietzsche e na intuição como método de Henry Bergson.
A Alquimia é multirreferencial porque
expande a sua visão e a sua ação para o longo feixe existencial de todos os
seres, como um tubo (Bergson fala de cone[5])
ôntico que as coisas são no estágio pré-existencial e no estágio criacional,
que estão o tempo todo aqui, tudo concomita.[6]
O fato ampla/mente comprovado e
documentado de que Sir Isaac Newton era alquimista[7],
sua obra alquímica sendo independente da física, e que ele atribuía muito mais
importância à alquímica, foi por muito tempo censurado e ocultado do público,
e, até hoje, ainda incomoda muita gente. Esse mesmo fato, sendo ele um dos mais
importantes fundadores da Ciência ocidental contemporânea, é mais um argumento
a favor da total diferença de natureza entre elas. Se Newton as separava total/mente
em seus trabalhos e suas obras, uma não é a pré-história da outra, ambas
estavam presentes na sua pesquisa.
Tópico 2: Concepções do Ser e do Devir =
Alquimia entre platonismo e empirismo
Concepções platônicas da Ciência
contemporânea: Os historiadores da filosofia e epistemólogos do século XX,
desde que a crítica humanista pós-comteana desconstruiu a oposição de
metafísica e ciência moderna, visando ambas como contínuas numa trajetória
comum da dominação idealista desde Platão e Aristóteles, reinterpretaram a
ciência em termos de sistema, “tempo lógico” platônico segundo Goldschmidt, ou “tempo
das obras” aristotélico segundo Pierre Aubenque, irredutíveis ao tempo histórico, biográfico
ou factual. Abandonaram o relato canônico da ciência como descoberta
renascentista da experiência material, e internalizaram em seus domínios a
crítica humanista, mas, para valorizar a ciência em termos do fruto de que a
metafísica platônica e aristotélica teria sido a semente, um único produto da
inteligência ocidental assim provada essencialmente una através dos milênios,
desde a Grécia até o presente histórico. Entre os próprios cientistas essa
tendência também se encontra afirmada, como, por exemplo:
Monod: teleonomia do programa genético
(espécie orgânica), ou seja, é um programa estruturado em função dos próprios
objetivos dele, é reprodutivamente invariável (invariância reprodutiva) e tem
uma morfogênese autônoma, como uma ideia platônica (uma lei essencial),
independente do fato das variações, “evolução”.
Heisenberg: haveria uma “ordem central”
no universo físico e o átomo da Ciência contemporânea seria uma evolução mental
em relação, porém, a uma origem que estaria no Timeu, nas partículas substanciais, a concepção da “ordem central”
poderia ser associada a um conceito da Ciência enunciado por Goethe, segundo o
qual o objetivo da Ciência é retraçar a ação da mente na natureza, mesmo sendo
Goethe adepto da concepção evolutiva (epigênese).
James Gleick: sobre Albert Joseph Libchaber
(cientista que descobriu a fórmula da turbulência do hélio), considerando
platônico o paradigma do Caos (fórmulas dos fenômenos aleatórios ou turbulência
e geometrias fractais), porque seria o enunciado da forma ínsita ou implícita
na matéria; no fenômeno aleatório se descobre que existem períodos de
constância matemática; Libchaber
integra uma corrente moderna hebraica platônica na epistemologia moderna,
segundo Gleick.
O empirismo inicial da física moderna
(Galileu), tendência estabelecida na epistemologia por Locke (séc. XVII) e
corrente no século XIX positivista (Comte, Darwin), assim como no
neopositivismo do “Círculo de Viena” (séc. XX, Carnap, Russell, Tarsky, Schlick
etc.), para a qual o conhecimento vem da experiência sem qualquer ideal inato
na mente, ou comprovação ontológica dos fenômenos, tipifica uma posição não-platônica
na Ciência moderna, vinda do relato renascentista da ciência como método
experimental, ainda que o Círculo tenha introduzido a questão da linguagem
científica. Assim, de certo modo, incorporam a perspectiva do sistema, que se
afirma gradualmente como questão da definição do enunciado enquanto científico,
desde o verificacionismo de Schlick e o jovem Wittgenstein até o princípio do
enunciado falseável, de Popper. Mas podem ser considerados não-platônicos por
se manterem contrários à perspectiva transcendental do racionalismo como ideias
inatas, influindo, por exemplo, aí, o operacionalismo de Bridgman, que
subordina a lógica à démarche matérial da pesquisa. Na época atual o
anti-platonismo é relacionável a Feyerabend e
Albert Jacquard, estes dois sendo exemplos de pensadores não platônicos,
na física e na biologia: para Feyerabend, a Ciência apenas relaciona impressões
que depois sistematiza numa espécie de mitologia própria; para Jacquard, a
variação evolutiva não deve ser separada da natureza do programa genético,
cujas mutações nem formam uma causalidade seletiva natural, pois são aleatórias
(em nível dos aminoácidos), o próprio Jacquard considerando haver argumentos
fortes acerca da evolução, tanto na visão oriunda do darwinismo (determinada
pela pressão do meio), que aqui a esse propósito exclusivo poderíamos associar
a Platão, como numa teoria “neutra” (cf.
Kimura; por acaso, sem determinante a definir), se bem que esta tenha
invalidado várias até então supostas demonstrações daquela.
Questão 4: Sendo a Alquimia ao mesmo
tempo uma concepção da transformação (que é, na Antiguidade, associada ao devir
de Heráclito e aos sofistas, contrários ao platonismo) e uma concepção dos
princípios naturais constantes, que, geralmente é associada a Platão, a
Alquimia pode ser considerada platônica ou não?
Resposta: Quando falo no “meu mestre”
Cláudio Ulpiano[8],
isso significa que ele foi meu mestre de Filosofia, a Filosofia Ocidental, com
a maior seriedade e rigor, ele que foi um grande deleuziano, e que, nas suas
aulas, ensinava sobre todas as correntes filosóficas e suas potentes ligações
com a Ciência e a Arte. Nunca ele tratou conosco de Alquimia, ou qualquer outra
matéria considerada “mística”; porém, vou citá-lo.
Uma vez Cláudio Ulpiano falou na aula: “Platão
sabia disso, mas traiu”.
Eis como eu entendo essa frase: Platão
afirma a ontologia do pensamento, é isso que ele sabia, e traiu justa/mente
porque pensou que o pensamento se constitui de ideias que são formas eternas,
imutáveis e perfeitas, inaugurando assim a representação, as coisas do mundo
representam as ideias que copiam. A caricatura de Platão traiu o tempo e a
diferença.
Sobre Platão muitas questões podem se
levantar, mas, quase sempre, ele é tratado nas escolas e faculdades de uma
maneira leviana, o que cria uma caricatura, um pseudo-Platão para uso de saco
de pancada dos filósofos contemporâneos (isso não se refere às aulas do
Ulpiano, sempre muito ricas e complexas nas abordagens). Quando se leem os Diálogos, vê-se que nada ali é afirmado
de modo cabal, são investigações, sempre, sobre o pensamento e seus
desdobramentos nos campos de atividade humana, relacionamentos, artes,
técnicas, guerra, educação, medicina, ética e política.
Inclusive existe uma corrente de autores
que considera que Platão era um alquimista (podemos ver um ótimo exemplo nas
introdução e notas que apensa à sua tradução de Timeu e Crítias Norberto
de Paula Lima)[9].
Temos que levar em conta ainda que os
textos de Arístocles (Plato), que chegaram até nós, tinham como proposta ser
uma vulgarização, uma simplificação, para que todos pudessem ler, textos que
são muito bem realizados literaria/mente. Havia aqueles que ele escrevia para
os membros da sua Academia, esses seriam mais profundos e mais claros sobre a
sua própria teoria; o contrário aconteceu com Aristóteles, dos textos de
divulgação só chegaram alguns fragmentos, e o que temos como livros seus hoje
são as anotações para as aulas do círculo fechado do Liceu (Arístocles ><
Aristóteles).
Com isso quero dizer que o Platão dos
arquétipos é uma caricatura, uma simplificação que não considera a complexidade
(sempre, em algum ponto, de algum modo, aporética) das suas obras que chegaram
até nós.
No Filebo,
podemos ler que ele pensa sobre o devir, por exemplo.
Ainda a considerar que
Émile Bréhier, no volume 1 da sua História
da Filosofia, levanta a tese de que a teoria das ideias poderia não ser uma
teoria, mas sim uma aplicação do método das hipóteses.
De qualquer maneira, mesmo se Platão foi alquimista,
a Alquimia não é platônica, no sentido comum que se aplica a essa expressão:
quando pensa as três partes da matéria (Mercúrio, Enxofre e Sal), os cinco
elementos (Terra, Água, Fogo, Ar e Quinta essência) e os sete/oito
planetas/deuses/metais (Sol – Ouro,
Lua – Prata, Mercúrio – Mercúrio, Vênus – Cobre, Terra – Antimônio, Marte –
Ferro, Júpiter – Estanho e Saturno – Chumbo), não
se tratam de ideias, arquétipos ou modelos. A Alquimia trabalha com o devir das
forças dentro do cosmos atual e virtual, que engloba várias alturas ou
dimensões do feixe ou cone, muito além da dicotomia do hilemorfismo: forma e
matéria.
Tópico 3: Relação entre cultura e saber:
Alquimia e Religião
Heidegger considera que os pré-socráticos
foram os primeiros a enunciarem, sob a forma de um saber autônomo das práticas
e concepções correntes na cultura (“folclore”), o que, na cultura, está vigente
como uma inteligibilidade pré-reflexiva. Nessa inteligibilidade, a verdade, que
os pré-socráticos vão conceituar reflexivamente, é um acontecimento relativo ao
encontro situado do sujeito com os fatos; ou seja, essa verdade é relativa a
esse encontro ou acontecimento, não a uma generalidade, que absorveria todo o
sentido possível dos fenômenos. Como na língua grega aletheia ou verdade pode
ser considerado o mesmo que des-cobrimento, “a” sendo partícula privativa, e “lethes”
esquecimento ou cobertura, então, a verdade é algo que se descobre, mas, sempre
restando o coberto, ou seja, outros possíveis encontros, outros possíveis
sentidos para aquele fenômeno. O saber científico é um sentido, a atribuição
poética é outro sentido. Assim, os pré-socráticos estariam enunciando a verdade
como ela é para os seres humanos antes da dominação da Ciência, derivada da
metafísica inventada pelo platonismo, para a qual só existe um sentido
universal que define o fenômeno (ideia). Os outros sentidos sendo falsidades ou
ideologias, não há uma autonomia da cultura (existência, subjetividade).
Mircea Eliade: considera o homem
pré-científico o mesmo que Platão, um “Homo religiosus”, para quem a essência
precede à existência, as coisas ou os fenômenos são reflexos ou cópias das
ideias eternas, como as formas que Deus ou os deuses impuseram ao mundo.
Questão 5: A Alquimia, como lida com a
questão da Pedra Filosofal, da possibilidade da transmutação, ela seria uma
concepção do enunciado da natureza da coisa como aletheia ou como ideia,
essência universal?
Resposta: Esta questão faz continuidade
com a anterior.
Todo ser humano, animal, vegetal, mineral
ou artificial se apresenta fixando traços (um gesto, um ato que faz algo, uma
permanência) e movimentando essa fixação (está sentado, depois levanta; comeu,
depois vai passear; com a madeira que comprei fiz um brinquedo, que foi usado
por várias crianças).
Seja o seu corpo, seja o seu pensamento: você
tem a capacidade de fixar por algum tempo alguma coisa, depois tem a capacidade
de mudar aquela coisa que estava fixa antes.
Imagine se só pudesse fixar. Seriam as
ideias platônicas, estátuas eternas; ninguém que já olhou o mundo pode ser tão
tolo assim.
Imagine que só pudesse mudar e mudar e
mudar e mudar sem parar. Nunca haveria nada, nem seres nem coisas, pois a total
mudança ininterrupta não permitiria as complexas redes ontológicas.
Nós temos as duas capacidades, em nosso
corpo, em nossa vontade e em nosso pensamento.
A natureza da natureza de mudar é o
Mercúrio, é o que é Mercúrio em Alquimia (pela univocidade o deus mítico, o
planeta e a substância são isso mesmo, expressam essa capacidade como uma
qualidade predominante sua). A natureza da natureza de fixar é o Enxofre, é o
que é Enxofre em Alquimia, idem, etc.
Nós assistimos a isso como se
estivéssemos na plateia, como se fôssemos o Platão das faculdades e escolas
simplórias (a alma que contempla o desfile das ideias).
A Alquimia descobriu e ensina que podemos
ser os atores desses atos, que essa é a nossa potência transmutatória, que o
homem se torna demiurgo num intervalo de tempo muito pequeno, que se estende
sem parar, que os estoicos chamavam Aión e Nietzsche nomeou de intempestivo.
A palavra essência é muito importante em
Alquimia, mas ela não é ideia fixa, nos dois sentidos. Por isso crio, para a
Alquimia e a minha Filosofia, o conceito “excência”.
Há algo aí com que a Filosofia e a
Ciência nem sonham: o alquimista trabalha para sublimar e transmutar a
essência. Ele não pensa o devir só nos movimentos materiais do mundo, para o
filósofo hermético o pensamento é devir, devém o tempo todo, para melhor ou
para pior; e essa é a Alquimia ética, o homem quer fazer o macrocosmos (Mundo)
melhor, fazendo o microcosmos (ele mesmo) melhor, através de uma transmutação
da essência (excência), que se torna brilhante e calorosa, como um Sol, naquele
que realizou a Grande Obra.
Bibliografia:
ARISTÓTELES.
Órganon. Trad. Edson Bini. 2 ed.
Bauru: Edipro, 2010.
_______.
Metafísica. Trad. Edson Bini. Bauru:
Edipro, 2006.
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Prefácio: Felix Fênix (Χαρούμενος Φοῖνιξ)
O mundo é vivo e novo
E isso é bom
A chuva cai pela noite
Quente com seus segredos
Quem tem tantos tesouros guardados
Não precisa do diabo
Queima carmas e desejos
E ressuscita tudo transmutado
Fênix feliz
Poeta pirado
Ser humano e o mais
De todos os lados
O amor é a cor e o aroma
Dos dias que vêm[10]
Observe as imagens do livro de Alquimia.
Elas são muito estranhas, evidente/mente
artificiais, quando mostram as coisas do mundo se expressando na sua simbologia
exuberante, ou quando apresentam os alquimistas em suas operações, tudo ali nos
leva a pensar em delírio/sonho/fantasia.
Porém, ao lado desta sensação tão forte
que quase sempre seus textos e imagens produzem, também nos fazem sentir como
se estivéssemos chegando em nossa casa cósmica, que antes habitávamos, que
habitamos agora, e da qual, por algum motivo obscuro, tínhamos nos esquecido,
ou quase; uma casa que é arte em tudo, por tudo, por toda parte, e, ao mesmo
tempo, é um lugar de rezar e de trabalhar também.
Que textos são esses? Que figuras nos
apresentam?
Elas parecem um filtro mágico, parecem ter
um efeito desipnotizador, parecem um portal, e um fator evolutivo para o ser
humano, que funciona fazendo-o se transmutar, mera/mente ao olhar com atenção para
ele, e ao lê-lo.
Ainda mais: a intuição mais alta e forte
que temos nos mostra que ali se nos apresenta, em esquema, um mapa de evolução
da consciência, nas operações, nos símbolos e nas ilustrações.
Tudo traz em si
sua própria negação. É o mecanismo da vida. E quando algum fenômeno se esgota,
as forças contrárias o condenam em nome da verdade. Qual a empresa humana, por
fulgurante, que não terminasse como um erro? Os impérios, as civilizações, o
cristianismo, a alquimia, as grandes guerras como os tratados de paz.
(Oswald de Andrade)[11]
A contribuição
milionária de todos os erros.
(Oswald de Andrade)[12]
A Montanha dos Adeptos[13]
Sinto-me como o Señor Quijada ou Don Quesada
da obra El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha de Miguel de
Cervantes Saavedra[14]
(obra alquímica da literatura), personagem o qual, aos cinquenta e tantos anos,
depois de décadas da leitura diária dos romances de cavalaria, delirou que era
ele mesmo um cavaleiro andante, dentro de um mundo onde já não havia espaço
para heróis.
Na maturidade, lendo livros de Alquimia
desde a mais tenra juventude, eu me sinto como se fosse um Alquimista, e vivo
em mim o mito sobre o qual tanto leio e releio, dia e noite; e escrevo novos
livros sobre a tradicional Arte Hermética.
Mas é sempre bom avisar, para evitar
mal-entendidos:
Sim: esta é uma obra de ficção.
Melhor ainda: este livro é um elogio à
ficção (ou: fricção; já que tudo é ficção, nada é ficção, mas tudo flui, frui e
influi, portanto: tudo é fricção, fiação).
et creavit Deus hominem ad
imaginem suam
ad imaginem Dei creavit illum
masculum et feminam creavit eos
benedixitque illis Deus et ait
crescite et multiplicamini et
replete terram et subicite eam
(Liber Genesis 1:27,28)[15]
Deus criou o homem à sua imagem,
à imagem de Deus ele o criou,
homem e mulher ele os criou.
Deus os abençoou e lhes disse:
“Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a /.../”[16]
A Alquimia é um Mundo.
A Alquimia é uma Casa.
A Alquimia é um Espelho.
A Alquimia é um Livro.
A Alquimia é um Laboratório.
A Alquimia é um Forno.
A Alquimia é um Ovo.
A Alquimia é uma Ciência.
A Alquimia é uma Ciência que pede perdão
a Deus pela nossa mesquinharia, e agradece a Ele pela dádiva da Vida e da
Conexão Divina, presta-Lhe Amor e Respeito, e, como uma criança faz com seus
pais, se entrega em Suas Mãos, sabendo que Ele é Quem sabe O que é melhor para
nós.
A Alquimia é uma Ciência que tem como
principal e primeiro axioma a Ética do Bem conforme à Vontade Divina, e se
ocupa do que faz, das suas causas e suas consequências, de onde vem, como atua
e para onde vai cada impulso e cada síntese de suas produções.
A Alquimia é a Ciência que explica de
onde viemos, para onde vamos, o que somos, como o mundo foi criado, por Quem,
do Quê e como foi feito.
A Alquimia é a Ciência que permite pensar
o pensamento. Por isso a Alquimia é a mais genuína Filosofia, e o Alquimista é
o Filósofo.
Seu trabalho é criativo e investigativo.
Celui
qui recommence ses essais avec patience réussit quelquefois.
(Aquele que recomeça suas
tentativas com paciência às vezes consegue.)[17]
O Alquimista fica o tempo todo inventando
e construindo formas de aumentar a harmonia e a integração entre o Macro e o
Micro; por isso seu trabalho é duplo e triplo, e quádruplo e quíntuplo; ele é o
fazedor das Enéadas, ele sempre age nas várias faixas máximas de frequência, e é
o grande produtor/projeto humano; daí ser ele o Mago, Magisto, Mestre, e seu
trabalho ser o Real Magistério, o Arquimagistério Solar.
Por ser tão criativa e inventiva, a
Alquimia é Ciência, Filosofia e Arte; traz seus melhores atributos e sempre trilha
a tripla produção.
Sua matéria é uma, é dupla e é tripla:
distantíssima, distante e próxima, a mesma matéria na gradação ou paleta da sua
aproximação do macro ao microcosmos.
Referindo-se à Língua Alquímica, Fulcanelli
a chama de Cabala Hermética, a que vela e revela, ao mesmo tempo:
Sem abandonar de todo esses
artifícios da linguística, os velhos mestres, na redação dos seus tratados,
utilizaram sobretudo a cabala hermética,
a que chamavam também língua das aves,
dos deuses, “gaye science” ou “gay
sçavoir”, gaia ciência. Deste modo puderam ocultar ao vulgo os princípios
de sua ciência, envolvendo-a numa capa cabalística.[18]
Friedrich von Licht propõe que os
deslocamentos alegóricos acontecem pela 1) etimologia (exemplo: Fulcanelli:
Vulcano e Hélios, o fogo interior e o fogo do Sol); pela 2) imagem do signo (aquele
referencial do mundo ao qual ele os remete) e pela 3) função do referente
citado (o galo canta ao nascer do Sol, por exemplo); e comenta:
Temos um caso semelhante com
números ou suas formas gráficas. O número “8” se torna um hieróglifo do
infinito ou da eternidade, do ciclo solar com seus solstícios e equinócios, ou
da roda lunar com seus quartos crescentes e quartos minguantes. O número “9” é
o grafismo do espírito solar, “O”, na alma lunar, “ ) “; e sua inversão, o
número “6”, a predominância da alma lunar sobre o espírito solar. A relação
harmônica de ambos, o número “69”, tem a mesma significação que o Ouroboros
grego ou o círculo Yin-Yang do taoísmo chinês.
O mesmo acontece com os signos
astrológicos, onde vemos que o sol é o hieróglifo do fogo secreto ou semente
encerrada na matéria (mercurial); a lua, a imagem da matéria nutriz receptiva;
e o mercúrio, tanto o planeta quanto o metal, é o símbolo do espírito solar,
que compartilha as características da alma lunar e do corpo elemental.
E assim será com o resto dos
signos planetários e zodiacais, pois, quando um alquimista fala de Áries, Touro
ou Peixes, ele não faz referência ao seu significado astrológico, mas ao seu
simbolismo dentro do procedimento da Grande Obra. Nunca se deve esquecer que a alquimia
faz uso metafórico de imagens de outras disciplinas filosóficas, dando-lhes um
significado muito próprio, o que tem gerado muita confusão.[19]
69 é o número que representa Sat e Asat, os
dois dragões abraçados, as duas cobras enlaçadas, os dois peixes no mar, o
Ouroboros, o Linga e a Yoni, o Yin e o Yang, o Tonal e o Nagual, a integração
dos opostos, Enxofre e Mercúrio abraçados dentro do Sol, produzindo o Sal.
Terra água ar fogo e quintessência. No sexo humano, 69 é a integração dinâmica
e a retroalimentação do masculino com o feminino:
Ὄν μὴ ὄν (ser (não)-ser
= Heráclito com Parmênides químicos = 是不是 =
shì bù shì = sim ou não = to be or not to be = tupi or not
tupi) que Deleuze traduz como ser e ?-ser (ser do problemático, o complicatio, “caos”, que é como sat –
asat).
Uma última consequência resulta
daí, concernente ao estatuto da negação. Há um não-ser e, todavia, não há
negativo ou negação. Há um não-ser que de modo algum é o ser do negativo, mas é
o ser do problemático. Este (não)-ser, este ?-ser tem, como símbolo, 0/0. O
zero designa aqui apenas a diferença e sua repetição. /.../[20]
(Ἔργων καὶ Παρέργων ἡ Γενιὰ
τοῦ Ἡλιακοὺ
Χρυσοὺ ἐστίν.)
((Ergon et Parergon Generatione Aurum Solis est.))
(((Ergon e
Parergon é a Geração do Ouro Solar.)))
((((Ergon y Parergon es la Generación del Oro Solar.))))
(((((Ergon and Parergon is the Solar Gold Generation.)))))
É a vitória obtida na sua gênese, os grãos
ou graus que a fazem florescer (Hermes Grau); assim faz com as coisas do eu e
do mundo, por isso é Real Virtual e Real Atual, a Prima Matéria e a Quinta essência
Universal (uni-verso = o um e o mútiplo).
Ἣν τὸ πᾶν (Hen to pán) = o um no
todo, o todo no um; tudo está em tudo.
Essa expressão, escrita dentro do Ouroboros (que é a representação da unidade do mundo e do eu, macrocosmos e microcosmos) aparece na Crisopeia de Cleópatra (século III d. C.)[21]:
Ainda sobre a questão do ser problemático,
isso não tem nada a ver com a dialética hegeliana; a única coisa mais tola do
que a leitura jungiana da Alquimia seria uma leitura à Hegel.
(Essa é a única coisa com que consegui
(não-)concordar ou ?-concordar na exuberante e magnífica obra de Elena Petrovna Blavátskaya – Елена Петровна Блаватская).
Sua dialética (de Hegel) da
tese/antítese/síntese e sua visão do negativo como força do pensamento e da
ação constituem uma (sub)visão ou (sub)versão em si escrava, que não pode
compreender (ou não quer, o que dá no mesmo) a potência infinitesimal/mente e criativa/mente
pro/ativa das essências, que, quando crescem e se multiplicam, se transmutam em
(nomenclatura minha) excências, isto é, essências diferenciadoras e germinais.
Logos spermátikos dos estoicos, o verbo
seminal.
Essa capacidade criadora das essências é
a nossa quintessência.
There are
more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.
(Há mais coisas no céu e na terra,
Horácio,
Do que as que são sonhadas na tua
filosofia.)
(William Shakespeare)[22]
A força vem do céu e vem da terra,
daquelas consciências com as quais nos compomos e que podem nos fortalecer.
Prólogo: Catecismo sobre
a Arte, Ciência e Filosofia Hermética
Foi o início de belíssimas
experiências, das experiências científicas mais bacanas do mundo. Seu
laboratório foi uma horta minúscula e humilde, mas também uma horta
maravilhosa, um laboratório de Deus, que por forro tinha o céu, por equipamento
a terra, por fogo o sol, por alambique as nuvens, por matéria-prima 22
variedades de ervilhas tenras e vivas que floresciam pontual e esplendidamente.
(Filippo Garozzo)[23]
À guisa de introdução, ofereço aqui,
agora, este modesto catecismo do Filósofo Químico:
1) O que é Alquimia?
A Alquimia é a Ciência que permite
conhecer a essência[24]
de Deus Criador e do macrocosmos, isto é, da Criação e de todos os seres
criados, entre os quais está o próprio homem/criador, que é o microcosmos, pois
é um circuito existencial correspondente ao mundo que o integra.
A Alquimia é o conhecimento da Natureza e
o conhecimento de si, o conhece-te a ti mesmo (> nosce te ipsum
> γνῶθι σεαυτόν, gnōthi seautón). E é mais, é muito mais do que o
psicológico, inclui o material, o energético, o sistema de correspondências
universal e a (quinta dimensão) quinta essência.
A Alquimia usa uma profusão de símbolos,
entre os quais a Fênix, a efígie do renascimento e do fogo. A Fênix é o
sinônimo da Grande Obra Alquímica.
Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim, em seu Filosofia Oculta
(três volumes, publicados entre 1531 e 1533), no Livro 1,
Capítulo X, Das virtudes ocultas das coisas, lança alguma luz sobre o assunto:
Há outras virtudes nas coisas que
não pertencem a nenhum Elemento, como impedir o efeito do vinho, afastar o
antraz, forjar o ferro ou alguma outra; e essa virtude é a consequência da
espécie ou da forma das coisas, o que faz com que de uma pequena quantidade não
sobrevenha um pequeno efeito, que não se encontra na qualidade de um Elemento;
pois essas virtudes, sendo muito formais, podem produzir grandes efeitos com o
mínimo de matéria; ao contrário, a qualidade elemental para agir em grande
medida precisa de muita matéria. As Propriedades Ocultas são assim chamadas
porque suas causas não se manifestam e porque o espírito humano não as pode penetrar:
é por isso que somente os filósofos, por longa experiência mais a razão
natural, puderam adquirir uma parte do conhecimento, pois, assim como a carne é
digerida em nosso estômago pelo calor que conhecemos, da mesma forma que é
transformada por uma certa virtude oculta que ignoramos, não pelo calor, porque
assim se transformaria mais rápido no fogo do que no estômago. O mesmo acontece
com as coisas de qualidades elementares que conhecemos e certas virtudes que
lhes são naturais e nascem com elas, que admiramos e das quais nos espantamos
por não as conhecermos ou não as termos visto, como é o exemplo do pássaro
Fênix, que renasce de si mesmo, como diz Ovídio:[25]
Agrippa cita
este trecho das Metamorfoses:
Haec tamen ex aliis generis
primordia ducunt;
una est quae reparet seque ipsa
reseminet ales,
Assyrii Phoenica uocant. /.../
Esses seres têm origem nos de
outra espécie.
Há uma ave que se renova e se
recria a si mesma.
Os Assírios chamam-lhe fênix.
/.../[26]
2) O que busca a
Alquimia?
Aquilo que eu chamo pelo nome de meta optata (meta desejada), que é a Eudaimonía (Εὐδαιμονία) dos gregos clássicos, como em Aristóteles, e que os cristãos
medievais denominam Summum bonum: a maior
felicidade do ser humano.
O alquimista árabe Ibn ‘Arabî assim explica a
busca alquímica:
2. A Alquimia representa a ciência que tem por
objeto as proporções e as medidas atribuídas a tudo o que comporta a proporção
e a medida entre os corpos físicos e os conceitos metafísicos, na ordem
sensível e na ordem inteligível. Seu poder soberano reside nas transmutações,
quero dizer, nas mudanças de estado por influxo da “Fonte única” (al-‘Ayn
al-wâhida). A Alquimia é uma ciência natural, espiritual, divina. Nós a
declaramos, de fato, uma ciência divina, pelo fato de que ela traz a harmonia
estável, motiva o descenso epifânico e a íntima solidariedade (entre os seres);
e pelo fato de que ela manifesta os Nomes divinos por influxo do “Denominado
divino” (al-Mosammâ al-Wâhid), segundo a grande diversidade de seus
conceitos metafísicos.[27]
3) Quem pode ser Alquimista?
O ser humano, quer seja homem ou mulher, tenha
a idade que tiver, é chamado pelo seu próprio imo para essa busca da
felicidade. E ele pode se tornar Alquimista[28]
se fizer um aprendizado de superação da sua vaidade, da arrogância, do individualismo,
do egoísmo, do materialismo e da luxúria; se ele se render a Deus e pedir
perdão pelos seus pecados; e, depois disso, se ele estudar com afinco e
paciência, mesmo que pareça impossível aprender ou evoluir, se ele perseverar
cotidiana/mente e continua/mente nesse estudo e nesse trabalho, ele se tornará
um Alquimista.
Podemos ler no Mutus Liber[29],
publicado em 1677, na prancha 14: “Ora, lege, lege, lege,
relege, labora et invenies”,
isto é: Reza, lê, lê, lê, relê, trabalha e encontrarás.
Assim é.
4) Como se aprende
Alquimia?
Impossível seria
aprender Alquimia estudando como se estudam as outras matérias, pagando uma
instituição ou um professor, fazendo um curso, realizando avaliações e obtendo
um diploma. Tudo isso sempre é besteira. No caso da Alquimia, seria fraude.
Todo aquele que cobrar para ensinar Alquimia está vendendo vento. Ou nem isso.
O conhecimento e
a luz desta Ciência são um presente de Deus que Ele revela por uma graça
especial a quem Lhe agrada. Portanto, que nenhuma pessoa abrace este estudo se
não tiver o coração puro e se, livre do apego às coisas deste mundo e todo o desejo
culpado, não esteja inteiramente consagrada a Deus.
Jean d’Espagnet. A Obra Secreta da Filosofia de Hermes.
2º Exortação. 1623.
O Dom de Deus, o
segredo dos segredos do Todo-Poderoso, que revelou aos Seus santos profetas, a
quem Deus colocou suas almas no Paraíso.
Dom
Antoine-Joseph Pernety. Dicionário
mítico-hermético. 1758.
Na Idade Média, o
Dom de Deus se aplicava ao Secretum Secretorum, que é precisamente o segredo
por excelência, o do Espírito Universal.
Fulcanelli. As Moradas Filosofais. 1929.
O Donum Dei, ou
dom de Deus, é um termo amplamente utilizado nos textos alquímicos, mesmo como
título, como é o caso de um dos mais apreciados por nós, que tem por título de O Preciosíssimo Dom de Deus, escrito por
Georges Aurach e publicado em 1475.
Quando os antigos
usavam esse termo, eles podiam se referir a:
• A própria pedra
filosofal, considerada em si mesma como um presente divino.
• A energia
emanada do Criador ou espírito universal, autêntico dom de Deus necessário para
a fabricação da pedra filosofal.
• Um presente
intuitivo. Pois, para saber o segredo da fabricação desta pedra é preciso,
diziam, ser tocado pela divindade. Se há de receber esse dom, como se se
tratasse de uma ciência infusa.[30]
Sobre a ciência infusa,
podemos ler no site Conexão Fraterna:
/.../ Deste modo,
o nosso coração está orientado para Deus, mas infelizmente nosso coração por
causa do pecado, se desvia. Os anjos ao serem criados, possuíam a chamada:
ciência infusa, ou seja, a ciência na qual Deus infunde neles o conhecimento
dos seus mistérios. Os homens, antes da queda do pecado, também possuíam essa
ciência infusa, que permitia conhecer a Deus e seus mistérios. O dom da ciência
infusa é algo que todos nós, seres humanos, ainda temos. Afinal, foi Deus que
nos infundiu, mas ainda precisamos sermos purificados para melhor
compreendermos os mistérios e desígnios de Deus. A ciência infusa é a graça de
nos admirarmos pelo mistério, e de convergir o nosso coração para o eterno.
Essa graça preternatural precisa ser alimentada com uma vida de oração, para
que a nossa caridade seja realizada mediante a graça de Deus. /.../[31]
A Alquimia é um Dom de
Deus[32]. Nossa opção por uma vida
virtuosa, impecável, e o estudo e o trabalho no Laboratório demonstram o nosso
movimento sincero de aproximação, é bater na porta da Alquimia, pedindo para
entrar: esse que bate à porta é o amoroso da Ciência Hermética.
Pedi e vos será
dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto; pois todo o que pede recebe;
o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá.[33]
Paralela/mente, o
estudante amoroso deve orar, ler e ler e ler e ler, e reler e trabalhar. Deve
trazer em si a fé de que conseguirá compreender e operar a Grande Obra. Não deve
desanimar; os textos e as imagens se apresentam como uma selva inexpugnável,
tanto quanto tremenda/mente atraente, para o leigo, bem como para o amoroso. A
persistência na prática da leitura, da oração e do trabalho operativo no
laboratório irá, de forma lenta e gradual, abrindo os olhos, a mente e o
coração do alquimista.
Antes, durante e depois,
o sonho é um momento e movimento mor/mente imerso e intenso de verdadeiro aprendizado
hermético.
Lembre-se da nossa
divisa: Paciência.
Do nosso lema: Solve e
coagula, separa e une, e de novo, nova/mente.
E da nossa receita:
Vitriolum = Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem
Veram Medicinam = Visita o Interior da Terra Retificando Encontrarás a Pedra
Oculta que é a Verdadeira Medicina.
Lembremos ainda do que nos ensina Nicolas Valois[34]: “A paciência é a escada dos filósofos e a humildade é a porta do seu jardim, pois, a quem perseverar sem orgulho e sem inveja, Deus fará misericórdia”.
5) O que podem os Alquimistas?
Pedem e recebem, como é dado ao homem
comum.
Fala-se e escreve-se sobre poder fazer a
Pedra Filosofal que transforma em ouro os outros metais, fabricar joias, induzir
uma planta a germinar e frutificar em um átimo, produzir o Elixir da Longa Vida,
encontrar a fonte de juventude e o Eldorado, saber ler as influências astrais,
alterar o clima, produzir a Aurora astral e a Aurora boreal, proceder à criação
de um homúnculo, de um sol e mesmo de um universo em miniatura, conhecer o
Azoth: o Aleph e o Tau, o Alfa e o Ômega, o A e o Z, conhecer a essência e a
excência do Cosmos.
O Alquimista é aquele que pode realizar a
Grande Obra.
6) A Alquimia é ficção?
Não existe ficção.
Não se pode provar, nem se pode reprovar
um discurso por ser falso, pois o homem é um ser capaz de invenção; e o que se
inventa, existe. O que importa é o que ele faz com aquilo que ele faz.
O dom é dado e gerado para quem é humilde
e generoso.
A riqueza produzida pelo conhecimento
deve ser compartilhada para fazer o bem para as pessoas e para celebrar a
Glória de Deus.
7) O que é o Laboratório?
Tudo na Alquima são enigmas, no texto e
fora dele, como a associação de três grandes Adeptos no Castelo de Flers, o
citado Nicolas Valois, Nicolas Gosparmy e Vicot, que trabalhavam juntos na
Grande Obra e escreveram os três importantes tratados no século XV (Nicolas
Valois conta que obteve a Pedra Filosofal aos quarenta e cinco anos, em 1420).
Ou o fato declarado por Fulcanelli de ele
ter tido como mestre Basílio Valentim, que foi cônego
do priorado beneditino de São Pedro em Erfurt, Alemanha, no século XV,
quinhentos anos antes de Fulcanelli realizar a Grande Obra.
Isso e muito mais fazem da Alquimia um
tremendo e intrincado labirinto.
Uma vez uma amiga me falou pelo zap que
suas emoções e pensamentos, mesclados aos acontecimentos, eram um labirinto
dentro do qual ela se sentia presa.
Eu lhe respondi que o labirinto pode ser
um desafio, pode ser intrigante e nos fazer evoluir, pode ser revelador. Mas,
pela economia da linguagem da internet, eu escrevia “lab” quando me referia ao “labirinto”[35].
O mundo é um labirinto, nós somos um
labirinto no cosmos, e o nosso aprendizado é um labirinto, por onde podem andar
ratos, aranhas, pássaros, feras, quimeras, ou, até mesmo, monstros; mas também
no qual se encontrarm anjos, que são os mensageiros de Deus; no qual podemos
nos sentir presos, ou inventar o meio de o homem voar, como um engenheiro do
ser.
Esse Laboratório que é o nosso Labirinto.
Esse Labirinto que é o nosso Laboratório.
Capítulo 22: O Louco ש
1.
O
alquimista será discreto e silencioso; não revelará a ninguém o resultado de
suas operações.
2.
Habitará,
longe dos homens, uma casa particular na qual terá duas ou três peças
exclusivamente destinadas às suas operações.
3.
Escolherá
cuidadosamente o tempo e as horas de seu trabalho.
4.
Será
paciente, assíduo e perseverante.
5.
Executará,
segundo as regras da arte, a trituração, a sublimação, a fixação, a calcinação,
a solução, a destilação e a coagulação.
6.
Não
se servirá senão de vasos de vidro e potes de louça a fim de evitar o ataque
dos ácidos.
7.
Será
bastante rico para fazer as despesas que exigem tais operações.
8.
Evitará,
sobretudo, ter qualquer relação com príncipes e senhores. Efetivamente,
primeiro esses apressariam sua obra, em seguida os piores tormentos o esperariam
em caso de insucesso e a prisão o compensaria em caso de sucesso.
(Mestre Alberto)[36]
O Louco.
Ele é como esse livro,
cuja cauda e a cabeça se encontram, ele está no começo, no fim e no recomeço do
Tarot.
(Ouroboros salta veloz da página da revista[37])
O seu elemento é a Água,
aqui no seu caráter abissal, onde o homem sempre tenta mergulhar e a qual tenta
conhecer, mas sempre há mais. Essa Água dos Peixes é sempre algo mais. É a
nossa matéria prima.
Isso não faz dele um
louco, mas esta carta, no Tarot, significa bem menos e bem mais que a loucura;
quem já não foi chamado de louco quando a natureza e/ou o pensamento falaram
através das suas ações?
Júpiter é o planeta
regente do signo de Peixes.
Neste livro, nos volumes
um, dois e três, relaciono as Fases da Grande Obra Alquímica com os 22 Arcanos
Maiores do Tarot, os Signos do Zodíaco e os 64 Hexagramas do I Ching.
Eis os hexagramas que
relaciono com O Louco:
3 Zhūn,
Água sobre Trovão: A Dificuldade Inicial.
25 Wú
wàng, Céu sobre Trovão: A Inocência.
52 Kèn,
Montanha sobre Montanha: A Quietude.
61 Zhōng Fú, Vento sobre Lago: A Verdade
Interior.
Por ser bobo, por ser
louco, quero dizer, por sair de um padrão pré-estabelecido sobre o que é ser,
ele se encontra com o caminho do aprendizado, o qual pode, se quiser,
percorrer. Sua “tolice” de não aceitar uma pré-configuração ontológica
suposta/mente dada pela ou à espécie, sua ousadia de ousar, aparece no grande
tratado alquímico chinês como o hegrama A Inocência.
Atitude essa que gera a
inquietude, o “colocar o pé na estrada”, que, não sendo fácil, também não se
mostra mais difícil do que ficar quietinho na gaiola: A Dificuldade Inicial.
Sendo maluco, ele fica
calmo no meio do temporal, das violentas e turbilhonantes forças do tempo pelas
quais viaja, A Quietude.
E sendo razoável,
juntando o instinto, a razão e a intuição, na sua viagem para fora e para
dentro, ele atinge A Verdade Interior.
Em sua canção “Os
Alquimistas estão chegando”, do Lp A Tábua de Esmeralda, de 1974, Jorge
Ben canta assim as sétima e oitava das regras de Mestre Alberto, citadas acima:
“Todos bem e iluminados, evitam qualquer relação com pessoas de temperamento
sórdido”, pois é preciso entender a palavra “rico” do texto escrito cum
grano salis, com um grão de sal, isto é, com parcimônia, com cuidado: a
riqueza hermética e a glória alquímica sendo bem mais que o dinheiro e a fama
vulgares.
Aliás, é mais fácil de
se ver um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um alquimista de
verdade ficar se enchendo de ouro, o vil metal, que ele sabe sim fazer, pois a
Alquimia é a Arte Real.
Ou, como podemos ouvir nesta
cantiga de São Vítor:
Ele solidifica as peças
Com pedaços quebrados das gemas
E as distribui entre os pobres:
Traz um tesouro inesgostável
Quem dos ramos fez o ouro
E das pedras criou joias[38]
Meu nome é Hermes Grau
(Big Rider[39]).
Estava meio frio e eu
suava em bicas sob as cobertas.
Vesti uma camisa e uma
bermuda surradas e fui para o terraço da minha casa.
Levava comigo o pequeno
espelho, o aparelho de barba, uma vasilha com água limpa e uma tigela cheia de
água ensaboada.
Coloquei os objetos
sobre o parapeito que cercava o terraço, aquele que fazia a separação com o quintal
da casa da rua de trás, a qual ficava bem abaixo de nós.
Senti o vento me envolvendo, e fiquei
andando de um lado para o outro, olhando com calma mente as paisagens que podia
ver das ruas e casas da Ilha; ainda estava cedo, pela manhã.
Parei junto ao muro,
peguei o espelho e olhei minha juba de leão e a barba cheia e pentacolor (fios
brancos, castanhos escuros e claros, louros e vermelhos; assim, desde a juventude)
se espalhando selvagens por volta do que se podia ver do meu rosto: minha boca,
meu nariz e meus olhos, que emitem luz e calor.
Eu não queria raspar a
barba nem cortar o cabelo.
É que precisava muito
urgente arranjar novos trampos, escolinhas ou faculdades, onde, aos trancos e
barrancos, pudesse arrumar mais uns trocos, melhor se forem milhões, porque é preciso.
E o preciso é precioso.
E quem paga agora bem,
mas bem mesmo, meeesmo, para alguém?
Só se for uma coisa
muito burra e concomitante/mente muito burrificadora, como a tv ou youtuberes
imbecilizadores.
Olhou o sol que, cada
vez mais forte, ia tornando a cena superluminosa; isso antes das sete da manhã,
em plena primavera quase verão da incógnita e muçulmana antiga e louca Cidade
de São Sebastião do Rio de Janeiro, no distrito onze, Ilha.
– Introibo ad Altare Dei.
Falo(u) com toda a
solenidade, e jogo(u) a caneca e a vasilha e a gilete pelo muro, p’ro outro
lado, as quais foram cair no quintal da casa que havia embaixo, deixando para
lá a questão do que iam falar depois, se fosse se ligar nessa problemática para
a opinião dos zumbis – não dava mais um passo, fosse falso ou verossímil – na
verdade – nem saía do quarto.
E agora o que ele queria
mesmo é exata/mente sair.
Descendo a escada,
falou:
– Não sou um cara comum.
– Eu sei.
Lira Grau, a mulher de
Hermes Grau, lhe sorriu.
= Bom dia amor!!
= Bom dia!!!
= O que você fazia lá em
cima com espelho, cumbuca e gilete?
= Estava me arrumando
pra ir trabalhar.
= Mas o que você fez?
Parece igual. Cortou o cabelo? Aparou a barba?
= Mais ou menos. Vou dar
aula. Te amo.
= Eu te amo.
Naquele dia ele resolveu
ir andando até a escola, que também ficava na Ilha, nem tão perto assim, mas
precisava economizar. E aprecio muito caminhar.
Ontem, relemos Antiquissimi
Philosophi de Arte Occulta atque Lapidem Philosophorum Liber Secretus
Artephii[40].
Tirou do bolso a carta
que ia remeter à loja:
No dia 12/10, comprei um celular Intransitivo S431, na loja
Gorgozão; no dia seguinte, o celular apresentou defeito, fechando todos os
programas e não permitindo o uso. Fui no dia 14/10 à loja e o troquei; no
domingo, dia 3/11, o novo celular apresentou o mesmo defeito, fechou todos os
programas, desligou e não liga novamente, nem carrega, não dá sinal. A Garantia
Legal prevista pelo artigo 24 do CDC afirma que a troca de um produto essencial
como o celular não depende de prazo, e que a loja é
obrigada a trocar ou reembolsar o dinheiro em até 90 dias úteis depois do
aparecimento do problema. Eu estava usando o celular há 15 dias. Fui à loja
Gorgozão, onde a gerente Alpina não quis fazer a troca, nem me dar uma
declaração por que não o fazia, nem falou seu nome completo, para eu reclamar na
Defesa do Consumidor. Mandou simplesmente que eu ligasse para o atendimento da
Intransitivo. Fiz isso, fiquei um tempão instalando programas no computador
para reinstalar o Android, e, mesmo assim, não funciona, continua tudo igual.
Preciso do celular urgente para minhas atividades. Paguei à vista R$ 1479,90
pelo produto que não funciona. A Intransitivo não resolve e a loja se recusa a
devolver meu dinheiro ou trocar o celular. O artigo 18, parágrafo 1º, da Lei
8078/90 do Código de Defesa do Consumidor, reza que o produto essencial é
aquele que possui importância para as atividades cotidianas do cidadão; a Lei
Federal nº 7783/89 declara o celular produto essencial e a garantia legal
prevista no artigo 24 do CDC diz que o produto deve ser trocado pelo revendedor,
ou o dinheiro devolvido no ato. Essa demora em resolver o problema causa
prejuízos no trabalho e outros para o consumidor, o que é o caso, pois eu
preciso usar o celular no meu trabalho.
Enfiou a carta no bolso.
Essas máquinas de escrever...
Essas máquinas de fazer escravos loucos.
Estava na praia que ligava sua casa à escola, pela beira da Ilha.
Pouca gente na rua, a praia quase deserta.
Ele fez um montinho com suas roupas e ficou só de cuecas,
entrando assim no mar, sem chamar a atenção, para esfriar a cabeça e se
energizar.
В каждой ячейке должно
что-то лежать.
Deve haver algo em cada
célula.
Sabia que Will Shakes era alquimista?
Filáion risonho me pergunta por que eu afirmo isso, e pede
provas. Que provas há ou pode haver sobre a excência e a excelência de um
escritor? As suas obras. Que provas há ou pode haver sobre a qualidade e a essência
de um ser humano? As suas obras.
Essa relação já está
sendo feita, por exemplo, das poesias líricas de Shakespeare com a Alquimia,
por Margaret Healy no livro Shakespeare,
Alchemy and the Creative Imagination: The Sonnets and A Lover’s Complaint[41]; com as
peças teatrais por Ana Cristina Gonçalves Mateus, na dissertação Ocultismo e esoterismo na obra de
William Shakespeare: Hamlet, The Tempest e The Winter’s Tale[42]
e por Sylvia Morris no site The
Shakespeare blog, com o artigo Shakespeare and the Alchemistis[43].
É bem sabido que há muitas
citações e referências à Alquimia nas suas peças e poesias, mas a questão aqui
é provar que seus textos, muito além de de mostrarem o conhecimento do fato
alquímico, demonstram um caminho de realização alquímica.
Como os outros tradutores brasileiros dos sonetos de Shakespeare
que compulsei parece que o odeiam, à sua e à nossa língua e à poesia, eu me
torno um novo tradutor seu, eu que os amo por igual: ao poeta, ao idioma e à
arte.
Minha crítica se restringe aos que fizeram versões dos seus
sonetos para o Português, no Brasil e em Portugal, os quais consultei; talvez
haja melhores traduções, mas entre todas que li, não as encontrei. Já o teatro
shakespeariano teve outra sorte na transposição para a nossa língua, tendo tido
competentes versões realizadas por Onestaldo de Pennafort, Geir Campos, Oliveira
Ribeiro Neto, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Artur de Sales, Manuel Bandeira,
Anna Amélia Carneiro de Mendonça, Paulo Mendes Campos, Jorge Wanderley, Millor
Fernandes etc.
Na minha leitura, entre eles se destaca a excelente tradução
de todas as peças realizada por Carlos Alberto Nunes[44], poeta e tradutor do
mais alto nível, como o demonstrou ao transpor também a Ilíada e a Odisseia de
Homero e Eneida de Virgílio e a
íntegra dos Diálogos de Platão.
Carlos Aberto Nunes, no século XX (tendo nascido no século
XIX), é um legítimo continuador/renovador do trabalho do seu conterrâneo Manuel
Odorico Mendes[45], do século XIX (tendo
nascido no final do século XVIII), os dois naturais de São Luís do Maranhão (um
em 1799, o outro em 1897), sendo que Carlos ainda por cima realizou o projeto
que Odorico acalentou de escrever uma epopeia brasileira[46].
– Você sabe, Filáion, Nietzsche escreveu que escolhia seus
inimigos entre pessoas grandes, seria desonroso e vil vir a ter e se ater a
inimigos baixos, e isso, entre outras coisas, é um sinal de muita coragem: não
bater nos fracos, só agredir a quem mereça e possa ser enfrentado.
– No Brasil, Lobão (nome artístico do compositor,
multinstrumentista e cantor João
Luiz Woerdenbag Filho, por exemplo, entre outros, no seu livro de 2020, 60 anos a Mil, pela editora LeYa, São
Paulo) esculhamba com aquilo que ele mesmo alcunha
como a “máfia do dendê”; não é um inimigo tão sensacional assim. Mais
importantes, as suas colocações políticas.
Defendendo
a chamada na época esquerda festiva, e principal/mente a si mesmo, esse grande
escritou mundial que também foi alvo do ostracismo e da barragem que os grandes
talentos quase sempre enfrentam em nosso país, José Carlos Oliveira, na crônica
que publicou na sexta-feira, dia 23/08/1968, no Caderno B do Jornal do Brasil,
intitulada “Por que a esquerda festiva não toca fogo na bandeira soviética?”,
assim escreve:
Em minha opinião, o fato de estar paralisada pela
perplexidade somente honra a esquerda festiva. É preciso distinguir. Eu, por
exemplo, tenho horror aos comunistras brasileiros – não os comunistas
históricos, mas os oportunistas mais recentes que industrializaram o
esquerdismo, transformando-o em mercadoria de fácil assimilação nos lançamentos
editoriais, na poesia, no teatro, no cinema, na crítica estética. Conheço-os de
perto e, sem exagero, fico nauseado quando se aproximam de mim. Já vi muitas
vezes como são capazes de trair qualquer consideração de ordem moral, e ainda
por cima sem qualquer elegância. São arrogantes, mesquinhos, ingratos e burros;
alguns emburreceram no processo de conversão. Rinocerontes. E estão ganhando um
bocado de dinheiro com esse procedimento que chamam de comunista, o qual nada mais significa do que a exclusão sistemática
de quem quer que não pertença à panelinha. (Trata-se de um assassinato
simbólico – uma antecipação dos assassinatos concretos que eles praticariam tão
logo chegassem ao poder).[47]
Cito ainda
Zé Rodrix, compositor que não é ouvido tanto e como poderia, tendo ainda se
revelado um excelente romancista, com a monumental e iluminada Trilogia do Templo, tendo a sua obra
ficcional repleta de referências alquímicas, como lemos nestre trecho de O Cozinheiro do Rei:
/.../ e todos
filhos da mesma fonte de luz e vida, para a qual não existe diferença entre as
coisas, porque todas as coisas são feitas da mesma única luz que a tudo permeia
e em tudo penetra.[48]
Vou
oferecer mais dois poetas alternativos, defendendo minha tese de que se realiza
no Brasil um programa internacional que tenta tornar desconhecidos a arte e o
pensamento originais feitos aqui. Esse programa é maior e mais abrangente que o
capitalismo, o comunismo ou o fascismo, pois se trata da matriz de todos os
três, por igual.
Os poetas
que coloco como autores de antídotos que servem para contrabalançar uma
proposta da música e poética (e a
fortiori da cultura) brasileiras sendo Tom Zé e Odair Cabeça de Poeta, os
quais já estudei no livro O Sol Nasceu
pra Todos[49],
e dos quais indico uns discos: o LP Todos
os Olhos, do Tom Zé tocando e cantando com Odair Cabeça de Poeta e o Grupo
Capote, Continental, 1973; o compacto Quem
não pode se Tschaikovsky (sic)[50], também realizado pela
junção deles, Continental, 1973; e o LP Grupo Capote no Forrock, Continental, 1973, de Odair Cabeça de
Poeta e Grupo Capote. Não se trata de erigir a
“arte pela arte”, ou ser contra o “engajamento social”. Nosso estimado
Fulcanelli já mostrou no seu terceiro livro[51] que a Alquimia é sempre
ética, política, estética, social e ecológica. E assim são as obras, tão
diferentes, mas com muitos pontos em comum, dos poetas/cantores/compositores
Dódó e Zézé, Tom Zé e Odair Cabeça de Poeta.
Sem se
tornarem paternalistas por mostrar a desigualdade social, com olhar horizontal,
de igual para igual com as outras pessoas, o vertical ficando para a percepção
do espírito na sua obra, diferente dos autores arrogantes, que “lutam” pelo
povo com suas poesias, de cima para baixo. Coloco aqui os outsiders como contraponto e crítica aos outdoors da música brasileira nos anos setenta (os mesmos, às
vezes, até hoje); veja/leia/ouça esta letra da música “Complexo de Épico”, que
traz uma visão social alquímica e foi feita de improviso no estúdio na hora da
gravação, e que está nas faixas 1 e 12, a mesma música fecha e abre (a música
se torna assim, ao mesmo tempo que cita, o Ouroboros) o LP Todos os Olhos, de Tom Zé:
Todo compositor brasileiro
é um complexado.
Por que então esta mania danada,
esta preocupação
de falar tão sério,
de parecer tão sério
de ser tão sério
de sorrir tão sério
de chorar tão sério
de brincar tão sério
de amar tão sério?
Ai, meu Deus do céu,
vai ser sério assim no inferno!
Por que então esta metáfora-coringa
chamada “válida”,
que não lhe sai da boca,
como se algum pesadelo
estivesse ameaçando
os nossos compassos
com cadeiras de roda, roda, roda, roda?
E por que então esta vontade
de parecer herói
ou professor universitário
(aquela tal classe
que, ou passa a aprender com os alunos
– quer dizer, com a rua –
ou não vai sobreviver)?
Porque a cobra
já começou
a comer a si mesma pela cauda,
sendo ao mesmo tempo
a fome e a comida.[52]
Sob o
enfoque do complexo de inferioridade perante a música estrangeira, Hermeto
Pachoal falou, por essa época, numa entrevista a O Pasquim: “Músico brasileiro é um complexado”[53].
A
registrar ainda a tremenda musicalidade, tanto da obra de Odair Cabeça de Poeta
quanto de Tom Zé. Cada canção tem um estilo e uma proposta diferentes. Tom Zé
trabalha com harmonias polifônicas e ostinato. Odair Cabeça de Poeta e o Grupo
Capote brincam com os andamentos, uma rara riqueza rítmica, utilizando ritmos
complexos combinados nos instrumentos de percussão e melódicos, o domínio no
jogo do canto da voz principal com o coro, e em conjuntos das complexidades rítmicas,
das harmonias, vocalizações e semitons – brincam com tudo. As letras também. Super
criativos, alta/mente poéticos, crônicos e aiônicos, bombastica/mente
experimentais e sociais. Fala, Zé:
Tô estudando pra
saber ignorar
Eu tô aqui
comendo para vomitar[54]
– Hoje em dia é comum qualquer um achar que é um Leonardo da
Vinci, e que pode fazer com talento todas as artes e misteres; todo mundo pensa
que é pensador e escritor, basta encher algumas páginas no word. Como não sabem
ler de verdade, completa/mente, nem sabem na realidade o que é um texto, e, de
forma mais gritante ainda, não fazem a menor ideia do que seja literatura, quanto
mais pensamento, basta dispor de uma grana firme e pagar uma microedição que
não será lida nem comprada, ou ter ainda o nome na mídia, isto é, tv e/ou
internet, para ser comprado e lido por verdadeiras legiões de boçais, que
adoram as boçalidades ali garatujadas. Se lessem mesmo Bukowski ou Shakespeare,
não pensariam tais asnices. Quanto mais tolo é o sujeito, mais ele “se acha”, e
como já cantou genial/mente Noel Rosa: “Quem acha vive se perdendo”[55].
– Sim, meu amigo. Bukowski atacou figurinhas do pop en passant, porém, mais que tudo,
aqueles que eram considerados os maiores escritores americanos e europeus. E
ele está certo. Escreveu um livro intitulado, em inglês, Shakespeare nunca fez isso[56], o que ele fez, o que é
um truísmo, porque cada um é cada um, e cada um faz o que faz. Mas também o critica em vários textos, segundo
ele, William é chato, tedioso, maçante, não desenvolve o pensamento, é um
grande poeta burro. Muitas vezes concordo com Bukowski, ele é um jorro de vida
na literatura mundial. Todavia, no caso do poeta inglês, penso que ele não viu
uma coisa, e tudo bem, a maioria não consegue ver também: Shakespeare escreve
(sempre; aqui recitarei oito sonetos seus, e os mesmos vou traduzir, todavia,
essa teoria vale igual/mente para todos os seus textos, as poesias líricas e as
peças) a mais clara e nobre Alquimia.
– Agora vem a prova?
– A prova vem agora:
Sonnet 7
Lo! in the orient when the gracious light
Lifts
up his burning head, each under eye
Doth
homage to his new-appearing sight,
Serving
with looks his sacred majesty;
And
having climbed the steep-up heavenly hill,
Resembling
strong youth in his middle age,
Yet
mortal looks adore his beauty still,
Attending
on his golden pilgrimage:
But
when from highmost pitch, with weary car,
Like
feeble age, he reeleth from the day,
The
eyes, ‘fore duteous, now converted are
From
his low tract, and look another way:
So thou, thyself outgoing in thy noon
Unlooked on diest unless thou get a son.
Soneto 7
Vê!
No Oriente, quando a luz graciosa
Ergue
a cabeça em chamas, cada olhar
Curva-se
à ígnea visão, que é sacra e nova,
Louvando-lhe
a realeza, a admirar;
Subindo
a íngreme e celestial colina,
Parece
forte e jovem, e é madura;
E,
ao mesmo tempo, a admiração perdura,
Enquanto
ela, dourada, peregrina:
Mas,
quando em alto tom, carro gemente,
Como
se fosse idosa, se retira,
Olhos
antes fieis, já se desviam,
Não
querem mais mirar o céu poente;
Também
tu, ao decair teu apogeu,
Serás,
se não tiveres filho teu.
– E por que você fala que essa é uma poesia alquímica?
– Porque trata da transformação que aparece o tempo todo na
natureza, e que é evidente com o nascer do sol e o seu caminho pelo céu, até o
poente. Diante dessa essência transformadora da physis, o poeta-alquimista
deseja dela participar, tanto porque, sendo ele um homem encarnado, já
participa, quanto porque entende algo da matéria, da energia, do espaço, do
tempo e das excências do que presencia, e deseja poder atuar também na obra de
Deus, sendo ele o ser humano filho de Deus, quer contribuir com a realização do
seu Pai.
A excência na matéria experimenta o tempo todo as
metamorfoses, e, por isso, o homem deseja experimentar ele também a
transmutação, na natureza com a qual vive e consigo mesmo. “Ter um filho teu” é
se gravar no livro alquímico do mundo, e essa realização é a obra, em suas
várias manifestações.
As pessoas sempre estão
ensinando Alquimia para você, sejam os grandes Adeptos, ou seja o homem mais
simples e humilde, em suas palavras, ações e obras, há, às vezes, ali, um
precioso ensinamento hermético, se você souber ler, se tiver ouvidos para
ouvir.
Lembro que em uma das
primeiras aulas de ciência que tive, na quinta série do primeiro grau no
Colégio Pedro II, eu tinha dez para onze anos, o professor falou para a turma: “A
água é o solvente universal”. Sem saber, sem querer?, ele estava nos dando uma
lição preciosa do Magistério Filosofal. Ele falou ainda, noutra aula, que havia
um fluido sutil entre os astros, chamado éter.
Isso foi em 1972.
Eu vos batizo com água para o
arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. De
fato, eu não sou digno nem ao menos de tirar-lhe as sandálias. Ele vos batizará
com o Espírito Santo e com fogo.[57]
Vivo nestes 21 anos iniciais do século 21 o percurso
iniciático do Mago.
Porque Hermes Grau ibin
Carlos (aut Ben Karl) nasceu nesse tempo, no início da hora, do dia, da semana,
do mês, do ano, do século e do milênio, ou porque se reiniciava aí seu
aprendizado, ou por qualquer outra razão, e os vinte e um anos que se
desenrolaram então foram cada um em sequência regido por uma carta do Tarot, na
Grande Obra.
Ah sim, nessa época da
ilha eles me chamavam de louco, e eu real/mente era como um louco, não posso
dizer manso, porque meu entusiasmo me tornava muito ativo e feroz, mas um louco
racional, ou um racional enlouquecido.
Aí fiz essa poesia:
Zero
Nagualismo? Não
importa o que isso seja!!!
Minha religião é o universo...
Fluxo turbilhonante aonde adeja
A força clara e rútila do verso.
Chego a pensar que seja um pluriverso
Que ruge e ri, se harmoniza e troveja.
Está em si e além, é o verso e o inverso,
E então renasce, quando se deseja
Com desejo profundo e bem sincero.
Seu nome é Eros; mas tem qualquer nome
Porque é uma fera, urge, sente fome
E arde em fogo que nunca se consome.
É Ouroboros, e, com todo o esmero,
Ele me gera e (ao mesmo tempo) o gero.[58]
Porque uma semente
precisa ir além do solo que a abriga, que parece tão agradável e que não
precisa ser superado, mesmo a se/mente, ou a ave no ovo, ou o feto no ventre da
mãe, estando tão feliz de estar ali, e não sabendo como ou por quê pode querer eclodir,
ela e ele têm algo nele e nela que lhes diz que é preciso e precioso nascer
para poder ser.
O zero representa tanto
o nada quanto o tudo.
/.../ Essa criação é relativamente
recente (talvez pelos primeiros séculos da era cristã) e foi devida às
exigências da numeração escrita. Todos conhecem o princípio em que essa numeração
se baseia e qual o papel que nela desempenha o símbolo zero. Uma coisa
que nem toda gente repara é que essa numeração constitui uma autêntica
maravilha que permite, não só escrever muito simplesmente os números, como
efetuar as operações /.../.[59]
O Louco procura algo. E,
às vezes, ele encontra. Essa é a procura da matéria prima.
Na Alquimia, esse é o
momento do Caos.
E desse Caos nasce a
Luz.
O louco não tem número,
ele vaga, sem se fixar, por todo o Tarot.
Zero e vinte e dois (que
virou gíria para maluco no Brasil[60])
são formas de colocar seu número como variável, variegado[61].
E é isso que faz dele o louco, ele não se compromete com uma forma
pré-estabelecida de ser, uma identidade.
Por isso ele é o fator
mutante que permite à viagem começar e continuar.
O Louco está sob o
regime de Chronos, o mesmo que Saturno.
Sendo assim, o
fundamento da obra é Hermes, de onde tudo começa e pelo qual tudo se faz, de
onde vem a matéria próxima, a matéria prima, o fogo, o sal, a água e o Rebis,
mas, é preciso que o rei se torne louco, para que seja despedaçado e se desfaça
(sparadigmós), e
aí possa começar a verdadeira regeneração.
Com Saturno começa a
obra.
Saturno, o louco, é você:
o ser duplo.
Quando se fala do
Saturno da Alquimia, ou do Louco do Tarot, as pessoas fazem uma ligação
anacrônica (se bem que nas várias áreas da magia o tempo seja um complicatio,
um rizoma enlouquecido de tempos, como na física quântica e na teoria das
supercordas, o tempo joga dados para todos os lados, o tempo todo, é uma
criança brincando, então o seu anacronismo é total/mente válido, alquimica/mente
falando): pensam na loucura institucionalizada e psiquiatrizada do Senhores
Freud, Foucault e companhia.
O louco de que falo aqui
é você; essa é sua melhor (in-)definição.
Homem comum.
Menino, que não sabe
nada, mas quer saber tudo, quer tudo.
O insensato, jovem,
adolescente, de qualquer idade, que bota a mochila nas costas, e o pé na
estrada, pra ver, aprender, conviver, amar e crescer.
É o bobo da corte
medieval, aquele que é o único que não pode falar nada que preste, e tudo que
ele fala vale ouro, e até os poderosos param para ouvir. Ou fogem, ou fingem.
O histrião ou jogral é o
contrário do Rei Midas, tudo que aquele rei tocava virava ouro, e com isso ele
tornava tudo imprestável – por mais que o ouro seja valioso, quem pode comer
uma fruta ou um pão feitos de ouro?
Há dois tipos de
antialquimista: o molybdóforo, que transforma ouro em chumbo, é um; o outro é o
Midas, que transforma tudo em ouro.
Chumbo em grego antigo é
mólybdos (em latim é plumbum); ouro em grego antigo é chrysós (em latim é aurum); o verbo phérō em
grego significa carregar. Os neologismos que criei com as matrizes grega e
latina molybdóforo e plumbóforo significam literal/mente “aquele que carrega o
chumbo”, no sentido de ser o produtor do chumbo, em contraposição a crisóforo,
que é aquele que traz o ouro e por isso o produz. Esta palavra remete a Cristóforo,
do latim Christophorus, que veio do grego antigo Χριστόφορος, que significa
“aquele que carrega” phérō (φέρω) Cristo (Χριστός).
Esta é a origem do
epíteto atribuído a São Cristóvão, cujo nome era Réprobo. Com ele se deu um
acontecimento milagroso, que lhe deu o nome de santo, e que tem muito
significado para nós:
Um rei
pagão em Canaã ou na Arábia, através das preces de sua esposa, teve
um filho a quem batizou de Reprobus (Offerus), dedicando-o ao deus
Apolo. Adquirindo tamanho e força extraordinários com o tempo, Reprobus
resolveu servir apenas aos mais fortes e bravos. Em sua busca por tais
indivíduos, ele acabou servindo a um rei poderoso e a um indivíduo que alegava
ser o próprio Satanás, mas acabou por achar que faltava coragem a ambos, uma
vez que o primeiro temia o nome do diabo e o último se assustara com a visão de
uma cruz na estrada. Em seguida, ele encontra um eremita que o educou na
fé cristã, batizando-o. Reprobus se recusou a jejuar e a rezar para
Cristo, mas aceitou a tarefa de ajudar as pessoas a atravessar um rio perigoso,
no qual muitos haviam morrido ao tentar fazer a travessia.
Certo
dia, Reprobus fez a travessia de uma criança que ficava cada vez mais pesada,
de tal maneira que ele sentia como se o mundo inteiro estivesse sobre os seus
ombros. Após a travessia, a criança revelou ser o Criador e o Redentor do
mundo. Daí provém o nome Cristóvão, que significa “aquele que carrega
Cristo”. Em seguida, a criança ordenou a Reprobus que fixasse seu bastão
na terra. Na manhã seguinte, apareceu no mesmo local uma exuberante
palmeira. /.../[62]
O bobo não chega a ser
um alquimista, mas ele é um namorado da alquimia: pois tudo que ele fala vale
ouro.
Ele é o heyokah[63],
o palhaço da tribo, o feiticeiro que não respeita nada, mas que tem um respeito
infinito pelo Amor, pelos Irmãos, pela Terra, pelos Pais e pelo Grande
Espírito.
É aquele habitante de
Heliópolis, que anda por aí e faz as coisas como um homem e uma mulher normais.
Mas que, inerente/mente, quer mais.
O louco é você, que
começou o aprendizado, e vai passar por vinte e uma estações de desenvolvimento
que são lições e são vivências, para aí, sim, real mente, começar a aprender;
aí a gente conversa:
Abra os olhos e olhe em
volta. Você não deve nada, não há prescrição de onde você deve estar, como
está, o que faz. Vamos supor que está lendo, sentado na sala, e que para de ler
depois que lê este primeiro seminário, e olha em volta. Ou está caminhando na
rua. Ou passeando na floresta.
Olhe em volta. Veja cada
elemento que está aí como um pedaço de você. Essa é a sua casa, você. Bergson
fala que meu corpo se estende até a estrela que vislumbro no céu. Sinta isso,
que suas células são cada uma um ser, que você existe somado à soma delas, e
que essa soma, delas e você, é soma, o seu corpo, você.
Mas que também se
estende em todas as direções. Sendo seu corpo, seu veículo energético e vital,
você pode senti-lo, acessá-lo, controlá-lo. O controle do seu corpo, mesmo
coisas que antes pareciam impossíveis, não é milagre. É simples harmonia do
pensamento/sentimento de você com suas partes.
A energia vir para você
do universo, ou você senti-lo, como se fosse seu eu, é também natural, essa é a
sua phýsis que é o seu lógos.
Você se sente o louco,
mas sabe que isso é pouco.
Você se sente o sábio,
mas sabe que é demais.
Você é você, e esse é o
caminho para as mais fantásticas realizações.
Capítulo 1: O Mago א
Assim começa a Bíblia,
na tradução dos Setenta sábios:
᾿Εν ἀρχῇ ἐποίησεν ὁ Θεός τὸν ουρανὸν
καὶ τὴν γῆν[64]
No princípio criou Deus o céu e a
terra.
(Gênesis 1:1)[65]
Meu amigo, o pensamento
do hermetista é que a criação acontece o tempo todo, sem parar. Ligar-se a esse
fluxo criacional é a Alquimia.
Esta é a melhor
etimologia da palavra: Al significa
Deus. Quimia pode ser o metal
derretido, isto é, o físico que se solve e se torna líquido, depois ar, depois
fogo, depois luz: espírito que faz da pedra luz, isso vindo da raiz grega chemeia.
Alquimia assim significa:
A Luz de Deus, A Arte Divina e, também, O Sol de Deus.
Na palavra Alquimia já
está o incluído o ensino do procedimento: Solve e o Coagula, o Ergon e o Parergon.
Em egípcio, quimia vem da palavra kēme ou chem, que significa terra negra, e a expressão designa então Deus
Negro ou Luz Negra, no sentido de desconhecido, e que remete a um mundo negro,
um mundo desconhecido, cheio de possibilidades.
Quando o aspirante aos mistérios passava pelas provas e era
admitido no círculo, lhe era sussurrado ao ouvido: “o Deus Osíris é negro”.
Como podemos ler no site Gnosis
online:
“OSÍRIS É UM DEUS
NEGRO”. Palavras terríveis, espantosas. Insólita e misteriosa frase que era
pronunciada secretamente, no sigilo dos templos, durante as cerimônias
iniciáticas no ensolarado país de Kem. Bem sabem os Deuses e os Homens que
Osíris-Numen, o Deus Egípcio, resulta no fundo absolutamente incompreensível
para todos nós.
Isso que é
mistério, isso que não entendemos, é negro para o intelecto humano. Depois
desta explicação compreenderão nossos leitores a profunda significação daquela
misteriosa frase.
No começo ou
aurora de cada universo, a eterna Luz Negra ou obscuridade absoluta converte-se
em Caos. Está escrito e com palavras de fogo em todos os livros sagrados do
mundo que o Caos é o viveiro do Cosmos.
O Nada, o Caos, é
o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim de todos os mundos que vivem e palpitam
no infinito inalterável. No Aitareya Brahma, preciosa e magistral lição do
Rig-Veda, fica, de fato, demonstrado até a saciedade a tremenda identidade que
há entre essas luminosas idéias de brâmanes e pitagóricos, pois uns e outros se
apoiam na matemática. No citado volume hindustânico alude-se com frequência ao
fogo negro, à obscura sabedoria abstrata, luz absoluta incondicional e sem
nome.
Esta Seidade
abstrata é o ZERO-ASTER primitivo dos persas, o Nada saturado de vida,
aquilo... aquilo… aquilo… Deus em si mesmo, isto é, o Exército da Voz, o Verbo,
a Grande Palavra, morre quando chega o Grande Pralaya, a noite cósmica, para
renascer terrivelmente divino na aurora do Mahavântara.
O ZERO ABSOLUTO
RADICAL em aritmética transcendente, o espaço abstrato em geometria, a
incognoscível Seidade (não se confunda com Deidade que é diferente), não nasce,
não morre e nem se reencarna.
Desse modo
incognoscível ou zero radical, emana a Mônada Pitagórica ao começar qualquer
universo sideral, o Pai-Mãe gnóstico, o Purusha-Prákriti hindu, o Osíris-Ísis
egípcio, o Protogonos Dual ou Adam-Kadmon cabalista, o Teos-Chaos da teogonia
de Hesíodo, o Ur-Anas ou fogo e água caldeu, o Iod-Heve semítico, o Zero-Ama
persa, o Uno-Único, o Aunadad-Ad budista, o Ruach Elohim ou Divino Espírito do
Senhor flutuando sobre as águas genesíacas do primeiro instante. /.../[66]
A Alquimia é uma ciência
completa e única, é impossível entender a menor frase ou gravura da Alquimia
fazendo relação com a Ciência, a Filosofia ou a Psicologia comuns.
A Alquimia é efetiva,
afetiva, pessoal, intransferível e, mesmo assim, comunicável num alto nível e
incompreensível, diferente/mente, em termos de física, química etc. Mas, sim: a
Alquimia é racional e compreensível.
Esta origem da palavra
que avento aqui é um trabalho meu, assim como a canalização sobre a vida de
Hermes no Egito, ou a explicação sobre a origem da linguagem, dos sinais e dos
mitos; considere estas investigações desreferencidas como escopo da fiação
ficção que fio neste livro, meu filho.
A maioria dos tratados
que compulsei considera Al como o
artigo árabe, oriundo do fato de que, na Idade Média, a Alquimia começou a
florescer com mais liberdade e incentivo no mundo islâmico; chemeia em grego é a fusão (por exemplo,
do metal) e chem em egípcio seria
usado com a conotação de “terra negra”, aquela do solo fertilizado pelo rio
Nilo.
Leiamos algumas teorias:
A palavra alquimia é composta pela
preposição “al” que é árabe, significando sublime, excelente e de “Química”.
Assim, seguindo a força da palavra, a Alquimia é a Química sublime ou Química
por excelência.
Enciclopédia
de Diderot e D’Alembert,
século XVIII.
O nome da alquimia deriva de
“Química” e da partícula Árabe “al”. Os orientais tinham há muito o costume de
ressaltar a excelência de uma coisa, atribuindo-a à divindade. Assim, Alquimia
significa literalmente, “Química de Deus”, pois a palavra “al” significa o Ser
Supremo.
James Robert. Dicionário Universal de Medicina. Paris: 1746.
A palavra alquimia na língua árabe
significa fogo.
Anônimo. Instrução de um Pai para seu Filho sobre a Árvore Solar, in Theatrum Chemicum Britanicum, Elias
Ashmole, 1617.
O autor anônimo de um curioso
manuscrito acredita que a palavra alquimia deriva de “als”, que em grego
significa sal, e de “chemia” que significa fusão... Outros descobrem sua origem
na primeira denominação da terra do Egito, pátria da Arte Sacra, Kemi ou
Kimi... Se tivéssemos que dar nossa opinião, diríamos que na cabala fonética
significa o que escorre, mana, flui, e indica particularmente o metal fundido,
a fusão em si mesma, assim como qualquer trabalho feito de metal fundido, isso
seria uma definição breve e sucinta da Alquimia enquanto técnica metalúrgica...
Mas sabemos que o nome e a coisa se baseiam na permutação da forma pela luz,
fogo ou espírito...
Fulcanelli. As Moradas do Filosofais, 1929.
Não se sabe com exatidão a origem
da palavra alquimia. Não parece ter uma raiz bem definida. Marcelin Berthelot (Los
orígenes de la alquimia, 1885) sugere que a alquimia poderia derivar de um livro antigo que tinha por título Chema, um texto que ensinava aos humanos
as primeiras artes, incluindo a Alquimia. Essa conclusão foi tirada da leitura
do livro Imouth (Imhotep, deus egípcio),
cujo autor, Zósimo o Panopolitano, é o mais antigo dos alquimistas autênticos
conhecidos. O nome Chema se encontra no Egito sob a forma Chemi, título de um tratado citado em um papiro da XIIª dinastia e
confiado por um escriba a seu filho (Maspero. Histoire ancienne des peuples de
l’Orient). Champollion
também a vinculou à chemi egípcia, um
termo que os hebreus traduziram por “terra de Cam” (filho de Noé e presumido
alquimista). Outra etimologia possível a faz derivar de Quimia, em grego cheuô,
fundir, da qual derivariam chymos, química
e as palavras congêneres. [67]
Assim, a palavra
Alquimia, misturando elementos egípcios, gregos e árabes significaria “a arte negra”.
Algo assim é quase que uma “versão oficial” do nome; todavia, já escrevi aqui o
que penso a respeito.
Visita Interiora Terræ Rectificando Invenies Occultum Lapidem Verba Secretorum Hermetis[68])
Esse escudo também aparece como uma versão simbólica da Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegistos,
no livro que traz a interpretação de Hortulano e o aplicação do seu texto ao
contexto atual, por Fulcanelli, na obra Finis
Gloriae Mundi:
Esta
Tábua de Esmeralda em linguagem simbólica está publicada como a lâmina 95 do
compêndio de alquimia sob o título de Viridarim
Chymicum (O Jardim Químico) [69]
O qual, por sua vez, a usou citando do livro Figuras
secretas dos Rosacruzes dos séculos XVI e XVII, que está nas minhas notas.
Carlos chegou à escola alguns minutos depois de bater a
sineta, subiu correndo pelas escadas até à sala dos professores, falando
bons-dias a esmo, pegou os diários e foi prà turma daquele horário:
– O barraco... E a casa
barroca[70].
Os olhares perdidos dos jovens, a pior resistência ao
diálogo, sua afasia e apatia interiores, a vontade gigantesca que sentem de não
saírem um milímetro do mundinho que a família e a sociedade em volta lhes deram
de presente/passado/futuro.
A revolta deles é ler em português literário, normal,
coloquial, do século passado, arcaico, latim, português clássico, italiano,
espanhol, português brasileiro atual, ou qualquer outra língua, fora a inglesa
mais simplificada e fake da mídia. Por que esses sujeitos escrevem tão
difíceis. Inglês não nos revolta.
– Prof, quantas línguas
o senhor fala?
– Estou estudando
inglês. Porque quero conhecer de perto os Estados Úmidos da Armórica.
Alguém ama esses seres,
na cama foram feitos, num ato que de alguma forma foi de amor, ou foi amor.
Na cama estava sua
geratrix quando os pariu.
Na cama querem ficar
deitados, a juventude inteira, conectados aos fios que lhes induzam glicose e
imagens, sem parar, pathoindutores; psicoconstrutores; panpathos.
Depois da aula o diretor
quer falar com ele.
– Eis aqui o pagamento,
professor Carlos.
– Está bem.
– Os alunos têm
reclamado muito do senhor. Quero dizer, da sua aula, do seu método.
Qual meu método? Quer saber?
Zósimo
de Panópolis (Akhmin) escreve por volta do ano 200 de nossa Era a primeira
enciclopédia sobre Alquimia em 28 volumes. Anteriormente, na opinião de
Holmyard, o livro mais antigo conhecido sobre Alquimia foi escrito no Egito por
Bolo Demócrito por volta de 1000 a. C.[71]
Ele tem uma receita, de Zósimo o Panopolitano[72] (séc. III e IV d. C.), que traduziu do espanhol e usa para o dia e para noite, tonal e nagual (convido o leitor a lê-la, mais à frente). Ao lado do seu mestre dos sonhos Bolos de Mendes (séc. III a. C.) e dos alfarrábios sábios de seu mestre desperto Fulcanelli.
Zósimo de
Panópolis foi um alquimista dos séculos III e IV. Esse personagem nasceu em
Panópolis e é considerado um dos primeiros alquimistas da história, além de ser
autor de um livro enciclopédico sobre alquimia, que continua sendo o texto mais
antigo sobre o assunto. O conteúdo deste livro é a descrição das visões místicas
que combinam dogmas constituídos por cristãos e pagãos.
Zósimo forneceu uma das primeiras
definições de alquimia como o estudo da “composição das águas, seu movimento,
crescimento... de onde os espíritos são extraídos dos corpos e ligados a outros
espíritos dentro dos corpos”.
Teve influências herméticas e gnósticas,
teve visões que descreviam sua ação sobre os humanos:
• O vaso alquímico da pia batismal e os
vapores (e corantes) de mercúrio e enxofre foram usados para purificar as
águas do batismo, aperfeiçoando a iniciação gnóstica.
• A imagem hermética da cratera ou tigela
é um símbolo da mente divina na qual o iniciado hermético foi “batizado” e
purificado no curso de uma ascensão visionária através dos céus e nos reinos
transcendentes. /.../[73]
Muita gente pensa que
esse é o começo da nossa arte no mundo, quando, mesmo na história oficial da
literatura ocidental temos Homero[74]
(séc. X ou IX a. C.) e Hesíodo[75]
(séc. VIII e VII a. C.), e, bem mais explicita/mente ainda, Ovídio (séc. I a.
C.) e Apuleio (séc. II d. C.), cujas obras, ainda que literárias, são, sem
dúvida, alquímicas (clara/mente também Virgílio, Dante, Camões, Sousândrade,
Pessoa, Carlos Pena Filho).
Tirando a questão de
dentro dos parêntesis: Carlos Pena Filho[76]
era o poeta alquímico do século no Brasil, mas ele morreu aos 31 anos num
acidente automobilístico, e sua obra ficou pouco conhecida até então. João
Cabral de Melo Neto[77]
o conheceu e com ele conviveu, José Ribamar Ferreira Gullar[78]
com certeza pelo menos o leu, e tudo que tem de bom nas obras desses dois é uma
versão aguada e desmilinguida do grande poeta alquímico Carlos Pena Filho. Ele
sim, o poeta da pedra, porque alquimista (não Cabral). Ele sim, o poeta sujo de
vida (não Gullar).
Ele, e antes dele, José
de Abreu Albano[79].
Lembremos que a obra do
poeta romano Publius
Ovidius Naso se nomeia justa/mente Metamofoses[80]; enquanto a do romano africano Lucius Apuleius tinha também esse título original
(Metamorphoseon libri XI, isto é, As Metamorfoses, em XI livros[81]), tendo sido renomeada posterior/mente
como O Asno de Ouro (Asinus Aureus), por Santo Agostinho, que dá
o título como sendo esse, não diz que foi ele que o batizou assim, mas sim seu
autor; porém, é a começar de sua citação que esse nome aparece, na obra A Cidade
de Deus, De Civitate Dei[82].
É fato documentado que o
I Ching, o Livro das Mutações sugiu
num período anterior à dinastia Chou[83],
na China, entre 2000 e 3000 a. C. (o que o faz contemporâneo de Hermes
Trismegistos, segundo nossa revelação).
No ano de 1783, o bispo
de Claudionópolis, Claude Visdelou, afirma, num comunicado à Congregação dos
Cardeais de Propaganda Fide, que o I
Ching “foi escrito há quarenta e seis séculos. Se isto é exato, como o
afirmam todos os habitantes deste país (China), podemos chamar a este o mais
antigo dos livros”[84].
E fica(rá) evidente para quem se proponha a nos ler que o I Ching é uma obra hermética; assim como o Tao-te King; compulsemos deste a poesia XXI:
O conteúdo da grande Vida
provém inteiramente do Tao.
O Tao gera todas as coisas
de modo tão caótico, tão obscuro.
Caóticas e obscuras
são as suas imagens.
Obscura e caoticamente,
nele estão as coisas.
Tenebrosa, insondável,
nele está a semente.
Essa semente é totalmente
verdadeira.
Nela existe autenticidade.
Desde a Antiguidade até hoje
não se pode prescindir de nomes
para se considerar todas as
coisas.
De onde conheço a natureza de
todas as coisas?
Justamente a partir da semente.[85]
Hermes Grau está
escrevendo o seu livro Ergon e Parergon: Autobiografia Alquímica. Preciso estar atento e explicitar logo no início que
este trabalho literário relaciona a Arte Hermética com os Arcanos maiores,
porque, como o demonstra Mebes nos dois ricos volumes da sua Enciclopédia, a
evolução espiritual humana está cifrada nos arcanos menores, os quais ele
relaciona com as Sephiroth, enquanto que os maiores, que se relacionam com os
caminhos dentro da Árvore da Vida, retratam a experiência humana comum, ligada
ao mundo, o que é também espiritual e evolutivo: em outras palavras, sendo mais
explícito, os Arcanos menores tratam do Ergon, os Arcanos maiores tratam do
Parergon.
Porém, por enquanto, precisa desacelerar bastante, pra poder pegar
o bonde da cantilena do dom Parlapatão e responder alguma coisa, a contento, o
qual lhe arroja umas tantas moedas à sua frente, como pagamento, pechisbeque[86], ouropel[87], ouro de tolo. Lembra
que viveu na Idade Média e seu nome era Hlodowick Karl.
Aí vem-me à mente a oportuna mensagem do gênio Raul Seixas na
canção “Ouro de tolo”:
Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou o dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73
Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa
Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso, abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família no Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco
É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa 10% de sua cabeça animal
E você ainda acredita
Que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social
Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora dum disco voador[88]
![]()
Eat se[89]
Vamos começar pelo arcano O Mago, que é a primeira página da
obra de divulgação alquímica de Hermes, o Livro de Toth, o Tarot; liga-se O
Mago à primeira letra do alfabeto hebraico, pois há letras representando as
forças do multiverso para todos os povos, cada povo tem as suas, nós temos as
nossas, os egípcios tinham os seus símbolos derivados das suas três escritas
(hieroglífica, hierática e demótica), pelos escribas transmitidos e lidos pelos
sacerdotes e pelos estudantes hermetistas, entre os quais o Faraó; nós recebemos
muito do ensinamento pela Torah Hebraica e pelos evangelhos dos cristãos.
Por isso podemos saber que o número do Mago é um, e um é o
signo secreto do multiverso (um plural). Seu número é um e sua letra é Aleph, a
qual representa o Boi, que é força e determinação, e na mitologia grega é o
carneiro que inspira o aríete, Áries, o que vem na frente, o que lidera as
letras ou signos que lhe seguem. O impulso inicial. O agente da criação e da
transformação. O princípio da transmutação. Forças elementais.
O planeta regente do signo de Áries é Marte. Seu elemento é o
Fogo. O elemento Fogo em Áries expressa seu caráter ativo, proativo, criativo,
procriador, é o Fogo como agente alquímico universal da transmutação.
Lembra daquela frase “quando um
alquimista fala de Áries, Touro ou Peixes, ele não faz referência ao seu
significado astrológico, mas ao seu simbolismo dentro do procedimento da Grande
Obra”?[90]
Pois eu pensei assim: a
Alquimia oriental, que se mostra forte na China e se espalha pelo oriente, se
alimenta bastante do I Ching, do
taoísmo e do horóscopo chinês.
Se alguém quiser
aprender a química contemporânea, terá forçosa/mente que aprender também
matemática e física.
A proposta desta nossa
conversa é mostrar relações entre a Alquimia e o Tarot, mas também com a
Kabbalah. Dentro dessa perspectiva, e sabendo o quanto a astrologia é
fundamental para o alquimista[91],
e dentro do gigantesco e colossal planejamento e realização deste livro (que
estou fazendo há décadas), resolvi “improvisar” e dar a contribuição da minha
intuição, relacionando ainda os arcanos do Tarot com os signos do zodíaco do
horóscopo ocidental, tudo isso dentro da harmonia da Alquimia.
No I Ching, milenar
oráculo chinês, o Mago é o hexagrama 1 Qián O Criativo[92], Céu sobre Céu: O
Criativo, que é a síntese do princípio Yang, que se alterna e complementa com
Yin, femino: “O CRIATIVO promove sublime sucesso, favorecendo através da
perseverança”[93].
O hexagrama O Criativo é formado de dois trigramas Céu, um
sobre o outro. Os 64 hexagramas são as combinações possíveis das per/mutações
dos 8 trigramas.
Também vejo a relação de O Mago com o hexagrama 50 Dǐng,
Fogo sobre Vento: O Caldeirão, que
é o recipiente da magia, a caldeira da Feiticeira, o cálice do Mago, e o
coração daquele que acredita e tem Fé.
As mais conceituadas edições
ocidentais do I Ching são aquelas
duas realizadas por James Legge e Richard Wilhelm. A mim
muito me ensinam e iluminam duas outras traduções, ao lado das citadas.
Uma delas é a do artista
plástico e pensador Roberto Campadello, a qual ainda traz o jogo Steps, que é uma forma variante de fazer
a consulta ao I Ching, sendo ao mesmo
tempo em si próprio um sistema de contemplação, meditação e aprendizado com desenhos-mandalas
autotransformáveis, que podem se ajustar e formam imagens, em qualquer posição.
O Steps trazem seis imagens com simbologias cósmicas, que podem se
apresentar voltadas para a direita ou para a esquerda, Yin (negativo, pranchas
pretas) e Yang (positivo, pranchas brancas), os seis originais aparecem duas
vezes (12), e os mesmos seis na Natureza original aparecem duplicados na
Natureza reflexa (efeito espelho, ideia que remete ao jogo Persona[94],
também criado por Roberto Campadello, no qual duas pessoas veem seus reflexos
mesclados numa superfície que fica entre as duas); o que se repete com os
originais Yin e Yang, gerando 48 pranchas. O consulente embaralha as pranchas
com a face voltada para baixo, sorteia uma e o rota entre o polegar o
indicador, colocando-a com a face voltada para cima, sobre a mesa. Repete essa
ação seis vezes, formando um hexagrama com duas fileiras de três ladeadas, o
qual é lido de baixo para cima, da esquerda para a direita. O resultado será
linha forte Yang quando a prancha for branca, linha fraca Yin quando for preta,
quando estiver na posição vertical (original, ascendente, como apresento aqui
no exemplo) é uma linha mutante, que muda de Yang para Yin ou de Yin para Yang,
quando estiver nas posições descedente, entrando ou saindo, a linha não é
mutante. As linhas mutantes trazem os oráculos e conselhos e geram o segundo
hexagrama, que indica a situação futura, como acontece normal/mente no I Ching, seja nos tradicionais jogo das
varetas ou no jogo das moedas[95].
Experi/mente.
Nesta amostra, que está
na página 21 do livro I Ching – Steps – O
Livro das Mutações – O Jogo da Vida, vemos as seis pranchas Yang com
natureza original e na posição ascentente. Se esse fosse o resultado do jogo,
seria o Hexagrama 1, com todas as linhas mutantes:
Leiamos o que Roberto
Campadello escreve quando traduz o comentário do Hexagrama 1:
A ligação harmoniosa deste signo
com acontecimentos cósmicos dá grande sorte e sucesso. Ação perseverante e
justa traz felicidade para o consultante e para o seu próximo.
Cada instante possui em si a
totalidade; assim, o nobre sobe nos seis degraus no devido tempo, como se fosse
sobre seis dragões, seguindo o caminho do céu.
Este é o itinerário para o
conhecimento e realização do sentido universal (lei que rege todas as coisas,
provoca todos os fenômenos condicionados pelo tempo, dando-lhes seu início e
seu fim).
O tempo não é considerado um
impedimento, mas o meio para a realização de todas as potencialidades do
possível. Assim, o homem sábio compreende os segredos da criação escondidos no
fim e no começo, na morte e na vida, no aparecimento e n o desaparecimento das
coisas. Estas polaridades opostas dependem reciprocamente uma da outra. Ele
eleva-se, então, sobre a relatividade das coisas caducas (perecíveis), assimila
o significado do tempo em termos de degraus que se sucedem ordenamente. /.../[96]
Outra tradução que prezo
é O Guia do I Ching, de Carol
Anthony, a qual consulto pratica/mente cotidiana/mente e que me ensina muito; a
mesma autora ainda faz em uma segunda obra um estudo genial e original da
teoria: A Filosofia do I Ching[97]:
“Permitir que o tempo e o espaço dado sejam o veículo do progresso.O tempo não
é parte da essência, o tempo é a essência” (Hexagrama 53 Chien/Desenvolvimento)[98].
Baseado no livro I
Ching traduzido por Richard Wilhelm, a Wikipédia traz esse quadro, em que
apresenta as características dos trigramas e seus atribuitos (Pinyin é a escrita das palavras chinesas
com letras latinas):
|
Trigrama |
Ideograma |
Pinyin |
Imagem natural |
Qualidades |
Outras imagens |
|
乾 |
qián |
o
Céu |
Criatividade,
força, |
O Criativo,
o cavalo (bom, velho, magro, selvagem), o pai, a cabeça, o redondo, o
príncipe, o jade, o metal, o frio glacial, o vermelho escuro, um fruto... |
|
|
坤 |
kūn |
A
Terra |
Disponibilidade,
adaptabilidade, |
O receptivo,
o búfalo, a mãe, o ventre, um tecido, um caldeirão, a economia, a igualdade,
o velho com o búfalo, um grande carro, a multidão, o tronco, o sol negro
entre os outros... |
|
|
震 |
zhèn |
O
Trovão |
Impulsão,
mudança de rota |
O Incitar,
o dragão, o 1º filho, o pé, o amarelo escuro, uma grande rua, uma cana ou um
junco... |
|
|
坎 |
kǎn |
A
Água |
Profundidade,
resiliência |
O Insondável,
o porco, o 2º filho, a orelha, covas, armadilhas, o arco e a flecha, o
sangue, o vermelho, a lua, a madeira firme com muitas marcas... |
|
|
艮 |
gèn |
A
Montanha |
Rigor,
coesão, |
A Imobilidade,
o cão, o filho mais jovem (3º), o caminho tortuoso, as pedras, as portas, os
frutos, as sementes, a madeira firme e nova... |
|
|
巽 |
xùn |
O
Vento, |
Penetração,
submissão, |
A Suavidade,
o galo, a 1ª filha, as coxas, o corvo, o trabalho, o branco, o longo, o alto,
o indeciso... |
|
|
離 |
lí |
O
Fogo |
Clareza,
lucidez, |
O Aderir,
a fênix, a 2ª filha, o olho, o brilhante, o escudo e a armadura, a lança e os
braços, a seca, a tartaruga, o caranguejo, o escargot, a árvore ressecada no
alto... |
|
|
兌 |
duì |
O
Lago |
Expressividade
e comunicativo, |
A Alegria,
o carneiro, a filha mais jovem (3ª), a boca (e a língua), a feiticeira, espedaçar,
a vizinha, o sol... |
O trabalho é dia e noite, de dia dá aulas e quando tem tempo
lê e escreve, à noite relê e relê, estuda, vê filmes e vídeos, faz as
experiências e escreve.
A casa da Ilha é enorme, e fica no alto de uma escadaria.
Tem um porão embaixo da casa, mas bem acima da rua, quase no
alto dos degraus que ligam o portão à porta da frente. Nele instalou o seu
Laboratório.
Nas aulas usa a figura da espiral para ilustrar o modo de
pensar, ser e sentir barroco, cada um dos dois lados a cada vez é desejado com
mais força: ele quer a santidade, mas quer mais ainda o pecado, mas quer com
mais força a santidade... indefinida/mente. Como a curva de uma espiral, que
vai crescendo, e, sempre que retorna àquela área, o faz mais ampla/mente e com
mais intensidade.
Enquanto caminha pela sua amada Ilha, lembra daquele ano em
que escreveu e montou com os adolescentes a peça de teatro hermética intitulada
O Mistério da Casa da Fonte de Águas Vivas[99], trabalho de autor e
encenador que ele assinava com o nome Lucas Vivacqua.
Pois seu trabalho é o magistério. Ergon e parergon.
Dá aulas de dia. E faz a Alquimia, dia e noite.
Mesmo quando está dormindo.
Há décadas. E cada paço da obra retorna infinitas vezes,
sempre com mais forte intensidade.
Faz parte.
Frater Albertus diz que a Alquimia é “o aumento das vibrações”[100].
Seu aprendizado começou na adolescência, com dois
acontecimentos.
Um foi escutar no rádio a música feita e
gravada por Jorge Ben: “Hermes Trismegistos e sua Celeste Tábua de Esmeralda”[101],
quando entrou em transe, ficando impressionado por várias horas, sentindo-se
como se tivesse alcançado o âmago do universo, o alfa e o ômega, como se fosse
um mago. Compreendeu
num átimo a criação e a natureza das coisas.
Por isso adotou nos seus escritos o nome do seu mestre
máximo.
A outra dica foi uma colega do grupinho de teatro, também na
mesma idade, que lhe indicou O Tesouro dos Alquimistas, de Jacques
Sadoul[102], e ficou uma tarde
falando sobre as coisas desses loucos que diziam que transformavam chumbo em
ouro.
O aprendizado começou em duas frentes, nas leituras
consuetudinárias, e nos sonhos: nagual e tonal[103].
Ao longo do tempo descobriu que aquele mesmo mestre antigo
que lhe ensinava e apresentava tantas maravilhas se chama Bolos de Mendes.
Foi engraçado o sonho que tive em que me eram por pessoas
estranhas mas maravilhosas oferecidos apreciáveis bolinhos doces e salgados, e
eu os comia com prazer, e quanto mais comia meu ser mais se iluminava e minha
consciência crescia.
Foi quando conheci aquele que mos ofertava, e que os fizera
ele mesmo, e que me disse em bom português-brasileiro que seu nome é Bolos de
Mendes.
Também há vários sonhos em que encontro um livro
transmutador, em muitos ambientes e com variadas histórias, e quando abro o
livro vejo que ele é revelador e me transforma.
(Quanto mais eu estudo e pratico Alquimia, mais os sonhos são
verdadeiras aulas alquímicas. Hoje sonhei com o livro que comprei e li, mas na
minha visão ele se revelou em muitas outras potencialidades, como se um livro
normal tivesse duas, e esse do sonho as tivesse várias.)
Houve mesmo um em que havia uma passagem secreta e muito
difícil por trás da minha casa, uma que as pessoas não viam, e que era
trabalhosa porque muito estreita e precisava escalar com grande dificuldade,
passar por perigos e malfeitores, até chegar num cômodo oculto a todos, onde
havia milhares dos livros mágicos, reveladores, transmutadores.
É preciso escolher uma letra, um mestre, um atanor, um fogo,
um ovo e uma só matéria.
Nesse tempo eu morava na
Ilha e me chamava Carlos; foi quando, em 1999, o velho homem se transmutou, e
foi gestado nesse ovo esse novo ser que eu sou, durante o ano 2000, e que no
ano de 2001 nasceu.
No artigo “Who really
wrote Shakespeare?”, com autoria de Robert McCrum, podemos ler:
Tudo o
que sabemos com certeza é que Shaxpere, Shaxberd ou Shakespear nasceu em
Stratford em 1564, que ele era um ator cujo nome está impresso, com os nomes de
seus colegas atores, na edição completa de suas peças em 1623. Sabemos que ele
se casou com Anne Hathaway e morreu em 1616, segundo a lenda, em seu
aniversário, no dia de São Jorge. O chamado caso “Stratfordiano” para Shakespeare
se baseia nesses e em alguns outros fatos, mas basicamente é isso.
Nesse
vácuo, uma fraternidade bizarra, incluindo Mark Twain, Charlie Chaplin, Orson
Welles e Sigmund Freud, projetou um “Shakespeare” escrito por um escritor mais
obviamente talentoso: Edward de Vere (o 17º conde de Oxford), Sir Francis Bacon
e o dramaturgo Christopher Marlowe, para citar os principais candidatos, em um
campo que também inclui Sir Walter Raleigh, John Donne e até mesmo Elizabeth, a
própria Rainha Virgem.[104]
Neste mesmo site,
podemos ainda ver uma pintura anônima, realizada cerca de 1610, e que se supõe
que seja o único retrato autêntico de William Shakespeare:
Nesta obra, eu que
comprei e leio e releio a Opera Omnia
do Adepto William Shakespeare, ele mesmo – que tolice tentar achar um nobre ou
então alguém mais culto para ser o “verdadeiro” autor das suas obras, o pedigree do gênio é o espírito – em
inglês e português[105],
vou-me aliar à sua Alquímia poética:
Sonnet 8
Music to
hear, why hear’st thou music sadly?
Sweets with sweets war not, joy delights in joy.
Why lov’st thou that which thou receiv’st not gladly,
Or else receiv’st with pleasure thine annoy?
If the true concord of well-tuned sounds,
By unions married, do offend thine ear,
They do but sweetly chide thee, who confounds
In singleness the parts that thou shouldst bear.
Mark how one string, sweet husband to another,
Strikes each in each by mutual ordering,
Resembling sire and child and happy mother
Who all in one, one pleasing note do sing:
Whose speechless song, being many, seeming one,
Sings this to thee: ‘Thou single wilt prove none’.
Soneto 8
Se a música é pra ouvir, então... por
que a ouves triste?
Doces não se combatem, e a alegria
se deleita com a alegria.
Por que tu amas aquilo que te
desagrada,
Ou então recebes com prazer o que
só te aborrece?
Se os sons harmônicos, no mesmo
tom afinados
E bem unidos, ofendem teus
ouvidos,
Docemente eles te repreendem, pois
confundes (captas)
Como partes discretas o que em
conjunto tu suportarias.
Repara como as cordas, casadas,
cônjuge uma da outra,
Se tocam e vibram juntas, em uma grande
harmonia,
Como se fossem família, pai e
filho e mãe felizes,
Tocando em uníssono a agradável
melodia:
Cuja música sem letra, que parece
uma e é várias,
Cantando para ti fala que: “Tu, sozinho,
nada provas”.
A relação que a
matemática tem com a música e a astronomia, sendo estas duas consideradas como
casos particulares daquela, no pensamento clássico grego, tem na teoria de
Pitágoras um forte começo, ainda que não seja o único. Pitágoras e, depois,
Platão, viajaram pelo Egito, os egípcios e os hebreus aprenderam com os
assírios, e tem muita gente boa que diz que tudo isso começou na Atlântida, que
alguns afirmam que era logo aqui, na América. Não se trata de tudo ser números.
O pitagorismo ensina que o mundo nos seus aspectos material e espiritual é um
grande campo harmônico, de vibrações que, sim, cada uma é expressa em um
número, assim como cada um emite um som, e essa música das esferas é a matéria
e a alma do Mundo.
Shakespeare, nessa síntese/so/net,
nesse soneto tão líquido, fala do ar e da ígnea vibração do som, que se
concretiza em energia e matéria, e que vem do fogo astral, e que se dá a nós
como presente, para podermos fruir dessa harmonia, se pudermos ouvir como
integrantes da harmonia cada som que alguém se ilude que soa distinto: “Tocando
em uníssono a agradável melodia”.
Numa teoria/poesia dupla
que fiz no dia internacional da poesia deste ano, eu homenageio e aponto um
ponto fraco de Shakespeare, simultanea/mente, contrabalançando com a obra de
Lao Tse. Isso também para mostrar que, numa visão hermética, ou até mesmo na
hermenêutica e na crítica, não se podem fazer panelinhas e clubinhos dos amigos
dos amigos, e fazer crítica não se trata (como crê um certo/errado senso comum
em nosso país) “falar mal”:
21 de março
Cada dia é um dia
Mas sempre é especial
Hoje é o dia da poesia
E é também o nosso dia
Faça chuva e faça sol
3 yugas
Quando fui Shakespeare
Era puro barroco
Escrevia demais
O eu-William fala sem parar
Igual aos boçais
Aos papagaios às maritacas
Às caturritas e às araras
Quando fui Lao Tse
Era preciso exato
A minha poesia sendo Filosofia
O puro pulo do fato
Hoje sou eu mesmo um duplo triplo
Dos poetas do infinito
Que continuo sendo[106]
Eliane Colchete me fala:
– Também no uso
pós-moderno do conceito hermético, Shakespeare (e o barroco) é hermético,
porque o sentido desse termo é o investimento no significante, na escrita, ao
contrário do Classicismo, que investe no significado, ou seja, na concisão, na
simplicidade; mas, na época do modernismo, é o oposto: os críticos chamam
hermético àquilo que é como um código, que é formalista, ou seja, não sendo
algo necessariamente prolixo, centrado na proliferação do signo.
Quanto ao que comentei
como a visão pitagórica de Shakespeare, de que a geometria da música pode ser
virtualizada em todo universo, Robert Lawlor aduz:
O enfoque da
moderna teoria dos campos de forças e da mecânica das ondas corresponde à
antiga visão geométrica-harmônica da ordem universal como configuração de
esquemas de ondas entrelaçadas. Bertrand Russell, que vislumbrou o profundo
valor da base musical e geométrica do que hoje conhecemos como matemáticas
pitagóricas e teoria numérica, também sustentava essa opinião em sua Análise
da Matéria: “O que percebemos como diferentes qualidades de matéria — dizia
— são na realidade diferenças na sua periodicidade”.
Na biologia, o
papel fundamental da geometria e da proporção torna-se ainda mais evidente se
considerarmos que minuto a minuto, ano após ano e eon depois de eon, cada
átomo de cada molécula, tanto das substâncias vivas, como das inorgânicas, está
mudando e é substituído por outro. Cada um de nós, daqui a cinco ou sete anos,
terá um corpo totalmente novo, do primeiro ao último átomo. Perante mudança tão
constante, onde podemos encontrar o fundamento de tudo aquilo que parece ser
constante e estável? Biologicamente, podemos recorrer a nossas idéias sobre os
códigos genéticos como veículos de reprodução e continuidade, mas esta
codificação não reside nos átomos concretos (isto é, no carbono, hidrogênio,
oxigênio e nitrogênio) que compõem a substância dos genes, o DNA; estes também
estão sujeitos a uma contínua mudança e substituição. Portanto, o veículo da
continuidade não é apenas a composição molecular do DNA, mas também sua forma
helicoidal. Esta forma é responsável pelo poder reprodutor do DNA. A hélice,
que é um tipo especial do grupo das espirais regulares, é o resultado de uma
série de proporções geométricas fixas, como veremos detalhadamente mais adiante.
Pode entender-se que tais proporções existem a priori, sem nenhum
equivalente material, como relações geométricas abstratas. A arquitetura da
existência corporal é determinada por um mundo invisível e imaterial de formas
puras e geométricas.
A biologia moderna
reconhece cada vez mais a importância da forma e a concatenação entre as poucas
substâncias que compõem o corpo molecular dos organismos vivos. As plantas, por
exemplo, podem levar a cabo o processo da fotossíntese graças somente ao fato
do carbono, o hidrogênio, o nitrogênio e o magnésio das moléculas da clorofila
estarem dispostos num complexo desenho simétrico de doze arestas, parecido com
uma margarida. Ao que parece, estes mesmos componentes numa disposição
diferente não podem transformar a energia das radiações de luz em substância
viva. No pensamento mitológico, o doze aparece com freqüência como número da
mãe universal da vida, e assim este símbolo de doze partes é necessário
inclusive ao nível das moléculas.[107]
Amo tanto a Grande Arte,
que, quando uma poesia, um romance, uma pintura, uma música ou uma dança me
encantam, eu vejo com certeza ali a Alquimia. Ponho umas pinceladas aqui
propondo que é Hermético o d’Álbion bardo, sendo que a verdade é que eu
defenderia com igual empenho que Kafka é Adepto, inclusive tendo escrito seu
sombrio romance A Metamorfose,
alquímico sim, mas não só pelo título, por muito mais que isso, e assim também
em relação a Tchaikovsky, a emoção que cada peça dele me causa é profunda/mente
alquímica.
Podemos explicitar seu
hermetismo, ao ouvir a suíte O
Quebra-nozes, mesmo sabendo que Piotri Ilitch Tchaikovsky se baseou na
versão adocicada reescrita por Alexandre Dumas, que a adaptou do original,
sempre o que temos ali é um dos cósmicos e assombrosos contos de Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann, esse gênio
metafísico[108].
Abhay Charanaravinda Bhaktivedanta Swami Prabhupada, que
converteu multidões à Bhakti Yoga Vaishnava, era químico.
Isaac
Asimov era bioquímico, além de maravilhoso escritor de ficção científica (e
polígrafo, que escrevia sobre as ciências e outras matérias).
Aleksandr
Borodin era químico.
Sherkock
Holmes era químico, mesmo amador, por amor ao seu ofício investigativo, porém,
mais competente que muitos formados, e seu criador, Arthur Ignatius Conan Doyle, médico, assim como seu amigo John Watson, o
qual, ao conhecer Sherlock, sobre ele afirma (mesmo que seja brincadeira, chiste,
sonho, ficção, é aí que explode a lava do vulcão, como já nos ensinou Sigismund
Schlomo Freud):
Suas mãos estavam
sempre manchadas de tinta e de produtos químicos, mas mostravam uma
extraordinária delicadeza de toque, como tive ocasião de observar várias vezes,
enquanto ele manipulava seus frágeis instrumentos de alquimista.[109]
Otto Penzler organizou e
publicou em 2015 o livro The Big Book of
Sherlock Holmes: Stories, que, ao ser traduzido para o português do Brasil
ganhou como título As Novas Aventuras de
Sherlock Holmes, que reúne dezenas de contos feitos por muitos escritores,
que recriam, cada um a seu modo, o detetive inglês. Trata-se de uma obra em
dois volumes, sendo que o primeiro traz uma história do autor Neil Richard
MacKinnon Gaiman que mostra Sherlock como uma espécie de alquimista[110].
Igne
Natura Renovatur Integra
A
Natureza Inteira se Renova pelo Fogo (Latim).
Ignem
Natura Regenerando Integrat
A Natureza Purifica o Fogo Regenerando-o
(Latim).
Igne
Nitrum Roris Invenitur
O Sal do Orvalho é Extraído pelo Fogo
(Latim).
Iam,
Nour, Ruach, Iabeshah
Água, Fogo, Ar, Terra (Hebraico).
Isis
Naturae Regina Ineffabilis
Ísis a Rainha Inefável da Natureza
(Latim).
Aquele alquimista que
alertou Jacques Bergier sobre o tremendo perigo da forma invertida e pervertida
como a ciência do século XX estava se aproximando de alguns segredos
alquímicos, e que o próprio Bergier considera ser Fulcanelli, sendo que o
terceiro livro deste, Finis Gloriæ Mundi,
que eu aceito, também o declara, que é real/mente ele esse pergonsagem que se
encontrou com Bergier, e este livro trata da mesma problemática; ele, nessa
conversa, assim fala sobre a Arte:
“Não é
possível ensinar alquimia. Todas as grandes obras literárias que resistiram aos
séculos têm qualquer coisa desse ensinamento. /.../”[111]
– Voltando ao nosso
filósofo, que é um dos condutores do estudo que realizamos, podemos ler, no seu
diálogo Eutidemo, que Platão relaciona a Filosofia com a Alquimia (e
ainda coloca a questão da Alquimia ética):
“Ora,
essa busca de sabedoria é uma aquisição de conhecimento, não é?”
“Sim”,
ele disse.
“Bem,
que tipo de conhecimento adquiriremos na hipótese de o adquirirmos corretamente?
Não é absolutamente claro que deve ser aquele conhecimento que nos trará
benefício?”
“Certamente”,
ele disse.
“E nos
beneficiaria de algum modo sabermos como caminhar e descobrir onde se encontram
sob a terra as maiores jazidas de ouro?”
“Provavelmente”,
ele disse.
“Mas, no
entanto”, prossegui, “refutamos essa primeira proposição, concordando que mesmo
que sem qualquer problema ou [necessidade de] cavar a terra, obtivéssemos todo
o ouro do mundo, não teríamos benefício algum – de modo algum, nem mesmo se
soubéssemos como transformar pedras em ouro, não sendo esse conhecimento de
nenhum valor. De fato, a menos que soubéssemos como utilizar o ouro, não
encontraríamos nenhuma vantagem nele. Não te lembras disso?”, perguntei.
“Decerto
que me lembro”, ele disse.
“Tampouco
parece haver qualquer valor em qualquer outra forma de conhecimento, seja o do
ganho de dinheiro, o da medicina ou qualquer outro que possibilite a produção
de coisas, a não ser que se saiba como utilizar as coisas produzidas. Não é assim?”
Ele
concordou.
“E nem
sequer se houvesse um conhecimento que capacitasse alguém a tornar os seres
humanos imortais, nem isso – na falta de nosso conhecimento de como usar a
imortalidade – pareceria trazer qualquer proveito, se é que nos cabe inferir
alguma coisa dos pontos que já estabelecemos.”
Concordamos
em tudo isso.
“Então o
tipo de conhecimento de que necessitamos, belo jovem”, eu disse, “é aquele no
qual estejam combinados o produzir e o conhecer como usar a coisa produzida.”
“É o que
parece”, ele disse.[112]
Helena Petrovna
Blavatsky afirma categorica/mente na obra A
Doutrina Secreta que Platão era um inicidado[113].
A mesma teoria é
abraçada por Norberto de Paula Lima, que relacina a cosmologia apresentada no Timeu com a gravura, que ele mesmo anota
e à qual faz o seguinte comentário (as correspondências que aponta com o corpo
sutil também se fazem na árvore da vida, como mostra mais adiante):
Nesta alegoria alquímica do séc.
XVII vemos refletida a cosmogonia hermética da mesma forma que descrita por
Platão. A esfera da alma do mundo, na criação de “segunda ordem” que é o
quaternário, o nosso mundo, é gerada pelo cisne, símbolo da alma do ternário, a
ordem do universo imediatamente superior à nossa. Neste mesmo esquema, à
esquerda, vemos a correspondência com a fisiologia do corpo sutil, segundo a
ioga. O eixo central, onde indicamos a “entropia descrescente”, é o “canal
central” da ioga. O homem e a mulher, na parte superior da esfera da Alma do
Quaternário, são os canais laterais da medula (a respiração lunar e a solar).[114]
É legal compreender o
filósofo que considero mais injustiçado e deturpado da história, com esse
negócio de arquétipos e ideias fixas, que lhe foram atribuídas.
Entenda: o pensamento é
a forma na qual o ser brota. Isso é notório, só o ser humano, às vezes, finge
que não vê. O resto é cinema. Como quando Bergson pensa que a “matéria é um
conjunto de imagens”. A máquina cinematográfica projetora é o pensamento. A
usina geradora da energia e da matéria é o pensamento. A fonte da pluralidade
pluvial e solar das realidades é o pensamento.
Você tem uma ideia, ela
se torna geração das imagens, das linguagens, das ações, das produções e dos
seres. Nesse sentido, intempestivo, ela é modelar: ela projeta o real daquele
ponto específico, naquele momento. Mas, ao mesmo tempo, por ser o pensamento,
que é eterno devir, que é o fogo que não para de se mexer, se transmutar, ela
não é um “arquétipo” ou ideia imutável, mas sim uma produção incessante das
diferenças no pensar.
Bem-vinda, prezada leitora;
bem-vindo, preclaro leitor.
Eu possuo vários verônimos:
Carlos Fontana, Quico, Profeta, Poeta, Lucas Vivacqua, Luis Carlos de Morais
Junior e Lui Morais.
Mas o meu nome mais real
é Hermes Grau.
Este livro é sobre a
Alquimia e o Tarot.
E o que é o Tarot?
A essas perguntas nem
Polifemo nem ninguém conseguiria responder.
/.../
Pode ter vindo da palavra latina rota (roda), que é um anagrama de tarô /.../
A palavra egípcia Ta-rosh significa “o caminho real”, e de modo
semelhante foi sugerido que tarô é uma palavra derivada do nome do deus da
escrita e da magia, Thoth. Alguns estudiosos que atribuem ao Tarô uma origem
hebraica acreditam que a palavra seja uma corruptela de Torah, o livro da lei.
Na abordagem mais exotérica, tar é a palavra cigana que designa o
baralho de cartas.[115]
O Tarot é um dos noventa
e oito livros escritos por Hermes Trismegistos (Thoth), um livro feito de
imagens e símbolos sobre lâminas soltas, isto é, tabuletas, tabuinhas.
O Mago
caminha na direção do Mundo, detendo-se em cada lâmina, absorvendo aí as forças
específicas de cada uma delas.[116]
No Tarot tudo começa com
a carta do Mago.
O Mago é a visão mais
nobre e perfeccionada do homem e da mulher que está lendo o livro Tarot,
consultando o Baralho divinatório, vislumbrando as suas figuras.
A obra aberta e
dinâmica, o Tarot é o Livro das mutações do ocidente (bem como o I Ching é do oriente).
O
funda/mental místico russo Mebes G. O. Mebes (Gregory
Ottonovich Mëbes, Григорий Оттонович Мёбес, 1868 (Riga, Letônia) – 1930
(Ust-Susolsk, Rússia)) nos ensina, no seu Курс Энциклопедии Оккультизма (literal/mente: Enciclopédia do Curso de Ocultismo),
traduzido aqui como Os
Arcanos Maiores do Tarô:
A nós chegou o grandioso monumento do simbolismo
das escolas egípcias em que os três tipos de apresentações simbólicas
/simbolismo das cores, dos quadros e figuras geométricas e dos números/ se
juntam em um baralho, mais conhecido como “TARÔ DOS BOÊMIOS” e composto
de 78 cartas coloridas. Estas cartas representam os chamados ARCANOS.
Constam de 22 Arcanos Maiores e 56 Arcanos Menores.
A cada carta, de um ou outro modo, corresponde um
valor numérico. De acordo com a tradição, essas figuras eram colocadas nas
paredes de galerias subterrâneas, onde o neófito penetrava após ter passado por
uma série completa de provas. O Tarô é considerado um esquema da cosmovisão dos
Iniciados da antiguidade.
É certo que cada povo tem sua própria visão do
mundo expressa pelo seu idioma. Se ele faz uso da escrita, os elementos da
linguagem são também apresentados no alfabeto.
Consequentemente, o Tarô pode ser considerado como
um alfabeto iniciático. As cartas-lâminas representam as letras desse alfabeto.
Os detalhes das lâminas e os matizes de suas cores
constituem
comentários complementares a essas letras.
Os 22 Arcanos Maiores correspondem aos 22
hieróglifos do alfabeto hebraico. A cada letra desse alfabeto é atribuído um
valor numérico definido e é nessa ordem numérica que vamos analisar os Arcanos,
tendo em mente a divisa da raça branca: “Tudo por número, medida e peso”.[117]
Cada carta traz um número.
Depois do que Lao Tse, Plotino e Éliphas
Lévi já falaram sobre o um, o que mais seria preciso dizer?
A energia criadora expressa pelo
número um indica que, aqui, todos os requisitos necessários à concretização de
objetivos estão presentes. A mensagem essencial do Mago é que é preciso
“acreditar” nos próprios talentos para empreender as ações que se querem
realizar.
Quando esta fé está presente, abrem-se para o ser humano infinitas
possibilidades e ele se torna, simbolicamente, o mago que domina o poder de
“manipular as ilusões” e trazer à tona todo o seu potencial mental, emocional,
físico e intuitivo. Em seu aspecto negativo traz a recusa em utilizar os talentos
para o próprio crescimento e evolução.[118]
O
Mago é o fundamento do Tarot.
O
Mago é o Alquimista que vai começar a sua viagem pelas 22 esferas. E isso é bem
Real.
Hermes
é o fundamento da Obra Alquímica.
O
nosso fundamento é a nossa essência:
Sermos fiéis a nós
mesmos é o meio da saúde e da evolução.
Ao longo desta obra, o
prezado leitor lê a respeito da minha tese de que William Shakespeare é um
autor hermético, ele também. E a base do aprendizado sendo este conselho genial
que ele nos dá:
This
above all, – to thine own self be true;
(E isso acima de tudo, – sê fiel a
ti mesmo;)[119]
O Mago se relaciona com
a letra Áleph pelo significado, pela simbologia, pela fase inicial, pela
numerologia e até pela forma, como o demonstra Éliphas Lévi.[120]
A relação dos 22 Arcanos
maiores com as letras hebraicas começando pelo Áleph é a que adota Mebes,
também.
Ao centro da pintura A Escola de Atenas (1510), de Rafael
Sanzio, Platão é representado apontado para o céu e segurando na mão o seu
livro Timeu, enquanto Aristóteles
aponta para a terra e traz consigo a sua obra Ética; na China Antiga, Lao Tse aponta para o Tao (alto), enquanto
Confúcio mostra o mundo ético, social e humano; vemos na imagem do Mago do
Tarot que ele aponta concomitante/mente para cima e para baixo: solve e
coagula.
Sulfur fixum est Sol.
Capítulo 2: A Sacerdotisa ב
בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת
הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ
bereshit
bara Elohim et hashamaim ve et ha aretz
No princípio criou Deus os céus e
a terra.
(Gênesis 1:1)[121]
Enxofre é o fixador, é masculino, Mercúrio é o mutável, o
feminino.
O signo do alfabeto hebraico que corresponde ao Arcano 2: A
Sacerdotisa é a letra Beit que significa casa, e traz ainda os significados de
recipiente e bênção.
É a primeira letra da Torah,
da palavra bereshit, que corresponde
ao português “no princípio”.
O segundo hexagrama do I
Ching é Kūn O Receptivo, Terra sobre Terra, que Legge traduz também como “Apoiando-se
na firmeza”[122], e cujos dois trigramas
que representam a terra formam seis linhas abertas:
A linha aberta representa o poder primordial obscuro,
maleável e receptivo de Yin. O atributo do hexagrama é a devoção e sua imagem,
a terra. É o perfeito complemento do Criativo, a contraparte, não seu oposto,
pois o Receptivo não combate o Criativo, mas o completa.[123]
Também se liga com A Sacerdotisa o hexagrama 53 Jiàn,
Vento sobre Montanha: O Desenvolvimento.
A carta da Sacerdotisa apresenta uma postura tranquila,
receptiva, mas não passiva, pois no seu olhar compreensivo, na sua atitude
meiga e aceptiva, sustentando o livro que é o saber, e ao mesmo tempo sendo
alimentada por ele, traz a visão de uma grande atividade e, principal/mente, de
uma enorme possibilidade de poder e criação.
Entre os signos astrológicos, o arcano 2 relaciona-se com o
signo de Touro, que mostra o lado forte e construtivo do ser feminino, com sua
valorização da matéria (esta palavra em Latim e nas línguas neolatinas vem do étimo
mater, que significa mãe), a
excelência das relações pessoais, a calma, o sentimento e o alimento, corporal
e espiritual. Seu planeta regente é Vênus, seu elemento é Terra. Neste signo, a
Terra mostra a sua face produtora, germinativa, é o campo cultivado e os
recursos naturais, o alimento para o corpo e para o espírito. Os taurinos se
dedicam com total amor ao cuidado e à alimentação.
Esse é o segredo da matéria e do Elixir Alquímico, o
Pharmacus Catholicus, a Panaceia.
No “Prefácio do autor ao leitor”, de sua Physica
Subterranea Profundam Subterraneorum Genesis, Beccher afirma:
O estudo da Química, cujos
enamorados se chamam Alquimistas; para quem nada é mais aceitável, nada mais
doce e nada mais glorioso, se o mundo considera sua situação deprimente, eles
não o ouvem, não procuram dinheiro nem fama, pálidos, lidando com venenos
(subtâncias perigosas), sempre procurando, sem ter nada, e somente por chegar
perto de algum resultado, isso lhes é suficiente, e vale mais que todas as
outras grandes coisas.
(Chimiae
studium, ejusquem amatores Alchimistas vocant; quibus nihil acceptius, nihil
dulcius, suavius nihil & gloriosus, quam si extreme sordant, male mundo
audiant, pecuniam cum fama profundant, venenis palleant, madeant, semper
quaerant, nihil habeant, omnes interea commenes sensos perdant, plane juxta
illud sat erit: ac hoc sat non parum sed multum est, in magnis semper
voluisse.)[124]
A frase é esta no original, e tem sido muito reproduzida, apresentada assim:
“Os químicos são uma estranha classe de mortais, impelidos por um impulso quase
insano a procurar seus prazeres em meio a fumaça e vapor, fuligem e chamas,
venenos e pobreza, e, no entanto, entre todos esses males, tenho a impressão de
viver tão agradavelmente que preferiria morrer a trocar de lugar com o rei da Pérsia”, através do inglês: “The chemists are a strange class of
mortals, impelled by an almost insane impulse to seek their pleasures amid
smoke and vapour, soot and flame, poisons and poverty; yet among all these
evils I seem to live so sweetly that may I die if I were to change places with
the Persian king”. Citado em The
Chemistry Leaflet (1935), 9, 490, que também comenta que estava pendurado
como uma inscrição “nas paredes da biblioteca do Clube dos Químicos em Nova
York”[125].
Esta afirmação de Johann
Joachim Beccher vale sim para o Químico, mas vale ainda mais, a fortiori, para o Alquimista. Encontrei
Physica Subterranea (1667) na internet so/mente na versão original, em latim, escaneada. É
surpreendente que não se tenham feito traduções e edições contemporâneas de uma
obra alquímica tão relevante.
Johann Joachim Beccher nasceu em 1635, na cidade de Speyer, que hoje fica na Alemanha, localizada no estado da Renânia-Palatinado, e que, na época, fazia parte do Sacro Império Romano Germânico. Ele foi um médico e alquimista, e é considerado um dos precursores da Química. Além do livro citado, escreveu: Chymiches Laboratorium (latim: Laboratório de Química, 1680), Chymischer Glückshafen oder grosse chymische Concordantz und Collection von 1500 chymischen Processen (alemão: Porto Químico da Fortuna ou Grande Concordância Química e Coleção de 1500 Processos Químicos, 1682) e Tripus Hermetica, pandens Oracula Chymica (latim: A Viagem Hermética, Abrindo o Oráculo da Química, 1689).
O nome dele é Beccher em alemão, sua língua materna, mas
os filósofos e estudiosos da natureza, durante a Idade Média e a Renascença,
quase sempre escreveram suas obras em latim, a língua internacional da cultura
do tempo, o que permitia que sábios de todos os países ocidentais (e, às vezes,
orientais também) pudessem ler seus tratados; eles também latinizavam o nome,
que ficou Beccherus, que aparece declinado no caso genitivo da segunda
declinação singular nessa folha de rosto da sua obra.
Veja nesta citação da Wikipedia algumas das coisas
impressionantes que Beccher fez:
Na economia, devem-se-lhe diversos empreendimentos, considerado um dos
criadores da Tecnologia Química, ativo principalmente em Viena e na Baviera. De
certa forma uma atividade econômica é a proposta que Becher fez ao governo da
Baviera de criar uma “Companhia das Índias Ocidentais”, filiada à Companhia
Holandesa das Índias Ocidentais, para colonizar terras herdadas pelo Conde de
Hanau na América do Sul. A ideia não saiu do papel, embora a atividade
colonizadora por parte de pequenos países do século XVII tenha existido.
Elaborou em 1661 para o arcebispo-eleitor de Mainz (que ofereceu alta
recompensa, nunca paga) um “idioma universal” com dez mil palavras, talvez o
mais remoto antecessor do esperanto.
. Em 1669, descobriu o gás eteno (Etileno), pela desidratação do álcool em
meio ácido e a quente. No mesmo experimento, observou e isolou em grandes
quantidades, um subproduto: era o Éter etílico (Éter sulfúrico ou simplesmente
Éter, o Éter comum), substância já conhecida desde os tempos dos Alquimistas
Árabes e Bizantinos e hoje usada extensamente como solvente e preparada
industrialmente basicamente pelo mesmo processo, porém, variando o ácido usado
na desidratação. Becher usou Ácido sulfúrico, enquanto a indústria usa
Alumina ácida.
. Atribuiu-se a Becher a descoberta em 1665 do alcatrão de hulha, mais
tarde uma pedra basilar da Química Orgânica.
. Descobriu a possibilidade de obtenção de álcool a partir de batatas
(Becher introduziu a batata na Alemanha, como alternativa de alimentação para
os menos favorecidos).
. Descobriu que a fermentação necessita de “substâncias doces”.
. Em sua obra máxima, Physica
subterranea, foi um dos primeiros, senão o primeiro, a intuir que o
interior da Terra é formado por um Magma incandescente.
Sua obra fundamental é a sua proposta para uma teoria unificadora da
Química, baseada nas suas teorias sobre combustão, expressas em Physica subterranea, onde Becher destaca
grandes temas da “filosofia química”:
. a interpretação alquímica da Criação;
. a identificação da Criação com um processo cíclico; e
. a ideia do surgimento espontâneo da vida vegetal e animal (ideias já
analisadas por Paracelso).
Na sua teoria da matéria, as substâncias são constituídas por ar, água e
terra, dividindo a última em três categorias: Terra Vitrificável (sal); Terra
Mercurial (mercúrio) e Terra Combustível (enxofre = terra pinguis).
De certa forma Becher parte do conceito paracelsiano dos tria prima,
porém admite que esse conceito não se sustenta diante dos fatos empíricos
observados; e com relação a esses fatos verificou que a maioria das substâncias
que queimam não contêm enxofre, substituindo-o então pela terra pinguis,
como principio da inflamabilidade. Portanto, a proposta desta terra
pinguis derivou-se de uma dedução tirada de fatos empíricos, e para
Becher a terra pinguis, que ele chamou mais tarde de flogístico (
do grego, significando “inflamar-se”) não é uma ideia, mas uma espécie química,
com peso e propriedades definidas.
Becher elaborou uma teoria da matéria, concebeu uma explicação para uma
propriedade da combustibilidade, mas seu caráter irrequieto e possivelmente a
falta de uma bagagem filosófica profunda impediram-no de formular uma teoria
abrangente. Seu continuador nesse sentido foi Georg Ernst Stahl, que viu nas
ideias de Becher um ponto de partida para elaborar uma teoria unificadora da
Química, a teoria do flogisto.[126]
Nesse momento, que vai de
Beccher a Stahl e, depois, Antoine-Laurent
de Lavoisier, vemos que Beccher é muito
importante para o desenvolvimento do que se chama de Química na
contemporaneidade, assim como Lavoisier, que marca a emancição da Química como
ciência, sem misticismos, e o grande sinal dessa marca é a superação da teoria
do flogístico (ou flogisto, segundo Stahl).
Essa
teoria se afasta das propria/mente alquímicas, é uma ponte; quando Lavoisier
nega o flogisto, ele está fazendo a contradança do movimento pró-científico e
pró-químico de Beccher e Stahl.
O
componente químico cresce e o alquímico descresce na gradação de Beccher a
Lavoisier, e a teoria do flogístico está no ponto da mutação entre essas duas
ciências, normal/mente ou estranha/mente tão diferentes e total/mente
contrárias entre si.
A própria
Química mexe com a nossa mente e os nossos corações. Mesmo sendo Ciência
ocidental, adotando o método experimental, matematizando suas expressões,
trabalhando com funções, sendo fumo e sendo seda, sendo total/mente racional, e
tendo o tacanho hábito (do qual não se livra): analisar – nesse sentido fazendo
uma inquietante apropriação continua/mente com a Física – o que há é a matéria,
e ela se divide, vamos analisar e dividir até chegar no seu tijolinho, e o
tijolinho nunca chega: substâncias : moléculas : átomos : elétros prótons e
nêutrons : quarks : e continua... desse e do outro lado do espelho, nas
partículas da antimatéria. A Química (junto com a Física) analisa. Ela quebra para
tentar entender. Como já nomeou seu livro Mário de Andrade, sendo ali crítico e
concomitante/mente criticando a função de crítico: empalhador de passarinho[127].
Mesmo
sendo assim, pela ancestralidade, pela congenialidade, pela aderência à força e
à matéria, a Química é quase uma Alquimia – a geratriz das Fênix. Mergulho na
matrix.
Sendo
assim, a Química, como a consideramos hoje, ainda é uma ciência alta/mente
hermética e artística (mas não mais que a culinária, a poesia ou o cinema, a
obra humana sempre tem a virtualidade de ser ergon e parergon). Faz sentido
imaginar que a soberana Alquimia tenha tido na Química a filha bastarda, mas
que herda muitos dos atributos e encantos da sua progenitora.
Por
outro lado, supor que a Alquimia tenha sido uma contínua tentativa de
realização de fórmulas absurdas sobre materiais, quase que aleatoria/mente
(além de minerais e várias combinações metálicas, foram usados resíduos animais
e, minoritaria/mente, substâncias vegetais, ao sabor da interpretação
impressionista e da interprenetração de práticas e saberes que o soprador
conseguia fazer dos textos, imagens e lendas, ao sabor do seu repertório e da
sua vontade), é a visão mais baixa e injusta para com a nossa Arte.
Quase
tão ruim quanto isso é o esquema “psicológico” dos junguianos, que, talvez,
seja até pior, pois os Adeptos ao longo dos séculos, ao lado de todo mundo,
ficam sendo “apenas” marionetes do “inconsciente coletivo”.
Entenda
bem: os Adeptos são muito argutos e sábios, nada tolos, como forçosa/mente
seriam, se tivesse um pingo de verdade a tese da pré-química desvairada, ou a hipótese
dos “arquétipos” do señor Jung.
Outra
visão que, querendo ou não, tenta diminuir nossa Arte, é aquela apresentada
pelo grande mitólogo Mircea Eliade no seu livro Ferreiros e Alquimistas, neste plano que apresenta a obra:
/.../ Encontraremos certo número de ritos e mistérios relacionados com concepções
mágico-religiosas solidárias, paralelas ou até
antagônicas. Tentaremos enumerá-Ias de maneira
sumária, a fim de conseguirmos extrair delas as
linhas gerais da nossa pesquisa. Apresentaremos uma série de documentos relativos à função
ritual da forja, ao caráter
ambivalente do ferreiro e às relações existentes entre a magia (o domínio do
fogo), o ferreiro e as sociedades secretas. Por outro lado, os trabalhos da mina e
da metalurgia orientam-nos
para concepções específicas que se relacionam com a Terra-Mãe, com a sexualização do
mundo mineral e das ferramentas e com a
solidariedade entre a metalurgia, a ginecologia e a obstetrícia. Começaremos
por expor algumas dessas concepções, a fim de melhor compreendermos o universo do
metalúrgico e do ferreiro. Relacionados com os mitos sobre a origem dos metais, vamos encontrar complexos mítico-rituais que abrangem a noção da gênese pelo sacrifício ou pelo auto-sacrifício de um deus, as
relações entre a mística agrícola, a metalurgia e
a alquimia, e, finalmente, as idéias de crescimento natural, crescimento acelerado e “perfeição”. Mais tarde,
poderemos avaliar a importância
dessas ideias para a constituição da alquimia.[128]
Temos aí uma antropoarqueologia que fecha questão sobre o
surgimento da Alquimia, a certo momento da história, como fruto de mitos
advindos de várias realidades e momentos das civilizações antigas, como a
mitificação dos meteoros, dos metais e da metalurgia, a constituição das lendas
de deuses que se autossacrificam pela humanidade, mitos agrícolas e de
fertilidade, que abrangem a fertilidade animal e humana etc.
Já expus meu pensamento sobre o mito: ele aparente/mente é
essa fraqueza de entendimento enviesado e inexato, infantil e prepotente, dos
seres humanos sobre o mundo: essa é a rebarba do mito, um subproduto.
O mito é uma linguagem específica que traduz experiências
reais com energia e matéria de verdade, as quais não conseguimos explicar ou
sequer descrever com a linguagem comum (aquela usada pela comunidade). É por
isso que a Alquimia usa mitos – ela não nasce dos mitos, nem da linguagem
verbal, nem da iconografia, mas ela lança mão dessas três linguagens para
mostrar e explicar uma prática que a consciência vulgar não consegue nem sequer
entrever.
Por isso, também, considero a quarta malversação da Alquimia
a prática atual de tentar forçar pós e elixires numa química adaptada às
circunstâncias, como o faz muita gente, exemplifico com Rubellus Petrinus[129]. Essa é uma continuidade
bem formada e informada dos sopradores, no entanto, agora realizada por pessoas
(às vezes) com formação em química e treinamento laboratorial.
Não é de todo ruim,
assim como podemos ver no ouro potável de Armand Barbault, realização de
respeito e frutuosa, que ele descreve no seu livro O Ouro da Milésima Manhã, é tudo lindo aí[130]. De novo, essa prática,
como a realizou e reportou Armand Barbault, é quase Alquimia.
Ou, na descrição que fiz
da Alquimia como uma cebola, os que 1) pensam na pré-química, 2) os junguianos,
3) os mitólogos à Mircea Eliade, 4) os espagiristas terapeutas (como Frater
Albertus com o Guia
Prático de Alquimia e Robert Allen Bartlett e a Real Alchemy[131]) e 5) os voarcadumistas –
se tratam de camadas exteriores, que ficam bem longe da genuína Arte, mas que
sempre estão voltadas para ela, e se lhe apresentam contíguas.
No livro As Mansões Filosofais, Fulcanelli
diferencia da genuína Alquimia a prática da procura da transmutação dos metais,
e explica que esta se chama Arquimia ou Voarcadumia, e, em nota, explica sobre
a técnica metalúrgica:
Se bem que essa definição
conviesse mais à arquimia ou voarcadumia, parte da ciência alquímica
que ensina a transmutação dos metais uns nos outros, do que à Alquimia
propriamente dita.[132]
Essa expressão, como
esse mesmo sentido, aparece anterior/mente nos livros Voarchadumia contra Alchimia, e Ars et Theoria Transmutationis
Mettalicae cum Voarchadumia, ambos de Ioannis Augustini
Pantheus, editados em 1550 e 1566, respectiva/mente[133].
Rubellus Petrinus é um
dos que afirmam que Fulcanelli seria uma sangha ou sanga (na língua páli da
Índia: saṅgha; em sânscrito, संघ saṃgha), isto é, uma associação, um grupo que trabalha
unido em comunidade, e assina com o mesmo nome sua obra comum. No texto As Vias
Alquímicas, afirma que trabalhavam juntos e assinavam seu trabalho em
conjunto com o nome de Fulcanelli: René Schwaller de Lubicz, Pierre Dujols,
Eugène Canseliet e Jean-Julien Champagne.
Analisando documentos e
cartas, Geneviève Dubois, no livro Fulcanelli
and the Alchemical Revival: the Man Behind the Mystery of the Cathedrals[134], sugere também que nosso
autor teria sido um desses nomes citados, ou todos eles, trabalhando em
conjunto. A autora ainda alude a outros místicos como possivel/mente
participando dessa suposta sanga, chegando a incluir o Papus (Gérard Anaclet Vincent Encausse) nesse papo.
Jacques D’Árès no
Prefácio do livro Finis
Gloriæ Mundi não chega a tanto, mas aventa a
possibilidade de Fulcanelli ser o nome de um grupo.
Penso
que há um complexo de inferioridade entranhado na espécie humana, fraqueza da
qual é urgente nos livrarmos; toda vez que alguém mostra capacidade de
pensamento e criação acima de um comum bem raso que nos tenta ser imposto,
surgem teorias de que não foi ele quem fez aquilo, ou que era um grupo que
assina a obra como um autor inventado. Por quê? É mais razoável pensar que
Homero foi um grande poeta criador, do que aceitar que muitos poetas tivessem
feito pedaços das epopeias, e elas fossem costuradas, e se tornassem aquela genial,
gigantesca e harmoniosa construção.
O
mesmo argumento vale para Fulcanelli. Quando lemos textos dos autores suspeitos
de participar da suposta sanga, que Rubellus Petrinus chama de “os Fulcanelli”,
encontramos ali uma dessemelhança gritante dos estilos deles entre si, e,
principal/mente, em relação ao estilo do nosso autor. E mais: o grande alquimista
do século XX, que escreveu As Mansões
Filosofais, possui uma qualidade hermética, uma quantidade e articulação de
dados culturais e uma força literária que nenhum dos outros citados chega a
demonstrar, mesmo sendo muito bons. Então, o maior se explica por uma
conjugação de menores? E como se entende a harmonia do conjunto? Cada página
traz a mesma assinatura de estilo e genialidade, e isso vale inclusive para Finis Gloriæ Mundi, as três obras se
prolongam e se completam hermetica/mente.
É
comum esse julgamento injusto acontecer principal/mente com Hermes Trismegistos,
cuja obra, no que chegou até nós, é vista como se não tivesse unidade
filósofica, e fosse uma “colcha de retalhos” de vários tratados anônimos
pós-cristãos, teoria também adotada por Philip Ashley Fanning em Isaac Newton e a Transmutação da Alquimia[135],
o qual, mesmo trazendo essa visão que considero tola, é um trabalho
interessante sobre o quando Newton quis continuar alquimista e camulhar a teoria
alquímica na formulação da Ciência contemporânea ocidental.
Acho
que a crítica que faço está evidente: a Filosofia Hermética é possante, e sua
proposta está tão além do senso comum dos tolos ou dos sábios, que não é fácil
entender sua unidade de pensamento, “pensando” comum/mente.
A busca é pela matéria prima e pela sua transmutação, para
conseguir produzir no seu cadinho o Hermafrodita, o Andrógino, o ser que é
masculino (sulfúreo, fixador e criador) e feminino (mercurial, transformador e
criativo), aquele que os Toltecas Nagualistas do México chamam Quetzalcoatl a
Serpente Emplumada (a serpente é o que rasteja, evolui sobre a terra, quando
ela se torna ao mesmo tempo águia, ganha plumas, pode voar; isso é a
volatização do fixo e a fixação do volátil).
Como nos ensina o Adepto William Shakespeare:
Sonnet 20
A woman’s face with nature’s own hand painted,
Hast
thou, the master mistress of my passion;
A
woman’s gentle heart, but not acquainted
With
shifting change, as is false women’s fashion:
An eye
more bright than theirs, less false in rolling,
Gilding
the object whereupon it gazeth;
A man
in hue all hues in his controlling,
Which
steals men’s eyes and women’s souls amazeth.
And
for a woman wert thou first created;
Till
Nature, as she wrought thee, fell a-doting,
And by
addition me of thee defeated,
By
adding one thing to my purpose nothing.
But since she prick’d thee out for women’s pleasure,
Mine be thy love and thy love’s use their treasure.
Soneto 20
Face fêmea tens tu,
pela Natura feita
Pintura, senhor/dama da
minha paixão;
Coração brando de
mulher, mas não afeita
À inconstância vã, feminina
afetação:
Olhos que brilham mais
que os delas, sem mentir,
Tornando em ouro cada
coisa que quiseres;
Controlas dons e tons,
tens másculo matiz,
Dos varões roubas o
olhar, e a alma das mulheres.
E para ser mulher é que
tu foste criada;
A própria Natura te
amou ao te forjar,
Eu fui junto também,
não pude fazer nada,
E o que ela quer eu
quis, sem nada acrescentar.
Se pro prazer da mulher
foi que ela te criou,
O meu é o teu amor; seu
tesouro é te amar.
– Amigo, as poesias de
Shakespeare são lindas, mas a beleza que elas têm é total/mente compreensível
pela estética, até o ponto em que a estética pode compreender os seus próprios
efeitos. Sua arte tem valor humano, é pensamento sobre os afetos e os modos, e a
ética humana, também. E eu gosto das suas estranhas traduções, Hermes Grau.
Porém, não pude perceber por que você afirma que esses sonetos são o suprassumo
da Alquimia.
– Bem, antes é preciso
saber e fazer a Alquimia, para poder compreender na íntegra a sua menção nos
textos, ou as fórmulas que eles trazem. O que é um paradoxo, você só terá mais
se já tiver, você só aprenderá se já souber. Os rios correm pro mar.
– Então é algo completa/mente
fechado, inacessível para as pessoas?
– É hermético, “hermetica/mente
fechado” é uma expressão do marketing
de alimentos advinda da Alquimia. Mas, de novo o oxímoro, é acessível a todo
aquele que o quiser, com plena vontade e verdade em seu coração. É uma
revelação divina permanente, e conecta o ser humano com a essência divina do
mundo.
– Então é algo
espiritual?
– Fiquei por muitos anos
com essa questão. Muitos textos, como, por exemplo, O Fio de Ariadne, afirmam que os químicos vulgares não entendem em
nada a Alquimia, e que compreendem total/mente errado quando leem sobre suas
operações. Mas muitos outros textos, igual/mente basais, corroboram que a
Alquimia é laboratorial e prática, que não se trata de forma nenhuma de uma
disciplina espiritual so/mente, ou de metáforas sobre o desenvolvimento interno
do ser humano, apenas. A Alquimia nunca faz metáforas, ela é muito forte e rica
para isso. Dessa hipótese metafórica é que surgem as tolas teorias de Jung e
outras interpretações preguiçosas e tacanhas sobre a Arte Real. A Alquimia é
Real.
/.../ Os próprios Químicos estão
convencidos de que esta Ciência é competência sua e não alheia, vendo em seus
Livros os termos Sublimações, Soluções, Dissoluções, Digestões, Calcinações, Imbibições, Coagulações
& uma infinidade de outras expressões as quais se usam em Química.
Com essas
operações trabalhando, fizeram uma centena de bagunças que não produziram nada,
além de confusão em seus espíritos & gastos desnecessários em seus
Laboratórios, porque eles tomaram literalmente os dizeres dos Filósofos que
devem se explicar de forma diferente /.../.[136]
– E isso ainda se torna
mais perturbador, quando se mostram tantas obras de arte, construções,
pinturas, esculturas, músicas, peças de teatro, romances e poesias alquímicas.
Temos o mais luminoso exemplo na obra de Fulcanelli, porém, você mesmo, caro
amigo, está escrevendo seu livro para, entre outras coisas, provar que
Shakespeare é alquimista. Ou que a sua obra é Alquimia, o que significa a mesma
coisa, eu acho.
– E que, junto com
Fulcanelli que você citou, temos em Friedrich Wilhelm Nietzsche a Filosofia
ocidental que se encontra com a Alquimia.
– Mas como? Mostre-o.
– Todos os conceitos e
movimentos do pensamento de Nietzsche são aplicações do hermetismo à Filosofia
do mundo contemporâneo e às Ciências Humanas, completa/mente desumanas e vis,
que ele estava vendo nascer no século XIX. Contra essa imbecilização
programada, ele pensou os conceitos: força, transmutação dos valores, vontade
de potência, o super-homem, eterno retorno, intempestivo, Aurora, amor fati. Este verso de Assim falou Zaratustra é a nova versão
que ele produz da matéria prima e da pedra filosofal: “Eu vos digo: é preciso
ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante”.[137]
– Hm...
– Mais que um conceito,
o operador transmutatório hermético nietzschiano do Super-homem[138]
tem sido o mais avacalhado e mal compreendido, desde os nazistas e gibis e
filmes americanos, até interpretações evolucionistas ou aristocráticas feitas
por filósofos ou teóricos de outras áreas. O ser humano é fascinante. O homem
vitruviano desenhado por Leonardo da Vinci, inspirado no livro De Architectura (Sobre a Arquitetura), de Marcus Vitruvius Pollio, apresenta um
ideal humano de harmonia e proporções perfeitas, seguindo a medida áurea e
muitas outras categorias utilizadas pela arquitetura hermética medieval e
renascentista. As pessoas veem no ideal da beleza um modelo estático. Da Vinci
produziu uma máquina dinâmica no seu desenho, a proposta de que o homem pode
evoluir, não de uma forma competitiva e acidental, mas segundo o more geometrico que propõe Espinosa, o
modo geométrico, isto é, proporcional, causativo e racional. O super-homem de
Nietzsche não é a evolução biológica da espécie humana na produção de um outro
tipo de animal. O super-homem é a transmutação alquímica do homem, possível
aqui e agora, como nosso potencial humano e espiritual.
Cornelius Agrippa, na sua Filosofia Oculta, no Livro 2, Capítulo XXVII: “A proporção, a medida e a harmonia do corpo humano”, apresenta seis desenhos do homem como microcosmos, inspirados no homem vitruviano de Leonardo da Vinci, este sendo um deles, que associa o homem aos astros[139].
– Hm hm.......
– Outra proposta de
Nietzsche que não se compreende geral/mente é o eterno retorno, o qual não
retorna o mesmo. O que retorna é o que se afirma, é o eterno retorno da
potência, daquela potência que se torna vontade no devir. John Donne hoje é um
dos maiores poetas do mundo, por séculos ficou esquecido. Mesmo William
Shakespeare, o que pensou e escreveu é tão forte, que as pessoas da sua época
pouco captaram, mas ele escreve para o tempo, sobre o tempo.
– Hm hm.
– Quando comecei a estudar
Alquimia, pude experimentar fulgurações de poderes místicos, siddhis (सिद्धि: siddhiḥ),
como se fala em sânscrito. Traduzo aqui:
Existem oito
siddhis reconhecidos na religião hindu:
1) Aṇimā: a capacidade de reduzir o próprio corpo
ao tamanho de um átomo.
2) Mahimā: a capacidade de expandir o próprio corpo
para um tamanho infinitamente grande.
3) Laghimā: a capacidade de se tornar sem peso ou mais leve
que o ar.
4) Garimā: a capacidade de se tornar pesado ou
denso.
5) Prāpti: a capacidade de acessar qualquer lugar
do mundo.
6) Prākāmya: a capacidade de realizar tudo o que se
deseja.
7) Īśiṭva: a habilidade de forçar a influência
sobre alguém.
8) Vaśiṭva: a capacidade de controlar todos os
elementos materiais ou forças naturais.[140]
– Você pode fazer alguma(s)
dessas coisas?
– Você percebe que a
visão comum que se tem da Alquimia como a arte que transforma chumbo em ouro é
uma versão do oitavo siddhi? Essas coisas não têm quase nenhuma importância,
elas e outras constituem sinais daquilo que real/mente importa: a nossa conexão
com Deus. Como dizem os mestres Zen, olhe prà lua, e não pro dedo que a aponta.
– O que você fez quando
começou a sentir isso?
– Comprei os livros Corpus Hermeticum de Hermes Trismegistos
e O Tesouro dos Alquimistas, de
Jacques Sadoul. Fiquei por alguns anos lendo, mas, depois do entusiasmo
inicial, parecia que eu não estava encontrando o caminho, o fio que me guiaria
dentro do labirinto. Um dia me deparei numa livraria do centro com o Manual Prático de Alquimia, de Frater
Albertus, e o estudei com sofreguidão, lendo e relendo. Comprei equipamento de
laboratório, um extrator Soxhlet e muitas sementes para plantar e colher flores
e plantas, das quais eu retirava a essência, pelo método da extração,
conseguindo separar da matéria vegetal o Sulfur e o Mercúrio, que eram
sublimados, e o Sal, que era calcinado, e depois voltava a reuni-los numa só
substância. Repetia indefinida/mente o processo.
– O que obteve com isso?
– Remédios muito
potentes e sutis. Porém, eu queria o Pharmakon Catholicus, a Panaceia, o
remédio universal. O próprio Frater Albertus chama essa área de circulação
menor, é o trabalho com o reino vegetal, que é espagiria – separar, sublimar,
unir, et da capo, id est, solve et coagula – mas alegava que a verdadeira
Alquimia só se pode realizar no reino mineral. Aí eu embatucava. Você sabe
quais temperaturas é preciso produzir num alto-forno para liquefazer os
minérios? O ferro funde a 1510º C,
por exemplo, e, veja bem, fundir o metal não significa de modo algum
separar o Enxofre do Mercúrio, você terá a mesma substância metálica, fundida.
Como separar os dois princípios da matéria? Muitos textos afirmam que o calor
do Athanor, o forno alquímico, no qual o ovo deve ser mantido por um longo
tempo, tem que ser mantido como a calidez que a galinha produz chocando seus
ovos.
A coisa do alpinista
Frascos descorados de álcoois e
outras substâncias
Dançando na mente em foco do
descentrador
Toda vez que dança lança a mola
como um tubo
Que vai por uma espiral por muitos
outros mundos
Ele faz estrelas azuis e
pequeninas
Que saltam feito pipocas de sua
retorta
Olha em volta cheio de tesão por
tudo tudo
Mudo olha com esperança para essa
criança
(Luis Carlos e Eliane Colchete)
– E você desistiu? Ou
encontrou o caminho?
– Eu continuei e
continuo. Persevero. Por falar em Renascença, este livro bem que poderia utilizar
como seu inspirador alquímico Luís Vaz de Camões, o grande poeta épico e lírico
clássico da nossa língua: seria o justo a fazer; talvez, no volume dois, eu o
faça; pois, tudo que precisamos mostrar na Grande Obra se encontra no grande
vate lusitano; como podemos ver nesta poesia – que expressa a essência do Mercúrio,
e a produção do Mercúrio Andrógino:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
(Luís Vaz de Camões)[141]
Como cantou nosso poeta:
encontrar Mercúrio e separá-lo, para que o trabalho comece. Encontrar e separar
o Mercúrio não é todo o trabalho, mas já é muita coisa. Phaneg[142]
explica que são três obras: com o Mercúrio, a Obra em si e a Projeção.
O Mercúrio dos Filósofos
é a matéria prima da obra, é a quintessência. Não se trata do mercúrio vulgar.
Mas esse Mercúrio deve ser trabalhado, fixado, para que se torne o Mercúrio
Andrógino: aí é que ele real/mente é a matéria prima da obra, e se chama
Mercúrio Filosofal.
O Enxofre é fundamental
para que possamos encontrar e fixar o Mercúrio.
O Feminino e o Masculino
se dão as mãos, se abraçam, se entrelaçam.
A Sacerdotisa é a
presença feminina e intuitiva ao lado do Mago.
Fumaça
Vendo o homem-mosca na televisão
Vendo o homem-aranha na televisão
Senti um calafrio de tensão
Pois talvez eu seja a interseção
Entre a teia e o que nela cai
Entre o que vem e vai
Entre o que entra e sai
Ponto de fusão
Ou de ebulição
Solidificação
Ou não[143]
Muitos chamam o afã
alquímico de “trabalho de mulher e jogos de crianças”:
O processo do Trabalho tem sido
chamado de trabalho de mulheres e jogo de meninos. Após o início da Obra, o
sutil inquisidor da natureza acompanha seu progresso. As palavras não são
fabulosas nem desprezíveis, pelo contrário, você deve lê-las com atenção, para
que os textos dos antigos, que muitas vezes transpõem palavras, não o induzam
ao erro, assim como A. Pipus advertiu em seu Livro dos Segredos:
O
jogo tríplice das crianças deve preceder o trabalho das mulheres. Pois as
crianças brincam de três coisas. Em primeiro lugar com paredes velhas, em
segundo lugar com a urina, e em terceiro lugar com os carvões. O primeiro jogo fornece
a matéria da Pedra. O segundo jogo aumenta a alma. O terceiro jogo prepara o corpo para a vida. Com efeito, da flor do
sangue, o salitre é feito pelo primeiro jogo infantil, o qual, uma vez
realizado, tudo o que resta é animá-lo e dissolvê-lo frequentemente em água com
seu companheiro por dois outros jogos infantis, necessários até o terceiro
calor de nosso Elixir no trabalho das mulheres, que é apenas cozinhar. Que
aquele, portanto, que pode entender, entenda. Além disso, na nossa Pedra,
aquela que todos os Filósofos procuram, se encontram os primeiros elementos; os
minerais, a tintura, a cal, a alma, o espírito e o corpo fixo e o volátil, o
Mercúrio, não qualquer mercúrio, mas aquele em torno do qual a natureza começa
suas primeiras operações pelas quais determina a natureza metálica, porém
deixando a coisa imperfeita. Se, portanto, você tiver extraído essa coisa de
onde está, com ela você terá começado a obra, iniciando com aquilo que a
natureza deixou imperfeito, aí você encontrará uma coisa perfeita, e você se
alegrará, como diz o rei Geber. Esta coisa da qual a pedra é extraída, ela é
possuída tanto pelos pobres quanto pelos ricos. É o trabalho das mulheres e o
jogo das crianças, e a pedra é a sua flor. /.../[144]
Vamos observar três
telas que retratam o Alquimista com sua companheira[145]. Estes quadros
muitas vezes recebem uma intepretação parecida, a começar com aquela que é
feita sobre o quadro O Alquimista, do
pintor holandês Pieter Bruegel, e a reprodução que dele faz o seu filho (cerca
de 1558, no caso da tela original, de Bruegel pai):
Vejamos os quadros
pintados por Pieter Bruegel, o Velho, em preto e branco, e, a cores, aquele que
foi recriado pelo seu filho, também pintor, Pieter Bruegel, o Jovem, o qual, ao
lado de fazer suas próprias produções, se esmerou em ser um recriador das obras
do pai.
Temos ainda a Oficina de um Alquimista com Crianças Brincando, de Richard Brakenberg[146], que lhes é posterior.
Estas telas são
compreendidas como sendo um alerta para a falsidade da Alquimia, na qual o
homem gastaria seu tempo e seus recursos: vemos o laboratório empobrecido e
bagunçado, o alquimista concentrado maniaca/mente no seu trabalho, as crianças
desorientadas e confusas, no caso de Brakenberg
imitando as sancides do pai numa brincadeira, no caso dos Bruegel colocando
panelas na cabeça (“meninos maluquinhos”) e vasculhando com fome a despensa
vazia, e nos dois casos a mulher do alquimista se queixando do descaso do marido
e da falta de dinheiro.
Nas
telas dos Bruegel ainda vemos ainda, pela janela, uma cena futura dos meninos
sendo deixados numa instituição de caridade, pelos pais.
Essa
leitura é superficial, e remete àqueles sopradores que se jogavam de cabeça no
trabalho operativo desorientado, lendo ao pé da letra os almanaques, e gastando
seus recursos com matérias e equipamentos que seriam desperdiçados.
Não
está errada, porém, existe uma leitura mais profunda.
A chave
para a leitura alquímica destas obras está na frase dos alquimistas
alexandrinos: a Alquimia é trabalho de mulheres e brincadeira de crianças.
Há uma
simbologia nessas atribuições. É preciso tratar a matéria, o matraz e o forno
como uma mulher cuida de uma criança recém-nascida. É preciso lavar o ovo até
que fique branco, é preciso cozinhar continua/mente, na temperatura certa, sem
deixar desandar nem queimar.
Assim
pensa Salomon Trismosin; como podemos ver nas figuras 19 e 20 e nos artigos
segundo e terceiro, que ilustram, de Le
Toison d’Or ou Le Fleur des Trésors de Salomon Trismosin, tradução francesa
de 1612, reeditada na Bibliotheca Hermetica em 1975, por René Alleau[147].
Sendo
esse seu título original, em latim Aureum
Vellus, O Tosão de Ouro
(referência ao mito grego dos Argonautas), essa obra vai ser mais conhecida por
Splendor Solis, que é o título de uma
das suas seções:
O título da obra,
Splendor Solis, pode ser traduzido
como os Esplendores do Sol, mas também implica os Esplendores da Alma. /.../ O
texto é uma antologia de autores mais antigos. As ilustrações retomam aos
motivos das iluminuras do Donum Dei,
do final do século XV, do alquimista de Estrasburgo Georges Aurach, nas quais
todas as figuras são representadas dentro de vasos. O processo simbólico mostra
a clássica morte e renascimento alquímico do rei e incorpora uma série de sete
frascos, cada um associado a um dos planetas. Está escrito, pelo menos para a
versão mais antiga conhecida, em alemão, mais precisamente em alemão médio
(Mitteldeutsch ou Zentraldeutsch), um grupo de dialetos germânicos falados
principalmente na Alemanha central e em Luxemburgo.
A cópia mais antiga do Splendor Solis, que contém sete capítulos, é um manuscrito que está no Kupferstichkabinett do Staatliche Museen zu Berlin (Gabinete de Gravuras e Desenhos, nos Museus Estatais de Berlim). Foi criado em Augsburg e data de 1532-1535. O texto iluminado é escrito em pergaminho com bordas decorativas, como um livro de horas, lindamente pintado e embelezado com ouro. /.../ A primeira edição impressa está no terceiro tratado de uma coleção alquímica, o Aureum Vellus, de 1599, atribuído ao lendário Salomon Trismosin, apresentado como o mestre de Paracelso. O Aureum Vellus foi reeditado muitas vezes em diferentes formas (em francês, sob o título La Toyson d‘Or ou la Fleur des Thrésors, 1612), amplamente conhecido e comentado como Splendor Solis, que, a partir de então, é sistematicamente associado ao nome de Salomon Trismosin.[148]
Ainda há uma terceira
leitura, que faço, utilizando conceitos de Gilles Deleuze e Félix Guattari, no
platô “Devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível...” (Devenir-intense,
devenir-animal, devenir-imperceptible...)[149];
você precisa fazer devir mulher e devir criança para produzir em si e no mundo
a transmutação.
Falo nova/mente das
transmutações do espírito: para Friedrich Nietzsche, este se torna camelo,
depois leão, depois criança.
De Nietzsche a
Heráclito, e Nietzsche é Heráclito, os dois sendo alquimistas.
Vejamos os Fragmentos 52
e 30 do nosso filósofo pré-socrático:
Fragmento
52:
Αἰὼν
παῖς ἐστι παίζων, πεσσεύων· παιδὸς ἡ βασιληίη.
O
evo (o Aión, o tempo dos deuses e o tempo da experiência humana) é um menino
que brinca jogando dados: regime de criança.
Framento
30:
Κόσµον
τόνδε, τὸν αὐτὸν ἁπάντων, οὔτε τις θεῶν, οὔτε ἀνθρώπων ἐποίησεν, ἀλλ' ἦν ἀεὶ καὶ
ἔστιν καὶ ἔσται πῦρ ἀείζωον, ἁπτόµενον µέτρα καὶ ἀποσϐεννύµενον µέτρα.
Este
cosmos, o mesmo para todos, não o fez nenhum dos deuses nem dos homens, mas ele
foi sempre, é e será: um fogo sempre vivo, acendendo e extinguindo-se segundo
medidas.[150]
Assim falou Nietzsche:
Este mundo é um
monstro de força sem começo nem fim, uma quantidade de força brônzea que não se
torna maior nem menor, que não se consome, mas só se transforma, imutável em
seu conjunto, uma casa sem despesas nem perdas, mas também sem rendas e sem
progresso, rodeada do “nada” como de uma fronteira. Este mundo não é algo de
vago e que se gaste, nada que seja de uma extensão infinita, mas, sendo uma
força determinada, está incluído num espaço determinado e não num espaço que
seria vazio em alguma parte. Força em toda a parte, é jogo de forças e ondas de
forças uno e múltiplo simultaneamente acumulando-se aqui, enquanto se reduz
ali, num mar de forças agitadas que provocam sua própria tempestade,
transformando-se eternamente num eterno vaivém, com imensos anos de retorno com
um fluxo perpétuo de suas formas, do mais simples ao mais complexo, indo do
mais calmo, mais rígido e do mais frio ao mais ardente, ao mais selvagem, ao
mais contraditório para consigo próprio, para retornar, depois, da abundância à
simplicidade, do jogo das contradições ao prazer da harmonia, afirmando-se a si
mesmo, ainda nessa uniformidade das órbitas e dos anos, bendizendo-se a si
próprio como aquilo que eternamente deve retornar, como um devir que jamais
conhece a saciedade, jamais o tédio, jamais a fadiga: este meu mundo dionisíaco da eterna criação de si
mesmo, da eterna destruição de si mesmo, este mundo misterioso das
voluptuosidades duplas, meu “além do bem e do mal” sem fim, senão o fim que reside na felicidade do
círculo, sem vontade, senão um anel que possua a boa vontade de seguir seu
velho caminho, sempre em redor de si mesmo e nada mais senão em redor de si
mesmo. Este mundo, que eu concebo, quem, pois, possui um espírito bastante
lúcido para contemplá-lo sem desejar ser cego? Quem é bastante forte para
apresentar sua alma ante esse espelho? Seu próprio espelho ao espelho de
Dionísio? E aquele que fosse capaz disso não precisaria que fizesse mais ainda? Ofertar a si mesmo ao “anel dos anéis”? Com o voto
do próprio retorno de si mesmo? Com o anel da eterna bendição de si, da eterna
afirmação de si? Com a vontade de querer sempre e ainda uma vez?
De querer para
trás, de querer todas as coisas que já foram? De querer para o futuro, de
querer todas as coisas que serão? Sabeis agora o que é para mim este mundo? E o
que eu quero, quando quero este
mundo? Quereis um nome para esse universo, uma solução para todos os enigmas?
Uma luz até para
vós, os mais ocultos, os mais fortes, os mais intrépidos de todos os espíritos,
para vós, homens da meia-noite? Este mundo é o mundo da vontade de potência e nada mais! E vós também sois esta vontade de potência e nada mais...[151]
É por isso que Nietzsche
é Heráclito, não só por isso, mas por isso também; e é por isso que os dois filosofam
hermetica/mente.
Ainda sobre Deleuze: em
2021, Joshua Ramey publica The Hermetic
Deleuze: Philosophy and Spiritual
Ordeal (Deleuze Hermético: Filosofia
e Prova Espiritual), que desenvolve a tese do autor de que Gilles Deleuze,
com sua filosofia da diferença e da expressão, está fazendo um novo
devir-alquimista[152].
Vejamos um exemplo, meu:
/.../ Um devém dois: cada vez que
encontramos esta fórmula, mesmo que enunciada estrategicamente por Mao
Tsé-Tung, mesmo compreendida o mais “dialeticamente” possível, encontramo-nos
diante do pensamento mais clássico e o mais refletido, o mais velho, o mais
cansado. /.../[153]
Escrevendo sobre o
Rizoma e a multiplicidade, o complicatio
da natureza que nega a unicidade, Gilles Deleuze e Félix Guattari pareceriam
estar citando o Tao te King de Lao
Tsé, especifica/mente o poema XLII: “O Tao
gera o Um./O Um gera o Dois./O Dois gera o Três./O Três gera todas
as coisas”[154].
(Veja como o número mágico Tetráctis τετρακτύς pitagórico
já está explicitado nesses versos).
Porém, o texto que
Deleuze e Guattari estão citando é um antigo alquimista grego (Philosophus Christianus, in BERTHELOT, Marcelin. Collection des Anciens Alchimistes Grecs. Paris: Georges
Steinheil, 1888, Vol. II, p. 404), conforme podemos ler apud Giulio
Cesare Andrea Evola, Julius Evola:
Num
texto alquímico grego lê-se: “Um torna-se Dois, e Dois tornam-se Três; por
intermédio do Terceiro, o Quatro compõe o Unidade. Assim os Dois não formam
mais que Um”.[155]
Mebes chama veemente/mente
a atenção para o fato de o aprendiz ter que separar em si os dois lados, os
dois polos, torná-los nítidos distintos e melhores, e depois reintegrá-los.
Os dois lados são
complementares, o corpo (sal), precisa ser trabalhado, e trabalhar o corpo é
trabalhar o mundo, para se poder realizar a transmutação do Mercúrio, até que
ele se torne o Mercúrio andrógino.
O Mercúrio é o mais
visível, é o mais acessível, é o mais maleável, aquele no qual podemos ter a
esperança de fazer a fecundação, a germinação da nossa Agricultura Celeste.
Todavia, é mais ainda no
masculino Enxofre que precisamos trabalhar, é ele que é preciso transmutar,
para que se possa realizar a Grande Obra.
Filáion responde então a Hermes
Grau:
– Começo a compreender a
sua visão da Grande Obra. Mas, ao ler muitos autores, vi que cada um deles
manifesta uma ordem própria e uma quantidade diferente para as fases da obra.
Carlos, qual a tua concepção sobre essas fases?
– Amigo Filáion, de
15 a 21 falarei como vejo tal questão, e aí já respondi um número. Mas, antes,
gostaria de lembrar algo do que disse a respeito nosso amado Mestre Fulcanelli:
Estes oráculos, em número de quatro,
correspondem às quatro flores ou cores
que se manifestam durante a evolução do Rebis e revelam exteriormente ao
alquimista as sucessivas fases do trabalho interno. Estas fases, diversamente
coloridas, têm o nome de Regimes ou
de Reinos. Normalmente, contam-se
sete. Os filósofos atribuíram a cada regime uma das divindades superiores do
Olimpo, e também um dos planetas celestes cuja influência se exerce paralelamente
à sua, no próprio tempo da sua dominação. Segunda a ideia geralmente expandida,
planetas e divindades desenvolvem a sua potência simultânea de acordo com uma
invariável hierarquia. Ao reino de Mercúrio
(Ἑρμής, base,
fundamento), primeiro estádio da Obra, sucede o de Saturno (Κρόνος, o
velho, o louco); a seguir, governa Júpiter (Ζεύς, união, consórcio), depois Diana (͗Άρτεμις, inteiro, completo), ou a Lua,
cuja veste cintilante ora é tecida de cabelos brancos, ora feita de cristais de
neve; Vénus, devotada ao verde (Ἀφροδίτη, beleza,
graça), herda então o trono, mas logo Marte
a expulsa (Ἄρης, adaptado, fixado), e este
príncipe belicoso, de vestes tintas de sangue coagulado, é por sua vez
derrubado por Apolo (Ἀπόλλων, o triunfador), o Sol do Magistério, imperador vestido de brilhante escarlate, o qual
estabelece definitivamente a sua soberania e o seu poderio sobre as ruínas de
seus predecessores.[156]
As Sephiroth constituem
o plural da palavra Sephirah, que significa Esfera em Hebraico, e que são as
dez emanações de Ain Soph, o princípio imanifestado.
A Árvore da Vida é um
esquema cósmico e anímico, ali temos um mapa, um roteiro, para a viagem que
nunca termina, que começa no começo da criação do universo, e recomeça a cada
nascimento, a cada dia, a cada passo.
Os eventos e encontros
que a pessoa comum tem no seu dia são os nódulos energéticos com que lida e que
a ligam com as Sephiroth, os portais elementais da Árvore da Vida.
Estas as Sephiroth
apresentadas aqui com seu significado e planeta correspondente: 1. Kether – A Coroa – Plutão, 2. Chockmah – Sabedoria –
Netuno, 3. Binah – Entendimento – Saturno, 4. Chesed – Misericórdia – Júpiter,
5. Geburah – Força – Marte, 6. Tiphareth – Beleza – Sol, 7. Netzach – Vitória –
Vênus, 8. Hod – Esplendor – Mercúrio, 9. Yesod – Fundamento – Lua, 10. Malkuth
– Reino – Terra, (11. Daat – Ain Soph – Ilimitado).
Foi Éliphas Lévi quem desmonstrou a correspondência entre as 22 duas letras Hebraicas e os Arcanos maiores, e ainda entre cada caminho que liga as Sephiroth (do 11 ao 32; do 1 ao 10 os caminhos são as próprias Sephiroth) e os Arcanos maiores do Tarot, A Árvore da Vida[157]
Pois bem, Don Juan e Don Carlos nos ensinam: é preciso temperar o Nagual com o Tonal. Onde um está, o outro é o centro daquela onda, e uma onda o tempo todo se liga à outra onda, como se fossem uma, mas são duas, como duas cobras uma mordendo o rabo da outra, ou o signo chinês do Yin/Yang, o qual podemos ver no Bagua[158], que é a representação dos oito trigramas desenhados em torno de um mesmo centro.
Se te oferecem a
possibilidade de portar contigo um livro, se fores para uma ilha deserta, amigo
Filáion, leva
contigo os dois volumes de Mebes, alegando que são as duas metades da mesma
obra, uma dobra, ou os dois lados de uma cobra; mas, mais, na verdade; como no
caso dos grandes pensadores e profetas, nem palha é perto do que ele disse e
fez, porém, é assim mesmo, e produz grande proveito para ti. O mesmo se dá com
Gilles Deleuze[159] e com Plotino[160].
Capítulo 3: A Imperatriz ג
O
estágio de Ouros abarca tudo que pertence ao ocultismo e que, suficientemente
realizado, transforma um homem comum num perfeito mago branco. Essa
transformação da personalidade encontra sua analogia na transmutação alquímica
e cada estágio alquímico está correlatado a uma carta numérica de Ouros. A
alquimia, na qualidade de ciência oculta, corresponde, no plano físico, ao
processo iniciático da alma. Os graus básicos da transmutação são os mesmos. A
diferença essencial é que, no caso da alquimia, o “impulso do Alto” que
transmuta os elementos materiais em “pedra filosofal” provém do próprio
alquimista-iniciado.
(Mebes)[161]
A Imperatriz corresponde à Deusa Deméter
na Grécia e Ceres em Roma, e às Deusas da fertilidade pelo mundo, e à face feminina
da Deusa; às forças da fecundidade e da gestação, ao poder do ser feminino de ser
fecundada e gerar.
No alfabeto hebraico, se
relaciona com a letra Gimmel; o nome desta letra corresponde à palavra que
tanto significa camelo como bonito, e transmite a mensagem de força,
resistência e capacidade de realização, com a confiança em Deus.
Liga-se ao hexagrama 58
Duì Alegria, que é constituído dos trigramas Lago
sobre Lago.
E também a 54 Guī
Mèi, Trovão sobre Lago: A Jovem que se Casa.
O signo aqui é Gêmeos,
cujo planeta regente é Mercúrio, e seu elemento é o Ar.
Sua dualidade reflete a
própria dualidade essencial do ser, no qual se instaura como o ar que invade a
casa, que pode ser brisa morna e amena, vento amigável ou pode ser um vendaval.
Os elementos da natureza são o lugar para a aplicação dos vetores de força, e
toda força vem do espírito: seja física, intelectual ou moral. O Ar em gêmeos é
a força da natureza nas suas várias faces de brutalidade e de nobreza.
A riqueza começa e tem
como linha de chegada o corpo, toda riqueza é o corpo saudável no seu ambiente
saudável, também.
Assim o expressa
Shakespeare e assim traduzo:
Sonnet 91
Some glory in their birth, some in their skill,
Some in their wealth, some in their body’s force,
Some in their garments, though new-fangled ill;
Some in their hawks and hounds, some in their horse;
And every humour hath his adjunct pleasure,
Wherein it finds a joy above the rest:
But these particulars are not my measure;
All these I better in one general best.
Thy love is better than high birth to me,
Richer than wealth, prouder than garments’ cost,
Of more delight than hawks or horses be;
And having thee, of all men’s pride I boast:
Wretched in this alone, that thou may’st take
All this away, and me most wretched make.
Soneto 91
A glória parcial de um nascimento,
Da perícia, riqueza ou corpo
forte,
As roupas mais cotadas do momento,
Galgos, falcões, cavalos de alto
porte,
Podem ser todo o encanto de uma
vida
P’ra alguém que aí empenhe o seu
cuidado;
Porém, não podem ser minha medida;
Algo melhor que tudo hei
encontrado.
O teu amor p’ra mim é muito mais
Que um nascimento nobre, ou que o
dinheiro,
Mais deleitoso que esportes
frugais;
E tendo a ti, me gabo prazenteiro.
Infeliz
nisso só, que poderias,
Levar tudo e deixar-me as mãos
vazias.
O místico russo Mebes não
foi o primeiro a perceber e dizer que o Tarot é uma enciplocédia do ocultismo,
mas o explicitou, no nome das notas que fez, sempre lembrando que o que
escreveu é uma pálida marca do que falou, e o que falou, uma simples
reverberação da sua vidência e realização.
O Mago é o princípio masculino
fecundador e realizador, a Sacerdotisa é o princípio feminino fecundante e
continuador e a Imperatriz é a síntese hermafrodita dos princípios masculino e
feminino do eu do viajante aprendiz.
É como quando a mulher fica
grávida; o aprendiz está fértil, é fecundado pela Ideia e se torna portador de
uma nova possibilidade do ser, à qual ele pode dar à luz (se o fizer, é porque
percorreu todas as pontes da árvore cósmica, e atingiu a esfera de Malkuth).
O Mago é o Louco que completou o
aprendizado, está no alfa e no ômega, enquanto Mago, mas o Louco não está
parado, não tem lugar.
Paradoxal/mente, o aprendizado
começa em Kether, e vai por todas as vias, pelos caminhos que ligam as esferas
da Árvore da Vida, até chegar em Malkuth e produzir a realização, a
manifestação. Esse é o caminho descendente: coagula.
Em Malkuth está o Mundo, e o
camelo, que tinha virado leão para poder pular de pedra em pedra no deserto, ou
de estrela em estrela no cosmos, agora vira criança, na transmutação de
Nietzsche: o Louco vai subir a colina, atravessando as Sephiroth e os vinte e
dois caminhos entre as Esferas (por isso ele não é um caminho (não é o 11, ele
o cruza), nem uma espera, ele é a criança que caminha e evolui).
Ele faz o caminho ascendente, de
Malkuth a Kether, e realiza a sua própria mega obra: solve e coagula.
A obra é tanto interna quanto
externa, ¿você entende, amigo Filáion?, você muda o mundo, quando se transmuta,
e recomeça.
A pedra que resulta é o rebis, a
substância dupla. Isso inclui o andrógino, que traz em si as duas metades do
ser humano.
O Mago é Hermafrodita, é o Andrógino,
no sentido vital, biológico e filosofal. Como um ser manifestado, o Mago pode
ser um homem ou uma mulher. Ele, que é o louco, na sua outra face, vai fazer o
aprendizado.
E suas primeiras transformações
são A Suma Sacerdotisa (2), A Imperatriz (3), O Imperador (4) e o Hierofante
(5); a Sacerdotisa e o Hierofante são o homem e a mulher espirituais, os
artífices, os pontífices: construtores de pontes para o mundo emanante. O
Imperador e A Imperatriz são os regentes, os realizadores: os que fazem as
coisas nascerem e as alimentam (tanto seres quanto ideias, invenções, projetos
e instituições) no mundo manifesto.
Nosso é o quiasma dos dois
princípios masculino e feminino e espiritual e material no começo da Grande Obra
(Solve e Coagula) do Tarot.
Essa duplicidade também
corresponde a um dos aspectos do Ergon e Parergon, trabalhar no espiritual é
trabalhar no material, e vice-versa, o trabalho realizado em si é o trabalho
realizado no mundo, e vices-versas.
O Ergon é o trabalho com a
natureza mineral viva que somos, é o trabalho essencial, é a produção das
excências, é a autoconsciência do piloto da onda viva no mar vivo[162].
O Parergon é o nosso trabalho no
mundo, com a nossa consciência humana comum. Ele sempre é que representa para
nós, realização, crença, sustento etc. Mas ele sempre é também um trabalho com
a nossa essência, trabalhar a matéria do mundo é trabalhar a nossa essência
divina.
Penso que Pierre Teilhard Chardin
pensa muito bem quando fala na “energia evolutiva”, apesar da má vontade dos
cientistas (algo tão comum com Henri Bergson também), como lemos na crítica
rápida e rasteira que lhe faz o prêmio Nobel Jacques Monod[163],
como “progressismo cientista”. Apenas para apontar a importância de Chardin,
vamos ler um excerto:
Na prática, seríamos depositários responsáveis de
uma parte da energia universal que se deve ser conservar e propagar: não
qualquer energia, mas uma energia que atingiu, em nós, um determinado grau
supremo de elaboração. Por mais fria e objetivamente que as coisas sejam
tomadas, seria preciso dizer que a humanidade constitui uma frente de avanço
cósmico. Isto
significaria, antes de tudo, para nós, uma nova e
nobre sujeição para tirar proveito de todos os poderes fornecidos pela Terra
para promover o progresso do Improvável. Porém, captar as energias materiais
não seria mais um esforço secundário. Para que a corrente do Espírito,
representada hoje pela Humanidade, seja mantida e avance, seria necessário
tentar principalmente que a massa humana conserve sua tensão interna; quer dizer, que não deixasse ser desperdiçados ou
diminuídos nela o respeito, o carinho, o fervor da Vida. Se esse fervor
diminuísse, imediatamente o que temos chamado de noosfera murcharia e
desapareceria. Entrevemos aqui uma nova energética (entretenimento,
canalização, aumento das aspirações e paixões humanas) em que confluiriam a
Física, a Biologia e a Moral, confluência muito curiosa, mas inevitável, assim
que compreendemos a realidade do fenômeno humano.[164]
Depois desse começo bem
movimentado, chegamos a Os Enamorados (6), que é o encontro atrativo entre o
masculino e o feminino, o Homem e a Mulher.
A Imperatriz nos traz a percepção
do poder, assim como o Mago e a Sacerdotisa e o Imperador, porém o poder da
Imperatriz tem um orgulho, uma alegria feminina, materna. A gente se sente
semente. A gente se sente gente. A gente se sente útil.
Ela sente que é fértil, e que a
Terra é fértil. Ela sabe que pode fazer, trabalhar, conquistar, gerar e gerir.
A deusa Deméter (em grego, Ceres
em latim) é o mito que expressa essa sensação, ou melhor, essa certeza, na
tradição ocidental. Mas a Deusa, em várias tradições nas quais aparece pelo
mundo, também nos faz sentir assim.
Ela afaga e alimenta a pessoa,
que sente que é e está junto com o mundo, com sua mãe, seu pai e seus irmãos.
O conhecimento pelo mito está em
todos os povos, mais clara/mente entre os ditos primitivos e na antiguidade, entre/mentes,
sempre está aqui. De novo, não se trata de metáforas, símbolos, arquétipos ou
compensações psicológicas, toda a fraquíssima e tonta psicologia, nas suas
várias vertentes.
O mito, para quem nele crê, mesmo
como hipótese de trabalho, ou como elemento integrante da cultura da pessoa, é
um portal energético, que nos dá acesso à força, ao amparo e ao aprendizado.
Assim escreveu Éliphas
Lévi, sobre o Magnum Opus:
/.../ O segredo completo da filosofia de Hermes está contido nesta
simples indicação. O fogo natural não cria, mas faz amadurecer os minerais.
Descobrimos a piscicultura e o Hermeticismo a metal-cultura, mas quem
pescará carpas se semear ovas de arenques? Como se pode, então, produzir ouro a
partir do sal, do enxofre e do mercúrio? M. Louis Lucas, o erudito
inventor do biômetro, demonstrou que, de acordo com as noções dos antigos, a
substância é individual e possui suas formas especiais devido à diversidade de
suas formas de polarização molecular e à variada angulosidade de sua radiação
magnética. Assim, todos os seres são ímãs individuais e o problema que deve ser
resolvido pela magia de Hermes é este: como acumular e fixar o calor latente
num corpo artificial de maneira que se mude a polarização dos corpos naturais
por sua união com este corpo artificial?
A criação de ouro no magnum opus se realiza através da
transmutação e da multiplicação. Ramón Llull, um dos maiores e mais sublimes
mestres da ciência, diz que para fazer ouro devemos ter ouro, ex nihilo
nihil fit, de fato não podemos criar riqueza, mas podemos aumentá-la e
multiplicá-la. /.../
O sal e o enxofre só servem para preparar o mercúrio. Estas palavras,
enigmáticas em sua forma, mas basicamente inteligíveis, expressam brevemente o
que os filósofos entendem pelo mercúrio fundido com enxofre, que se transforma
em senhor e regenerador do sal. Trata-se do Azoth, o magnésio universal,
o Grande Agente Mágico, a Luz Astral, engendrada por energia animal, poder
intelectual, que comparam com o enxofre por suas afinidades com o fogo divino.
Quanto ao sal, é a matéria absoluta. Todo elemento material contém sal e todo
sal pode transformar-se em ouro puro através da operação combinada de enxofre e
mercúrio que, às vezes age tão rapidamente que a transmutação pode realizar-se
instantaneamente, sem cansaço para aquele que o pratica e quase sem custo
algum. Em outras ocasiões, e de acordo com a mais contrária disposição dos
fatores ambientais, a operação requer vários dias, meses e, às vezes, inclusive
anos.
Tudo depende do magnes interior de Paracelso. O trabalho consiste
basicamente em projetar, e a projeção se realiza perfeitamente através da
compreensão efetiva de uma simples palavra. De fato, trata-se de uma operação
importante do trabalho, consiste na sublimação que não é nada além, de acordo
com Geber, do que a elevação da substância seca pelo fogo, com aderência em sua
própria base. /.../
O magnum opus de Hermes é uma operação essencialmente mágica, e é
considerada como a suprema dentre todas, já que supõe o absoluto com respeito
ao conhecimento e à vontade. Há luz no ouro, ouro na luz e luz em todos os
elementos.
A vontade inteligente, que assimila a luz, dirige as operações da forma
substancial, e só emprega a química como um instrumento secundário. A
influência da vontade e da inteligência humanas sobre as operações da natureza
em parte dependem de seu Logos. É, além do mais, um fato tão evidente que todos
os alquimistas sérios tiveram êxito na proporção de seu talento e de sua fé,
reproduzindo seu pensamento no fenômeno da fusão, da salinização e da
recomposição dos metais.
O Grande Agente da operação do sol é a força que está descrita no
símbolo de Hermes sobre a Tábua de Esmeralda. Trata-se da força mágica
universal, o ígneo motor espiritual, o Od judeu e a Luz Astral, de
acordo com a expressão adotada nesta obra. É o fogo secreto, vivificador e
filosófico do qual não falam os filósofos Herméticos, para mantê-lo a salvo e
preservá-lo misterioso. É o esperma universal, o segredo que eles guardam,
merecidamente representado sob a figura dos caduceus de Hermes. Um segredo
imensamente físico foi também ocultado sob as parábolas cabalísticas dos
antigos. Nós tivemos êxito ao decifrá-lo e o apresentamos literalmente para as
investigações dos produtores de ouro:
1. Os quatro fluidos imponderáveis são apenas as diversas manifestações
de um agente universal, que é a luz.
2. A luz é o fogo utilizado no magnum opus sob a forma da
eletricidade.
3. A vontade humana dirige a luz vital por meio da organização dos
nervos. Nesse ponto, isto é chamado de magnetização.
4. O agente secreto do magnum opus, o Azoth dos sábios, o
ouro vivo e vivificado dos filósofos, o produtivo agente metálico universal, é
a ELETRICIDADE MAGNÉTICA, a primeira matéria do magnum opus. /.../[165]
Vou analisar o Mutus Liber[166]
no volume dois desta obra, que é dedicado à prática. Todavia, neste volume
inicial, consagrado à teoria, duas importantes observações há que fazer. Uma
diz respeito à ordem operativa para a leitura das imagens: 1 – 4 – 9 – 12 – 5 –
6 – 7 – 2 – 8 – 3 – 11 – 10 – 13 – 14 – 15. Invejoso, ciumento, zeloso, o editor
pretendeu misturá-las e assim confundir o amoroso, tornando muito difícil a
compreensão do trabalho, apresentado numa ordenação confusa.
A segunda é a importância da mulher trabalhando junto com o homem na Alquimia, tanto a mulher quanto o homem são cada um o Alquimista e a Alquimista, e, ao mesmo tempo, a companheira e o companheiro. Não há protagonismo, ou, somos dois protagonistas, e um precisa do outro para realizar a Grande Obra.
Foi
fabricado e funciona um esquema que tenta barrar a inteligência no Brasil, os
exemplos são muitíssimos, em todas as áreas; isso passa pela elite, empresas,
escolas, academia e mídia. Ao lado de bloquear os grandes pensadores, o esquema
do colonialismo mental brasileiro programado instaura as efígies ou rajás que
devem ser cultuados, e, cuja principal característica, ao lado de ter alguma
coisa que possa ser emulação de qualidade, é desarticular a independência mental
e a evolução espiritual em nosso país.
O que
tenta barrar a arte, a ciência, a filosofia e o pensamento originais no Brasil
é a Geoegologia, conceito criado por Eliane Colchete[167].
Vemos
aqui como ela explica seu pensamento:
Mas o que é
“Geoegologia”?
É a ciência
(logos) do Sujeito (ego) da História como da “modernidade” (geopolítica). Em
termos mais explícitos, é a definição da modernidade como discurso reflexivo da
agência do desenvolvimento da razão na História como vir a ser da subjetividade
pensável, por um sujeito, o Ocidente, que se auto-conceitua construindo a
oposição a um outro como objeto, o primitivo ou subdesenvolvido que permanece
pré-ego-lógico.
Assim, portanto,
a oposição construída do Centro e da margem funciona como a ideologia de um
processo intrínseco de desenvolvimento europeu, desde a Grécia antiga, que como
o Centro recalca a sua dependência construtiva desse “outro” relegado à
periferia. Enquanto o imperialismo, que congemina as potências pós-coloniais
(USA, Europa e Japão) funciona como a base econômica desse recalcamento, de
modo que as teorias geoegológicas que devem definir o capitalismo, como as de
Weber ou Marx, podem apenas conceituar a ficção desse processo autônomo, sem
que o imperialismo apareça como a mola na realidade.
Os paradigmas do
desenvolvimento, romanticista, positivista, funcional-culturalista,
estruturalistas, e, recentemente, a globalização que redefiniu a política de
dominação cultural geoegológica transportando o discurso da teoria para a
comunicação de massa (business de mídia), paradigmas que se sucedem ao longo da
modernidade, regem pois a constituição das teorias que nas ciências humanas da
modernidade estipularam a dicotomia da condição primitiva e da agência do
Sujeito pensável moderno-ocidental. Dispondo, portanto, a própria oposição ao
capitalismo como “Revolução Industrial”, na rasura do que o sustenta como a
dependência tecnológica fabricada na margem por meio das políticas
imperialistas contra a industrialização local, ao longo da história moderna
como estruturação da “divisão internacional do trabalho” que nos impõe
importação de industrializados caros (ou multinacionais) e exportação de
matérias primas (baratas) como limite da produção.
Uma
Alter-egologia na margem, pelo que ela deve apenas copiar o paradigma e refazer
o processo desenvolvimentista por algum arranco que a precipita na História, é
o efeito da Geoegologia no centro. Como se pode depreender, enquanto a
autocompreensão do terceiro mundo estiver presa à ideologia alter-egológica, restringindo-se
o pensador local a alter-ego do teórico de alhures, sem colocar a história
efetiva como campo de prova do discurso e recalcando as produções que a exigem,
o imperialismo permanecerá incólume. O momento pós-moderno se inicia
desconstruindo a oposição formativa da ideologia da modernidade sem por isso
ficar aquém dela em termos de organização social libertária. Apenas se trata de
observar a interdependência das culturas na efetivação dos fatores
progressistas, mostrando com as provas da história efetiva o que realmente
pertence à organização social liberal, que desde Locke é intermediada pela
informação da “margem”, desde o empirismo se afirma pela reorganização
cartográfica ensejada na descoberta das Américas, e ao longo da modernidade
instiga a mudança dos paradigmas pelos conhecimentos antropológicos ampliados.
Como na atualidade a produção na margem já interfere com a oposição construída,
compreende-se porque já não há novos modelos dicotômicos disponíveis, mas o
ônus da dominação cultural articulada como imperialismo econômico-tecnológico
nos termos novos da dominação info-midiática apenas repõe a necessidade da
desconstrução num plano de evidenciação até agora estruturalmente dificultado.
Luis Carlos de Morais Junior muito contribuiu à minha sistematização da modernidade em termos geoegológicos, por suas pesquisas do pensamento local que desde Oswald de Andrade tem ampliando as possibilidades de evidenciação. Na sua decisão por um engajamento efetivo, devemos comemorar um avanço esperável nas nossas lides de pensamento e políticas de emancipação.[168]
Androgynous Mercurius (Rebis) aparece junto com mais motivos alquímicos desenhados por Eliane, na capa e na contracapa do nosso romance Crisopeia[169].
Positivismo foi o novo nome do
egoísmo no despontar da era moderna, o qual perdura até hoje. Acontece quando o
homem acha que ele enquanto espécie é o máximo que pode existir no universo.
Ironica/mente, essa arrogância
espiritual e existencial gera as mais ridículas devoções e submissões a algum homem,
que fica sendo o sucedâneo do espírito, nessa mentalidade infantilizada: isso
se dá até com distorções do ânimo religioso das pessoas, se dá nas ditaduras,
na devoção irracional ao “sistema” total/mente inviável e errado do marxismo,
assim como em sistemas filosóficos oligofrênicos que propagandeiam terem eles
descoberto toda a verdade universal, como o neopositivismo lógico, e, ainda,
acontece também no materialismo mais geral, e na pressuposição das ciências
como a grande chave e fechadura do universo.
O homem saudável reconhece que o
mundo é maior que ele, e reconhece no mundo aquilo que os filósofos
pré-socráticos chamavam de noûs, a inteligência que pertence à alma do mundo,
em outras palavras, compreende que há um espírito que permeia todas as coisas:
essa é a natureza das coisas.
De rerum
natura é o nome do livro de Lucrécio, significa em latim Sobre a natureza das coisas; nada é mais claro e objetivo do que um
livro de Alquimia, a Natureza das Coisas é o Espírito.
Há várias versões para a
Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegistos, sempre com uma aproximação
possível do texto original, e ler muitas ajuda porque nos mostra a luz do
entendimento que brilha por trás das derivas das versões; gosto daquela que
Jorge Ben musicou e canta no Lp A Tábua de Esmeralda, e que é a
adaptação da tradução para o português da versão que Jacques Sadoul cita no seu
livro O Tesouro dos Alquimistas[170].
Secretum Secretorum,
O Livro do Segredo dos Segredos, obra árabe com o nome de Kitab sirr al-Asrar, do século X, trata de
vários assuntos, desde a arte de governar até a Alquimia. Foi traduzido e
editado por Roger Bacon, em latim, no século XII.
A edição de 1920 tem
notas e estudo introdutório em inglês, de autoria do editor do século 20,
Robert Steele, o qual realiza um levantamento de textos medievais sobre Alquimia
e mostra várias versões medievais de cada um dos 15 versos da Tábua de
Esmeralda para o latim, e, antes, comenta:
Deste ponto até o final da seção, está a famosa
Tábua de Esmeralda de Hermes, que aparece aqui em sua forma mais antiga
conhecida. Tem todas as aparências de considerável antiguidade e é
provavelmente de origem egípcia, passando por tratados bizantinos. Atualmente,
existem várias traduções diferentes dela, mas esta é provavelmente a melhor,
pois é, no geral, a mais simples. O texto em árabe parece ter recebido algumas
adições.
Vou fazer a minha tradução das quinze teses,
comparando as várias opções que o Secretum Secretorum oferece[171].
Aqui proponho a minha adaptação, utilizando como guia a tradução de Jacques
Sadoul e o texto constante na edição contemporânea do Secretum Secretorum. Várias alternativas em latim do texto
acima não foram vertidas. A pesquisadora Françoise Bonardel seleciona também
algumas versões e glosas da Tábua de Esmeralda, na antologia que
organizou, intitulada Filosofar pelo Fogo[172].
Observe no texto original,
constante das notas, que há (sub)teses das possibilidades das sentenças latinas
que não aparecem nas traduções consagradas em vernáculo:
1.
É
verdade, sem mentira, é certo e muito verdadeiro.
2.
O
que está embaixo é como o que está no alto, e o que está no alto é como o que
está embaixo.
3.
Por
essas coisas fazem-se os milagres de uma só coisa.
4.
E
como todas as coisas são e provêm de Um, pela mediação do Um, assim todas as
coisas são nascidas desta coisa única, por adaptação.
5.
O
Sol é o seu pai, a Lua é a sua mãe.
6.
O
vento o trouxe em seu ventre, a Terra é sua nutriz e receptáculo.
7.
O
Pai de tudo o Telesma do mundo inteiro está aqui. Sua força está intacta. É a
Mãe de toda a perfeição. Sua potência é perfeita. Ele é a causa da perfeição de
todas as coisas deste Universo.
8.
Se
o fogo for transformado em terra.
9.
Tu
separarás a terra do fogo e o sutil do espesso, docemente, com grande desvelo.
10.
Ele
ascende da terra e descende do céu, e recebe a força das coisas superiores e
das coisas inferiores.
11.
Tu
terás por esse meio a glória do mundo, e toda a obscuridade fugirá de ti.
12.
É
a força, força de toda força.
13.
Ela
vencerá qualquer coisa sutil e penetrará qualquer coisa sólida.
14.
Assim
o mundo foi criado. Disso sairão admiráveis adaptações, das quais aqui o meio é
dado.
15.
Por
isso fui chamado Hermes Trismegisto: tenho as três partes da filosofia
universal. O que disse da Obra solar está completo.
A Alquimia possui sete chaves operativas, indicadas
pelos operadores herméticos:
1) Macrocosmos e Microcosmos – a experiência alquímica
é única, pois, a começar os trabalhos, o ser humano se percebe como
microcosmos, isto é, uma projeção individualizada, do macrocosmos, do mundo.
Ele se identifica com o mundo, que é ele mesmo, e pode ver e agir sobre si
próprio como uma pedra, um matraz, um ovo, um forno, e faz o trabalho sobre
essa matéria que é o seu ser: a sua essência, o seu espírito e o seu corpo.
2) Ergon e Parergon – o trabalho alquímico torna-se de
tempo integral para o iniciado, e ele está sempre lidando com o ovo alquímico,
se identificando com seu ser individual e ao mesmo tempo com seu ser cósmico, e
assim, todas as atividades que ele faz constituem um contínuo com o seu
trabalho alquímico.
3) Ovo e Athanor – transformação da própria energia, inspirada
na Força Divina, o Um do qual o ser humano faz parte; ele consegue trabalhar
sobre seu ser mundano e aquece esse trabalho com um fogo cósmico, um calor
emanado da luz que gera o Universo.
4) Enxofre e Mercúrio – o macrocosmos e o microcosmos
são feitos de duas forças, uma masculina e fixadora, que o Alquimista chama de
Enxofre, e uma feminina e transformadora, que o Alquimista chama de Mercúrio.
Estas forças estão nele mesmo e em todas as coisas à sua volta. Separá-las é a
Hiperquímica, Química Transcendental, que difere da análise química ocidental,
porque faz a separação dos dois princípios geradores de tudo: o pai e mãe do eu
e do mundo.
5) Solve e Coagula – a Alquimista dissolve sua
consciência e assim o faz com o mundo também, aquilo que os Toltecas chamam de
“parar o mundo”. Ele consegue separar Enxofre e Mercúrio, e provoca a
dissolução do eu e do mundo, para depois reintegrá-los, conseguindo uma
sublimação de si mesmo e dos seres nessa reintegração; essa é a destilação genuína,
que inspirou a destilação vulgar, praticada por sopradores.
6) Quatro elementos e Quintessência – a criação é
constituída de quatro modos materiais e um modo que liga os modos materiais ao
mundo espiritual, os quatro elementos e a quintessência. Eles são a
contrapartida material do Enxofre e Mercúrio pré-materiais. O trabalho do
Alquimista com os Quatro elementos e a Quintessência produz o estado de glória,
que precede a ascensão da Obra Magna. Esse estado permite as manipulações, pois
o sutil e o sólido são duas vibrações diferenciadas mas integradas da
Quintessência, com a qual o Alquimista trabalha.
7) Pedra e Elixir – o trabalho do Alquimista é
benéfico para ele e para a humanidade desde o começo. Quando ele obtém a Pedra
Filosofal e o Elixir da Longa vida, sua maior felicidade é concedida por Deus.
A Tábua
de Esmeralda traz as sete
chaves. Muitos dos melhores tratados trazem apenas algumas.
Eis as chaves no texto basilar da Alquimia:
1)
O que está embaixo é como o que está no
alto, e o que está no alto é como o que está embaixo.
2)
Por essas coisas fazem-se os milagres de
uma só coisa.
3)
E como todas as coisas são e provêm de
Um, pela mediação do Um, assim todas as coisas são nascidas desta coisa única,
por adaptação.
4)
O Sol é o seu pai, a Lua é a sua mãe. O
vento o trouxe em seu ventre, a Terra é sua nutriz e receptáculo. O Pai de tudo
o Telesma do mundo inteiro está aqui. Sua força está intacta. É a Mãe de toda a
perfeição. Sua potência é perfeita. Ele é a causa da perfeição de todas as
coisas deste Universo. Se o fogo for transformado em terra.
5)
Tu separarás a terra do fogo e o sutil do
espesso, docemente, com grande desvelo. Ele ascende da terra e descende do céu,
e recebe a força das coisas superiores e das coisas inferiores.
6)
Tu terás por esse meio a glória do mundo,
e toda a obscuridade fugirá de ti. É a força, força de toda força. Ela vencerá
qualquer coisa sutil e penetrará qualquer coisa sólida.
7)
Assim o mundo foi criado. Disso sairão
admiráveis adaptações, das quais aqui o meio é dado.
A obra de Hermes Trismegistos é
gigantesca, e o que chegou até nós dos seus textos são fragmentos, mas, mesmo
assim, impactantes. Uma coisa é procurar uma influência para trás no tempo, o
que ali viria do neoplatonismo, do cristianismo, do gnosticismo, ou até de
filosofias orientais. Outra coisa é estudar e entender que o imenso mundo da
Filosofia Hermética reaparece na Grécia Clássica, em Roma e no mundo cristão,
como influência de um saber bem mais antigo que a Filosofia grega, o gnosticismo
e o próprio cristianismo.
Xavier Renau Nebou faz um
excelente trabalho de tradução e pesquisa no livro Textos Herméticos. Ali ele apresenta os principais estudos e
traduções sobre a obra de Hermes, abraçando com dúvida a tese de que teria
havido grupos ou congregações herméticas, as quais teriam produzido vários
textos diferentes que foram atribuídos a Hermes, no início da era Cristã; ainda
aceita a tese de que haveria uma matriz egípcia comum a todos eles. No seu
livro podemos ler alguns fragmentos herméticos que se relacionam clara/mente
com a prática alquímica, selecionados por Festugière:
Fragmentos dos textos alquímicos
do Hermetismo (Alquimia Hermética: AH), recolhidos e classificados por
Festugière[174]. Entre os mais significativos,
referidos mais adiante nas notas:
AH 1 [Alch. Gr., 115.10]: “Se você não tornar os corpos incorpóreos e não
encarnar os incorpóreos, o resultado esperado será nulo”.
AH 3 [Ibid., 275.15]: “Hermes disse, com efeito: ‘o grande Deus opera a
partir do princípio’, em vez de dizer: ‘o grande calor do fogo, desde a
primeira redução do mercúrio, é suficiente por sua potência para produzir o
Todo’”.
AH 5 [Ibid., 282.14]: “É esta operação que Hermes chama de ‘o bem dos
nomes múltiplos’ (polyṓnimon)”.
AH 6 [Ibid.,
228,7-234,2 e Scott, IV, p. 104-110]. São
citações de Hermes em Zósimo de Panópolis, Sobre
a letra Ômega, que constituem os fragmentos herméticos (FH) 19-21. Cf. também as notas de Scott
ao texto (IV, p. 112 e segs.) e a tradução de Festugière (op. cit., p. 263-273).
AH 7 [Alch. Gr., 239-246, Festugière, Rév.,
I, p. 363-368 e Scott, IV, p. 111-112]. São citações de Hermes em Zósimo, Conta Final. Tradução em Festugière, Rév., I, p. 275-281.
AH 8 [Alch. Gr., 150.12]: “Todo vapor sublimado é um pneuma”.
AH 9 [Ibid., 156.4]: “É preciso investigar também a questão dos tempos
oportunos. O pneuma, diz Hermes, deve ser separado sob a ação do fogo, deve
macerar até a primavera... O grande Sol produz isso porque é por causa do Sol
que tudo se realiza”.
AH 12 [Ibid., 175.12]: “O que o fogo faz de modo artificial, o Sol faz com
a ajuda da natureza divina. Assim diz o grande Hermes: ‘O Sol que produz todas
as coisas’. E não para de repetir: ‘Exponha ao Sol’ e ‘dissipe o vapor do Sol’.
Tudo se cumpre de alguma forma pela ação do Sol”.
AH 17 [Ibid., 83.4]: “De fato, Hermes diz em algum lugar: ‘A Terra virgem
é encontrada na cauda da Virgem (constelação)’”.
AH 23 [Ibid., 125.10]: “O que se distingue do eflúvio da Lua é separado de
acordo com a natureza substancial da Lua”.
AH 25 [Ibid., 132.16]: “O metal é um ser vivo animado (Zōon émpsyon)”.
AH 28 [Ibid., 407.10]: “Hermes declara que o conjunto das coisas, embora
múltiplo, é denominado um”.
AH 31 [Ibid., 84.12]: “Um é o Todo, por causa de quem é o Todo, porque se
o Todo não tem o Um, nada é o Todo”.
AH 32 [Ibid., 20.13]: “Se os dois não se tornarem um e os três não se
tornarem um e o conjunto do composto não se tornar um, o resultado esperado
será nulo”.
AH 33 [Ibid., 28-33 (Codex A), 33-35 (Codex E). Textos sinóticos em Scott,
IV, p. 145-159]. Título: De Ísis, a
profetisa, a seu filho Hórus. Tradução: Festugière, Rév., I, p. 256-260. Após uma introdução sobre as características
da revelação, Ísis conta ao filho os procedimentos para a obtenção do ouro.
Todos estes textos alquímicos
recolhidos por Festugière confirmam a estreita relação entre o hermetismo
prático e o teórico: a fórmula do Uno e do Todo de AH 28-32, por exemplo, é repetida como um lema em numerosos
tratados (cf. CH IX 9 e nota ad loc.); ou a função do sol, que é tão
fundamental na alquimia como na explicação culta do governo do Cosmos (cf. CH XVI e Apêndice I). Inclusive, a mesma
forma literária, a frase lapidar, é repetida nos Hermetica filosóficos (cf. SH
XI e nota ad loc.). [175]
Essas são as abreviaturas dos textos herméticos como Xavier Renau Nebot cita: AH:
Alquimia Hermética 1-33, Asc.: Asclepio, CH:
Corpus Hermeticum I-XIV, XVI-XVIII, DH: Definiciones
Herméticas Armenias I-X, FH: Fragmentos Herméticos 1-37, NH
VI: Códice
VI de Nag Hammadi, SH: Stobaei Hermetica I-XXIX (Extractos de Estobeo).
E aqui os autores teóricos que
utiliza: A. BARUCQ, F. DAUMAS, Hymnes et Prières de
l’Égypte Ancienne; FESTUGIÈRE, Révélation d’Hermes
Trismegiste; FESTUGIÈRE, H.M. Hermétisme
et Mystique Païenne; J.-P. MAHÉ, Hermès en Haute Égypte, I-II; A.
D. NOCK - A. J. FESTUGIÈRE, Hermès Trismégiste, I-IV; Papyri
Graecae Magicae (ed. PREISENDANZ);
A. PAULY, G. WISSOWA, Real-Encyclopädie
der classischen Altertumswissenschaft; W. SCOTT, Hermetica, I-IV; H.
VON ARNIM, Stoicorum Veterum Fragmenta.[176]
O Segredo
da Flor de Ouro[177] foi
escrito na China, no século VIII antes de Cristo, ou antes, e é um tratado
alquímico. A influência da obra de Hermes Trismegistos, há mais de 5000 anos,
se espalhou pelo mundo antigo, que não era hermetica/mente fechado, que era
hermetica/mente aberto, pois havia contatos entre os sábios e povos e os
povoados e as cidades e os impérios.
Capítulo 4: O Imperador ד
E se te desmentem, (recorda-te de
que) também foram desmentidos os mensageiros que, antes de ti, apresentaram as
evidências, os Salmos e o Livro Luminoso.
(Alcorão Sagrado)[178]
Honro os livros
sagrados, os textos herméticos, os Vedas,
o Antigo Testamento, o Novo Testamento e o Alcorão Sagrado.
Honro o Imperador, que é
a manifestação da ordem no mundo humano.
A letra Dalet que lhe
corresponde traz os significados de porta e entrada, e apontam para o ser que
se abre para o outro, ou mostra a humildade do homem diante do mundo e,
principal/mente, diante de Deus, e assim abre as portas dos chakras, e acessa a
comunicação com os seus Pais. Seu hegrama é 14 Dà Yǒu,
Fogo sobre o Céu, Grandes Posses ou Grande Força.
Reafirmando a mesma
noção, e para ficar no mesmo campo semântico, proponho também aqui o hexagrama 34 Dà Zhuàng, O Poder do Grande: Trovão
sobre o Céu.
O signo correspondente
sendo Caranguejo, seu planeta é a Lua, seu elemento é a Água, que lhe
proporciona suas qualidades e desafios, mutável, sensível, doce e ao mesmo
tempo insondável, oculto, sendo ele um ente da água como magia, como mistério.
O Rebis é o filho que
nasce da conjunção alquímica, é o fruto da obra bem-sucedida, da qual O
Imperador é um dos quatro começos. O Andrógino traz em si o fixo e o volátil:
Ares separa (volatiza), Afrodite junta (cria, cruza e manifesta), Hermes
condensa (faz a fusão hermética dos dois princípios: Mercúrio e Enxofre).
A
alquimia, como a astrologia, é uma ciência secular baseada no pensamento
analógico. Se observarmos atentamente a natureza e a vida humana, notamos um
processo que envolve um movimento de vai-vém entre os dois polos da existência:
matéria e espírito. Não se trata de polos opostos, mas de extremidades opostas
de uma escala que condensa numa direção e rarefaz na outra.[179]
Assim como esta obra
citada, a imensa maioria dos autores fala em analogia. Concordo com Mellie
Uyldert sobre esse movimento entre os polos, mas, justa/mente por não serem
opostos, por serem contíguos, eles constituem o mesmo contínuo que abarca o
espírito, a matéria, o espaço, o tempo e o pensamento (“Telesma o pai de todas
as coisas está aqui”). Por isso tudo é um. Por isso tudo é vivo. E é por isso
que a Alquimia (o Hermetismo) é a Filosofia da Univocidade.
No seu mesmo livro A magia dos metais, Mellie Uyldert
comenta que:
Através da purificação do corpo e
da alma, ela prepara o coração divino para o início da transmutação. As pessoas
que ainda possuem a centelha brilhante em seu interior têm o dever de se
purificar e de mudar; esse é o seu destino! Exatamente por essa razão, os
eremitas de outrora, e outros, ao lutar pela santificação, abstinham-se
intuitivamente de comer carne, de tomar álcool e outras drogas, de fumo, de
remédios químicos, de pornografia, de leituras populares (do tipo baixo,
sensacionalista), do sexo como divertimento, da tarelice e do raciocínio
causativo (usando estatísticas, por exemplo). A pessoa se afasta naturalmente
das coisas impuras e procura a paz e a natureza
tranquila e ainda não conspurcada.[180]
Nietzsche reverte o
pensamento ocidental, não por negar a metafísica (o estudo do ser enquanto
ser), muito menos por adotar o materialismo (infantilismo tolo, que não se
encontra nos seus complexos textos), mas, sim, por ser pensador da Univocidade,
sobre a qual trabalha esse homem – filósofo tão antigo que quase que virou
mito, mas cuja obra ainda chega univoca/mente até nós: Hermes Trismegistos.[181]
Veja, por exemplo, o
pensamento nietzschiano de que a “vida, no início, deve imitar a matéria para
ser simplesmente possível”[182],
na leitura de Deleuze sobre o sentido das forças que se apoderam das formas
(máscaras), em nosso autor. Nietzsche, por ser o pensandor que afirma a
univocidade, recusa a fortiori a
analogia, a representação e a dialética da negação.
Aproveito muito o texto
de Mellie, lendo unívoco onde ela escreve análogo:
O Sol, o coração e o ouro são análogos.
E gold, good e god (ouro, bom e
deus) vieram da mesma palavra original.[183]
A compreensão corrente
nas traduções para as línguas contemporâneas da Tábua de Esmeralda poderia aceitar a ideia de analogia, quando
vemos os dois primeiros versos vertidos assim: “O que está embaixo é como o que
está no alto, o que está no alto é como o que está embaixo”. Mas vejamos como
podem se apresentar esses versos, em latim, no Secretum Secretorum[184]:
Quod inferiora superioribus et
superiora inferioribus respondent.
Quod est inferius est sicut
quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius.
Quodcunque inferius est simile
est ejus quod est superius.
Inferiora hac cum superioribus
illis, istaque cum iis vicissim veres sociant.
Versos esses que, em português,
podem ser entendidos assim:
As coisas inferiores correspondem às
superiores e as superiores correspondem às inferiores.
O que está abaixo é como o que
está acima, e o que está acima é como o que está abaixo.
Tudo o que está abaixo é
semelhante ao que está acima.
As coisas que estão embaixo
são
semelhantes às que estão no
alto, e com elas se
unem verdadeiramente.
Vemos que, nas
possibilidades da apresentação em latim dos versos (escritos em Egípcio,
traduzidos para o Grego, retraduzidos para o Árabe, e, daí, vertidos para o
Latim; por isso há várias possibilidades de aproximação ao texto original na
tradução do Secretum Secretorum), se encontramos uma opção comparativa (sicut quod), temos também a ideia de que o superior e o
inferior se correspondem (respondent), se assemelham (est simile est) e mesmo se unem (sociant).
O que chega nessa peneira do tempo no texto é a ideia de que o inferior
e o superior estão profunda/mente ligados e aliados. Traduzir essa forte
ligação como analogia já é uma opção teórica, uma tradução que faz opção
intencional por ver nessa ligação ou congenialidade uma analogia, quando está
sendo demonstrada a mesma natureza das aparente/mente diferentes realidades, a
espiritual e a material.
A analogia é um hábito preguiçoso e perverso do pensamento humano, o
comodismo de tentar entender uma nova conjunção de forças, uma nova força, uma
nova forma como algo já conhecido; sempre produz entendimentos fracos e
submissos ao passado, representados, coisas que se desentendem total/mente.
Ainda podemos ter em mente o princípio fundamental do Hermetismo: Ἣν τὸ πᾶν
(Hen to pán) = o um no todo, o todo no um; tudo está em tudo. Esse axima
hermético afirma a univocidade: o espiritual e o material sendo um, os astros
estão em nós, nós estamos no universo, Macrocosmos e Microcosmos; não porque os
dois se assemelhem, mas porque os dois possuem a mesma natureza que se expressa
das duas maneiras.
Corroborando ainda nossa
tese, faço esta citação adaptada, simplificada (sem o símbolo desenhado nem as
citações em grego, mas que estão presentes na palavra simbolizada e nas
traduções), do texto de Julius Evola:
Este “todo”
tem sido chamado também caos (o “nosso”
caos) e ovo, porque contém
indistintamente as potencialidades de todo o desenvolvimento ou geração: dorme
na profundidade de cada ser e, como mito
sensível – para usar a expressão de Olimpiodoro –, desenvolve-se na
multiplicidade caótica das coisas e das formas dispersas aqui embaixo, no
espaço e no tempo. Por outro lado, o círculo do Uroboros tem também outro
significado: refere-se ao princípio de “clausura”
ou “selo hermético” que, metafisicamente, exprime o fato de ser estranha a esta
tradição a ideia de uma transcendência unilateralmente concebida. Aqui a
transcendência está concebida como um modo de ser compreendido na “coisa una”
que “tem um duplo signo”: é em si mesma e ao mesmo tempo é a superação de si
mesma; é a identidade e ao mesmo tempo veneno,
que dizer, capacidade de alteração e dissolução; é ao mesmo tempo princípio
dominante (macho) e princípio dominado (fêmea) e, portanto, “andrógino”. Um dos
mais antigos testemunhos hermético-alquímicos é a frase que Ostano teria dado como
chave dos livros da “Arte” deixados ao Pseudo-Demócrito: “A natureza recreia-se
na natureza, a natureza vence a natureza, a natureza domina a natureza”. Mas
Zózimo diz também: “A natureza fascina, vence e domina a natureza”; e
acrescenta: “Os sulfúreos dominam e retêm os sulfúreos”, princípio que se
tornará um motivo recorrente nos desenvolvimentos ulteriores da tradição, desde
a Turba Philosophorum em diante. /.../
Ora bem,
quando a coincidência do corporal e do espiritual, da qual tratamos, se entende
como deve ser entendida, quer dizer, não na referência a dois princípios que,
mesmo sendo um deles chamado “espiritual”, são pensados como partes de um todo
em qualquer caso exterior à consciência, mas sim de um modo vivo, como dado de uma experiência real
– então chegamos a outro dos ensinamentos herméticos fundamentais: o da
imanência, o da presença no homem da “coisa maravilhosa”, do “caos vivo”, no
qual está compreendida toda a possibilidade. Por isso nos textos herméticos há
um contínuo transferir dos mesmos termos, dum significado cósmico-natural para
um significado interior humano: Pedra, Água, Mina, Matriz, Ovo, Caos, Dragão,
Chumbo, Matéria Prima, Árvore, Espírito, Telesma, Quinta-essência, Mulher, Céu,
Semente, Terra etc., são símbolos que na linguagem cifrada hermética sofrem
continuamente esta transposição, até dentro de um mesmo período, provocando
imensas dificuldades para o leitor inexperto.[185]
Por exemplo, Marte é em
Alquima o nome do deus das mitologias grega (Áries) e romana, é o quarto
planeta do sistema solar e é o metal ferro. As relações que podemos ver entre
eles não são analógicas: é o mesmo princípio que está ali, em todos os casos.
Poderia se pensar que se trata da teoria das assinalações da Renascença, como a
estuda Michel Foucault no seu livro As
Palavras e as Coisas[186];
mas também não é isso, não se trata de um sistema que produza enunciados que invertam
as relações entre o visível e o invisível e inventem relações funcionais pela
semelhança entre os seres (por exemplo, o feijão serve como terapêutica dos
rins, porque teria uma forma parecida).
Acontece que a
substância ferro é um metal privilegiado para fazer armas de guerra, e o
elemento ferro está presente e é fundamental para as hemoglobinas do sangue
humano. O planeta Marte é chamado de planeta vermelho por ter uma aparência
avermelhada, e, no século XX, os cientistas descobriram que essa cor vermelha
visível da sua superfície se deve à presença do ferro nas rochas do seu solo,
em grande quantidade. Então, existe uma qualidade “marcial”, que está presente
no deus grego, nas hemácias, no planeta: Marte em Alquimia se refere a todos
eles, mas, antes e acima de tudo, se refere a essa qualidade, a essa “capacidade”
que se apresenta em várias manifestações diferentes.
Os textos e imagens
alquímicos não são para serem entendidos “ao pé da letra”, referencial/mente, “nosso
ouro não é o ouro vulgar etc.” Também não se trata aí de metáforas, de
linguagem cifrada, nada disso. O erro pode acontecer se o soprador lê o texto e
tanta fazer exata/mente o que o texto diz para ser feito: só enganos acontecem
aí, mesmo que, às vezes, sejam profícuos, porém, em outra escala, resultando em
descobertas químicas etc. (Ver
Mas isso nada tem a ver
com Alquimia.
Podemos ler na História da Filosofia Oculta, de
Alexandrian:
A ideia
que hoje fazemos da alquimia foi imposta no fim do século XIX pelo grande
químico Marcellin Berthelot (Les Origines
de l’alchimie. Paris: Georges Steinheil, 1885). /.../ Poderíamos crer,
segundo ele, que os princípios da química se confundem inteiramente com a
alquimia, dedicando-se os químicos a experiências banais, enquanto que os
alquimistas professariam a filosofia hermética: estes últimos desprezavam,
aliás, os primeiros e considervam-nos assopradores,
bons apenas na mesma medida em que o sopro era bom para activar o fogo de uma
fornalha. Por outro lado, apresentar simplesmente os alquimistas como
precursores leva a pensar que a alquimia desapareceu para dar lugar à química.
Ora, na época em que Berthelot consagrava dois tomos de sua Histoire des Sciences (1893) à alquimia
árabe, estudando-a da mesma forma que se estuda uma língua morta, um grupo
extraordinário de alquimistas trabalhavam, em França, na Grande Obra, e um
deles, François Jollivet-Castelot, renovando o desdém dos seus confrades do Renascimento
pelos químicos, dizia, em 1897: “A química é uma ciência de garotos de laboratório para a filosofia
hermética” (Commen on devient alchimiste.
Paris: Chamuel, 1897).[188]
O erro também pode
acontecer quando se tenta fazer uma tabela de correspondência das metáforas, e
agir como o primeiro soprador, só que substituindo a palavra que aparece no
texto por alguma outra coisa, que ele supõe que seja o “objeto” escondido ou
metaforizado. Respondendo também a Gaston Bachelard, a Alquimia não trabalha
nem com um conceito da matéria universalizada, nem com a matéria
particularizada por alguma ciência.
A Alquimia trabalha com
as forças pré-materiais.
Ao que o texto alude nos
elementos e operações de que trata são capacidades da própria consciência
humana, que só podem ser acessadas num estágio refinado, mais sutil, da
consciência. Nada é vago ou subjetivo aí, por isso os textos apresentam
formidável unidade e coerência. É por isso que é Marte é sempre Marte, e se
você conseguir obter Marte, será Marte, com suas características, propriedades
e possibilidades, nunca uma coisa qualquer. Em cada grão uma montanha de
energia com fé, em cada grão um cosmos, que nos alimenta no fluxo das energias
universais. Um no todo. Todo no um.
Robert Fludd faz
importantíssimas experiências com o Trigo e estabelece o seu papel de ouro
vegetal:
E, no entanto, ela não é de muitas
Naturezas, mas é indissociável e apenas uma em número, governando como a
própria imagem da Criatura geral em tudo e em todos, pois, tanto quanto ela é a
vida de todas as coisas, está com a alma individual da palavra universal em
todos e, portanto, em todas as partes do edifício Microcósmico: Pensai,
portanto, seriamente, ela escolheu para sua mansão principal no Reino Animal o
corpo do homem, que é a mais excelente de todas as criaturas sensíveis; No
Império Vegetal, ela elegeu o Trigo, que é o mais digno de todos os vegetais
para o seu tabernáculo mais rico, no qual ela é mais abundantemente observada
em habitar e manter sua corte mais comum no Reino vegetal e, em sua natureza
Mineral, que ela mais se deleita e principalmente habita no palácio de Ouro,
polindo-o com as correntes de sua glória mais brilhante. [189]
O valor do homem, do
ouro e do trigo é um valor imanente, não representativo. É bom sempre respeitar
esse valor espiritual, aquisitivo e alimentativo. Especular com esse valor é
falseá-lo[190].
A minha receita: trigo
integral como grão junto com arroz nas refeições. Repita o máximo que puder,
pois o trigo nos alimenta e estabelece vínculos mágicos com o mundo em suas
potências. Se puder comer o pão, coma o pão, com o mesmo intento, pois, o
efeito é o mesmo.
Continuando
a demonstração sobre a obra de Shakespeare ser inteira/mente alquímica,
apresento mais uma tradução que fiz. Os sonetos do nosso autor sempre são
construídos em decassílabos, o que, em Inglês, cuja maioria do vocabulário é monossilábica,
dá para dizer muito mais coisa do que a mesma medida em Português. Mesmo assim,
os sonetos 7, 33, 91 e 145 traduzi em decassílabos; os sonetos 8 e 21, em
versos livres, e os sonetos 20 e 154 em alexandrinos:
Sonnet 154
The little Love-god lying once asleep,
Laid
by his side his heart-inflaming brand,
Whilst
many nymphs that vowed chaste life to keep
Came
tripping by; but in her maiden hand
The
fairest votary took up that fire
Which
many legions of true hearts had warmed;
And so
the General of hot desire
Was,
sleeping, by a virgin hand disarmed.
This
brand she quenched in a cool well by,
Which
from Love’s fire took heat perpetual,
Growing
a bath and healthful remedy,
For
men diseased; but I, my mistress’ thrall,
Came there for cure and this by that I prove,
Love’s
fire heats water, water cools not love.[191]
Soneto
154
Eros, o Deus do Amor, menino,
adormeceu,
Largando ao lado a flecha
inflama-corações;
Vieram as ninfas virgens, vendo
ali o sono seu,
E uma pegou o dardo-chama, que
legiões
Fez ficarem amorosos e sinceros.
E assim dormindo foi o General do
Quente
Desejo desarmado. Ela, a seta,
então, de Eros,
Mergulhou na nascente, e a frecha
a fez ardente,
Encheu de fogo a fonte, e, ao
invés de se apagar,
Criou balsâmica água ígnea, que
serve de cura
Pra todos que sofrem da loucura de
amar.
Servo de minha Dama, lá fui, à
procura
Do universal remédio, e fiquei
sabedor:
O fogo esquenta a água, a água não
esfria o Amor.
O adepto
William Shakespeare (Inglaterra, Stratford-upon-Avon,
1564 – Stratford-upon-Avon, 23 de abril de 1616) fala do fogo que não queima e da
água que não molha, ou, da água que queima, a verdadeira água ardente (não se
refere a alguma bebida destilada), a água ígnea, e do fogo que molha; à qual
Gregório de Matos Guerra (Brasil, Salvador, 23 de
dezembro de 1636 – Recife, 26 de novembro de 1696) também
se refere no soneto:
Ardor em firme
coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:
Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal em chamas derretido.
Se és fogo como passas brandamente,
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!
Pois para temperar a tirania,
Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.[192]
Minhas
canções, meus poemas e meus livros em geral trazem sempre aprendizado e investigação alquímica, junto, às vezes,
quase sempre, com outras matérias de que tratam.
É uma
inquietação que acalma e uma meditação atlética, que gera movimento interno
(pensamento) e externo (transformação). Muito mais que instância psicológica, o
inconsciente é o elo criacional e cósmico do ser humano com o macrocosmos, é o
princípio que dá o fit lux dentro de
nós, repetindo em cada um de nós a criação, e, por isso, criamos algo, também.
Havendo há
(1986-1987)
Plágio
(1986)
É
um barato este plágio
Da
cor da televisão
Ao
fundo a trilha sonora
Este
mundo é todo bom
Não
vou botar
Dinamites
Pro
jantar
Não
precisar
De
abrigo
Pra
voar
Se
tudo aqui
Cheira
a ouro
Do
Templo
Não
é preciso
Alquimia
Para
viver
O
Sol é pleno de tarde
Não
sei donde vem um som
Toca
uma flauta tão doce
Um
piano um violão
Joia
(2016)
(Ad libitum)
É
uma joia (D C)
Que
me faz feliz (D C)
É
a vitória (D C)
É
tudo que eu quis (A D) (F G) bis
(Da
capo)
Vejamos ainda essa fulguração que o
confirma, na folha de rosto de Le Grande Œuvre
Alchimique, de Jollivet Castelot:
A matéria é una.
Ela vive, evolui e se transforma.
Não existem corpos simples.[193]
E uma observação ao pé
de página que coloco aqui na página: se eu escrevi livros como Eu sou o Quinto Beatle, Aquarius, Paz e Amor e Eu sou Hippie
(muito antes de 2018, data na qual o Paulo Coelho publica o seu), é porque me
sinto profunda/mente ligado com o movimento da contracultura, que cresceu e se multiplicou
na nossa sociedade.
Nada a comentar sobre a
pessoa de Paulo Coelho, se ele é real/mente um místico como afirma ser, entre/mentes,
para esclarecer a minha prática e a minha teoria da Alquimia, é melhor
reafirmar o que já escrevi no livro Alquimia
o Arquimagistério Solar; ele é um autor que tem o seu charme e pode
divertir o leitor, mas o seu O Alquimista[194]
está longe, longe.
O mesmo acontece com
suas memórias chamadas Hippie[195]:
acho muito tola a visão que ele tem do movimento, e assim como é total/mente
errado o que ele fala sobre o cristianismo, o sufismo, a toltequidade e a
religião Vaishnava, que ele alega no texto que todos chamam de Hare Krishna,
porque a palavra em sânscrito seria impronunciável para nós; faça você a
experiência, pronuncie: Vaishnava.
Foi ele quem afirmou que
a literatura de James Joyce era incompreensível e atrasada[196].
O simples fato de eu inciar este livro que você está lendo com uma homenagem ao
romance Ulisses[197]
deixa clara a minha posição. (Quando eu conto lá na frente sobre a Livraria
Oculta no centro do Rio de Janeiro, pelo que me lembro, há muito que o li, Paulo
Coelho também camufla uma referência a esse insigne livreiro, na novela Brida, mas o coloca, com outro nome, na
Irlanda.)
O fato de Paulo Coelho e
outros escritores (ou, às vezes, nem sequer escritores) “sem qualidades” serem
não só aceitos, como aclamados, para uma vaga na ABL, não os valoriza; ao
contrário, os diminui assim como humilha ou desqualifica a instituição.
Quanto ao fato de os
Vaishnavas serem popular/mente designados Hare Krishna no Brasil, isso se deve
à importância que a religião dá ao Mahā-mantra (“O Grande Mantra” ou “O Mantra da Grande Felicidade”, nesta citação uso
a transcrição fonética do sânscrito कृष्ण, que se escreve Kṛṣṇa,
com o som de Krishna):
Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa
Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare
Hare Rāma Hare Rāma
Rāma Rāma Hare Hare
É cantado sempre pelos
Vaishnavas no sankīrtana, que é o canto congregacional, e é especial/mente
indicado para trazer a consciência divina e a libertação para as pessoas na
Kali Yuga (कलियुग
= “idade de Cali”, a era de ferro).
O site
da revista fundada por Bhaktiventa, Volta
ao Supremo, explica o significado do Mahā-mantra,
e ali é afirmado, entre outras coisas, que:
/.../ A palavra “Hara”
é a maneira de se dirigir à energia do Senhor, e as palavras “Krishna” e “Rama”
são formas de se dirigir ao próprio Senhor. Ambas as palavras “Krishna” e ”Rama”
significam “o prazer supremo”, e “Hara” é a suprema energia do Senhor, a qual,
conjugada no vocativo, torna-se “Hare”. A Suprema energia de prazer do Senhor
nos ajuda a alcançar o Senhor.
A energia
material, chamada maya,
é também uma das muitas energias do Senhor. E nós, as entidades vivas, também
somos energia, a energia marginal do Senhor. As entidades vivas são descritas
como superiores à energia material. Quando a energia superior entra em contato
com a energia inferior, uma situação incompatível surge, mas, quando a energia
marginal superior entra em contato com a energia superior, Hara, ela se
estabelece em felicidade, sua condição normal.
Estas três
palavras “Hare”, “Krishna” e “Rama” são as
sementes transcendentais do maha-mantra.
O cantar é um chamado espiritual para o Senhor e Sua energia darem proteção à
alma condicionada. Esse cantar é exatamente como o choro genuíno de uma criança
pela presença de sua mãe. A mãe Hara ajuda o devoto a alcançar a graça do pai,
e o Senhor Se revela para o devoto que canta esse mantra sinceramente.
Nenhum outro meio
de perfeição espiritual é tão efetivo nesta era de desavenças e hipocrisia
quanto o cantar do maha-mantra:
Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama,
Rama Rama, Hare Hare.[198]
Desde a infância, Carlos
assistia aos filmes e desenhos fantásticos pela televisão, e se sentia muito
atraído pela “ciência” que aparecia ali, e ficava se imaginando um cientista
como os que ele via nesses filmes, desenhos e gibis, também.
Guardava os vidros que a
mãe iria jogar fora, mas, aos quatro anos, seu “laboratório” ainda não tinha
substâncias nos vidros.
Aos dez anos, já na casa
que seus pais alugavam então, ele fez um “laboratório secreto” num cantinho do
quartinho de empregrada, que também servia de dispensa para tudo que não
estivesse sendo usado naquele momento. Ali ele já tinha algumas peças de laboratório,
como tubos de ensaio, becker e pipeta, e também substâncias químicas, que vieram
num kit de química para crianças que ele ganhou de presente.
Nessa época, começou a
ser vendida nas bancas de jornal a coleção Os
Cientistas (1972), da editora Abril Cultural, que ainda o encantava com as
coleções Mitologia (grega, 3 volumes,
1973) e a científica O Mundo em que
Vivemos[199].
Depois ainda vieram a Enciclopédia dos
Mares e Mundo Submarino (Rio de
Janeiro: Salvat, 1984, duas coleções de 6 volumes cada, que no original em
italiano se chama Pianeta Mare,
Milano, Fabbri, 1980, e se constitui nos doze volumes juntos, sendo que aqueles
que no Brasil se intitularm Enciclopédia
dos Mares trazem cada capítulo escrito por um autor, geral/mente
oceanógrafo, e o Mundo Submarino é
escrito na íntegra por Jacques-Yves Cousteau, que dá o nome geral das duas
coleções, em nosso país); em 1980 ainda veio a série de televisão Cosmos, em 14 episódios, que também foi
transformada em livro[200].
Mesmo lendo sobre
ciência, sua fascinação continuava sendo por uma prática que seria ao mesmo
tempo científica e ao mesmo tempo fantástica, que ele expressava na sua vontade
de ser um “cientista louco”.
Fazia projetos
delirantes, como os esquemas e o protótipo de um foguete e de um disco voador,
tentava sintetizar joias derretendo chumbo e misturando pequenas pedras
coloridas ou missangas ao chumbo derretido. Seu pai lhe ensinou que o chumbo
era fácil de derreter, e ele fazia muito isso, no fogão da cozinha; mas ele
também lhe explicou que os gases que desprendiam do chumbo derretido eram
perigosos, que ele deveria evitar aspirá-los. Foi ainda seu pai, muitos anos
antes, quando ele era menor, que lhe mostrou o mercúrio que saiu de um
termômetro quebrado, e que se movia o tempo todo sem parar – também alertando
que não deveria tocar com os dedos o mercúrio, pois era venenoso.
Pegou um grande frasco
de vidro e ali ele ia colocando todas as substâncias químicas que conseguia
obter, e a cada dia a massa líquida fechada naquele vidro com tampa ia mudando
de cor, ficando furta-cor depois, quando parecia que era feita de múltiplos
pequenos pedacinhos, como lantejoulas, que não paravam de se mover.
“Inventou” uma “pomada
contra queimadura” que impressionava os adultos, porque parecia real/mente
aliviar, e deixava uma película sobre a pele, que podia ser destacada, depois.
Também gostava de fazer
fogueiras, quando iam para o sítio do seu pai, ou na casa do tio do seu pai,
que era num subúrbio, ao lado de um terreno baldio, e seu prazer era fazer a
fogueira e ficar jogando fósforos nela, pra ver o fogo nascer dentro do fogo,
como uma multiplicidade.
Comprei O Tesouro dos Alquimistas, de Jacques
Sadoul, e o Corpus Hermeticum, nessa
época da adolescência, e fiquei lendo, impressionado e impressionante.
Outra leitura
consuetudinária que eu fazia era dos autores de ficção científica, principal/mente
Isaac Asimov, que era também cientista, e colocava coisas parapsicológicas e
outros mistérios nos seus livros, como capacidade mentálica, o poder da
telepatia e de manipular telepatica/mente os outros.
Isso e outras leituras
científicas e de ficção científica me fizeram optar pelo curso de Astronomia,
quando realizei o simulado de vestibular (nessa época as provas do vestibular
eram a maneira de entrar nas universidades, fossem públicas ou particulares);
sendo o único cantidato, obstive aprovação; mas era um simulado.
A prova real eu fiz para
Biologia (tinha projetos fantásticos a realizar nessa área), e consegui a vaga
na UFRJ.
Fiquei durante um ano
(dois períodos) no curso, mas fui gradual/mente me desapontando com os estudos
nos livros acadêmicos e nas aulas práticas de Biologia. Aquilo não era
conhecer, entender, estudar, de verdade, a Vida. Eu queria entrar na árvore,
ser a árvore, sentir o ser da árvore. Aquilo eram listas de informações e
esqueminhas que fingiam que explicavam a sua exuberância, a nossa pertença à
existência.
Um colega me sugeriu
mudar de curso para Filosofia. Não levei seu conselho em consideração à época,
transferi para Letras Português-Russo na Federal, e, no ano seguinte, fiz prova
para Letras Português-Grego na UERJ, começando a cursar a estadual e
abandonando a UFRJ, onde depois fui fazer mestrado e doutorado em Literatura e
pós-doutorado em Estudos Culturais.
Depois que acabei a
graduação em Letras, fiz novo vestibular, desta vez sim pra Filosofia.
Fomos morar na Ilha do
Governador e na nossa casa havia uma escadaria enorme desde o portão até lá em
cima, havia um galpão tipo porão, atulhado de coisas e ferramentas do seu pai, que
transformei no meu laboratório de Alquimia.
Usei produtos vegetais e
animais; e obtive uma explosão, também.
No Instituto de
Filosofia da UERJ, tive dois colegas que me influenciaram muito nessa lida, ao
lado do meu mestre de Filosofia, Cláudio Ulpiano Itagiba, que era genial e agia
como um agente que aglutinava e transformava as pessoas e os pensamentos. Sua
aula era magistral, ele sempre explicava com calma ponto por ponto sobre alguma
teoria, ia construindo aquilo, por um longo tempo. Fazia uma afirmação,
explicava, voltava, explicava de novo, até todo mundo entender. Seguindo a
cartesiana ordem das razões, construía outro pavimento, e assim ia, por duas
horas ou mais (se fosse nos seus cursos particulares, fora da universidade,
quando as aulas não eram limitadas pelo horário da grade). Quando estava tudo
gigante e se relacionando ali, e a gente entendia tudo, ele dava aquilo que
Castaneda chama de “cambalhota do pensamento”, e mudava tudo, mostrando outras
visões, mais fortes ainda, que se diferenciavam daquelas “clássicas” da
Filosofia.
Um colega que foi
importante no meu percurso hermético foi A, que se declarava alquimista, a
sério, e ficava me falando sobre a Arte. Um dia fui à sua casa e vi um pequeno forno
industrial, e um minério pulverizado a mão, dentro de um almofariz. Ele me deu
para xerocar o livro de São Tomás de Aquino[201],
em francês.
Outro colega marcante
foi B, que não fazia nenhum curso, todavia assistia às aulas que queria, nos
vários andares da UERJ, principal/mente as do nosso curso. Ele estava
escrevendo o que seria uma obra alentada sobre ciência, porém, a sua era uma
ciência que era mística, ao mesmo tempo, e trazia insights de uma nova
racionalidade. Consegui uma xerox das cem primeiras páginas que escreveu.
Começei a ler sobre
Nagualismo nas obras de Carlos Castaneda, e caminhar muitos quilômetros por dia
na Ilha, e a praticar a espreita e o ensonho.
Ainda foi a época do
estudo diário dos livros do Bhaktivedanta e da adoção do vegetarianismo
(que praticamos por três anos).
Toda tarde, eu e Eliane líamos
o
Livro de Kṛṣṇa, depois cantávamos o Mahā-mantra.
Em uma época, a cada tarde líamos um capítulo do livro A Tradição Hermética, de Julius Evola.
Nossas longas caminhadas
pela ilha percorriam alguns itinerários que estabelecemos, com marcos
alquímicos, como a “Granum arenarum” e a Rua do Magistério, na qual entramos
pela esquina que tem uma estátua do Manequinho, e caminhamos até a Casa do
Pavão, Domus Pavonis.
Capítulo 5: O Papa ה
Assim,
os elementos entre si se harmonizavam,
como na
harpa, em que as notas modificam a natureza do ritmo,
conservando,
todavia, o mesmo tom;
é o que
se pode representar, olhando os fatos:
enquanto
seres terrestres transformavam-se em aquáticos,
os que
nadam saltavam para a terra;
na
água, o fogo aumentava a sua força
e a
água esquecia seu poder de extinção;
as
chamas, ao contrário, não abrasavam as carnes
dos
frágeis animais que ali perambulavam;
nem
derretiam – cristalino e solúvel –
aquela
espécie de manjar divino!
Senhor,
em tudo engrandeceste e glorificaste o teu povo;
sem
perdê-lo de vista, em todo tempo e lugar o socorreste!
(Sabedoria
19:18-22)[202]
O Imperador reduplica o
Mago no campo da ação prática no mundo físico, o Papa ou Hierofante (Pontifex,
o que faz a ponte entre o mundo espiritual e o mundo material) é a outra versão
do Mago.
A letra hebraica que lhe
corresponde é Hei, que é um chamamento, como quem pede atenção, como quem diz
que está aqui, e também dá atenção. Também é o artigo definido, estabelecendo a
individuação e nova/mente mostrando que há uma voz que se eleva aqui.
Seu hexagrama é 30 Lí Aderir (O Fogo), que é Fogo sobre Fogo.
Outro seu hexagrama é 32 Héng A Duração, que é Trovão sobre
Vento.
A mistura do que
representam o Arcano, a Letra e os Hexagramas falam muito sobre a personalidade
de Leão, que tem o Sol como regente e cujo elemento é o Fogo, que faz com que
muitos leoninos possam ser vaidosos e exibidos, o que é uma sombra atraente
daquilo que a sua força ígnea pode espiritual/mente fazer. O Fogo em leão
mostra a sua face brilhante, encantadora, porém, também cegante,
centralizadora, é aquela luz que atrai as plantas e os animais, que deslumbra,
mas que também ilumina.
Cultivo as duas cabalas neste texto, tanto a Alquímica ᾽Αλχημεία (o Argot), quanto a Cabala קַבָּלָה (Kabbalah) judaica, que vem da palavra tradição, e que, com suas Sephiroth e as letras hebraicas, nos ilumina e ajuda a compreender as fases da Alquimia e o Tarot.
Você sabia que o homem
inventou três linguagens para conseguir expressar as suas vivências do mundo? A
língua, as imagens e os mitos.
Magophon, no seu
comentário ao Murtus Liber, esclarece
que o título não trata de um livro “mudo”, e sim de um livro simbólico: mutus
em latim sendo a linguagem não verbal, porém, perfeita/mente compreensível, se
a pessoa a souber ler.
Da mesma forma, eu falo
que não há povos ágrafos: sendo a escrita um sinal produzido sobre uma
superfície que pode ser compreendido por algum membro da espécie, todo povo usa
imagens, danças, tintas, plumas, gestos, escarificações etc., como escrita dos
pensamentos e dos acontecimentos.
Na minha teoria, a
língua falada surge como uma tentativa infantil e entusiasmada do ser humano de
comunicar o incomunicável, as experiências que vão além das coisas e
acontecimentos “comuns”, isto é, comunizados, tornados iguais pela convivência
do grupo social. Depois surge a escrita, de imagens e de palavras, com a mesma
proposta. É um uso secundário, quando fala, escrita e mito se enquandram de
alguma forma no “comum” daquela sociedade: surgem para dar conta do inefável,
sendo depois adaptados para comunicar o “comunicável”.
No caso dos mitos, a
mais fraca leitura é de que seriam visões infantis de onipotência ainda
presentes em adultos, mas que seriam adultos “infantis”, porque “primitivos”.
Tudo besteira, adulto não é criança, uma criança pode delirar que afeta as
coisas com um gesto, de maneira “mágica”. Um adulto, aqui ou na China, ou afeta
ou não afeta, ele não fica no delírio, se não for um delirante. E o mito é para
todos. Também pensam que os mitos seriam representações de desejos reprimidos,
frustrações etc.; com todo respeito pela Psicologia, que é uma ciência que eu
tanto prezo, mas essas interpretações são imbecis.
Outros veem no mito uma
forma ficcinalizada de recontar e requentar fatos “históricos”, que não são
históricos porque não teria havido outro registro deles, fora o mito. E/ou
ainda, ao mesmo tempo, antropomorfização das forças da natureza. Numa escala de
afastamento da força, essa visão fica menos longe do que a anterior. Nenhuma
delas é “mentira” ou “falácia”, outra grande estratégia de pensamento que nos
vem de Nietzsche (não importa se uma coisa é verdadeiro ou falsa, mas sim se
ela nos torna fortes ou fracos). Mas pensar que o mito é um desejo infantil de
onipotência é a mais fraca versão. Pode acontecer, mas com algum zé ruela. O
mito é muito mais que isso.
Ver no mito uma versão
enfeitada de um acontecimento factual, ou poetizar antropomorfizando forças da
natureza, é menos fraco que a anterior, mas é fraco. Sim: os mitos são
históricos. Mas a história que eles contam foi inventada e vivida pelos homens depois
da invenção do mito, não antes.
O mito é a invenção da
narração, fantástica, para tentar expressar as experiências que são reais e
verdadeiras e fogem total/mente ao conhecimento e à capacidade de expressão
comum. Repito: daí veio o conhecimento das pessoas e fatos da sociedade, a
história, a literatura e as artes que contam história. Do mito vem a História,
as histórias e as estórias. Não minto.
Hermes Grau estuda centenas de centenas de alfarrábios, todavia
se baseia na fase atual nas Lições de Alquimia de Zósimo de Panápolis,
que ele traduziu assim do espanhol e acha importante citar aqui na íntegra:
Lição 1
A composição das águas, o
movimento, crescimento, destruição e restituição da natureza corpórea e a
separação do espírito do corpo e a fixação daquele neste não são devidas a
forças estranhas, mas a uma só que reage sobre si mesma, uma só natureza, e o
mesmo se dá nos corpos duros dos metais e nos sucos úmidos das plantas.
E neste sistema único de várias
cores há uma investigação, múltipla e variada, subordinada à influência da lua
e à medida do tempo que determina a finalidade e o progresso que regem a
transformação da natureza.
Pensando nessas coisas, adormeci e
vi um sacerdote sacrificador, que estava diante de mim, em um altar em forma de
caldeira. Esse altar tinha quinze escadas que subiam até ele. Então, o
sacerdote se ergueu e eu escutei uma voz que vinha de cima e me dizia:
“Realizei a descida dos quinze
degraus da escuridão e a subida daqueles da luz, e é quem me sacrifica que me
renova, jogando fora a aspereza do corpo; e, tendo sido consagrado sacerdote
por necessidade, me converti em um espírito”.
E, havendo ouvido a voz daquele
que estava no altar em forma de caldeira, lhe perguntei, com o desejo de
averiguar quem ele era.
Ele me respondeu com uma voz
débil, dizendo:
“Eu sou Ion, o sacerdote do
santuário, e sobrevivi a uma violência insuportável, pois alguém veio, de
repente, uma manhã, me despedaçando com uma espada e me destroçando em pedaços,
de um modo sistemático. E, esfolando a minha cabeça, com a espada que empunhava
fortemente, misturou meus ossos com minha carne, e me queimou com fogo até que,
pela transformação do corpo, me vi convertido em um espírito”.
E, e enquanto ainda estava me
dirigindo estas palavras, e eu lhe pedi que falasse sobre isso, seus olhos se
tornaram cor de sangue e ele se separou de toda a sua carne. E eu o vi como uma
pequena imagem mutilada de um homem se despedaçando a si mesmo com os dentes e
se desfazendo.
Assustado, acordei e pensei:
“Não é esta a posição das águas?”
Cri que o tinha bem entendido, e
voltei a dormir. E vi o mesmo altar com a forma de um caldeirão, e em sua cozinha
fervia a água e havia muita gente dentro. E não havia ninguém fora do altar a
quem eu pudesse perguntar. Então, subi até o altar, para ver o espetáculo. E vi
um pequeno homem, encanecido pelos anos, que me perguntou:
“O que tu estás olhando?”
Respondi que estava maravilhado
com a fervura das águas e dos homens, abrasando-se, porém, continuando vivos.
E ele me respondeu, dizendo:
“Este é o local do exercício
chamado conservação, pois os homens que desejam alcançar a virtude vêm aqui e
se convertem em espíritos, voando do corpo”.
Eu, eu lhe indaguei:
“És tu um espírito?”
E ele me respondeu, dizendo:
“Um espírito e um guardião de
espíritos”.
E, enquanto dizia essas coisas, e
enquanto aumentava a ebulição e as pessoas gemiam, vi um homem de cobre, que
levava em sua mão um tablete de chumbo e falou alto, olhando para o tablete:
“Ordeno que os que sofrem o
martírio fiquem quietos e que cada um tome nas mãos um tablete de chumbo para
escrever e escreva com suas próprias mãos. Mando-lhes que mantenham os rostos levantados
e as bocas abertas”.
E eles assim o fizeram no ato, e o
homem a quem havia perguntado me falou:
“Tu já viste. Tu levantaste a
cabeça e contemplaste o que aconteceu”.
E eu disse que tinha sido assim, e
pensei por dentro:
“Este homem de cobre que eu vi é o
sacerdote sacrificial, aquele que se desprendeu de sua própria carne. E lhe foi
concedida autoridade sobre essa água e sobre esses homens”.
E tendo tido essa visão, voltei a
despertar e disse para mim mesmo:
“Qual é o significado desta visão?
Não é por acaso a água branca e amarela, fervente e divina?”
E achei que eu tinha entendido
bem. E eu disse que era claro de dizer e escutar, e bom para dar e receber, e
bom para ser pobre e para ser rico. Pois, como a natureza ensina a dar e a
receber?
O homem de cobre dá e a pedra
úmida recebe, o metal dá e as plantas recebem, o céu dá e a terra recebe, os
raios dão o fogo que deles se desprende, porque todas as coisas se entrelaçam e
separam de todo e todas as coisas se misturam e se combinam, se umedecem e
secam, florescem e dão brotos no altar em forma de caldeirão.
Para cada coisa se realiza a união
e a dissociação, pelo método e pela medida e pelo peso dos quatro elementos.
Nada pode se enlaçar sem método. É um método natural, de desenvolvimento
compassado, que conserva o ritmo de suas realizações, aumentando-as ou as
diminuindo ordenadamente. Quando todas as coisas, em uma palavra, alcancem a
harmonia por meio da divisão e da união e, sem que tenham esquecido os métodos
em nenhum momento, então a natureza se transforma, e esta é a maneira de ser e
o vínculo de todo o mundo.
E para que eu não tenha que
escrever muitas coisas mais, meu amigo, constrói um templo de uma única pedra
que seja em aparência como a cerusa[203] ou alabastro[204], como o mármore de Proconeso[205], não tendo nem princípio nem fim
a tua construção. Que haja dentro dele um manancial de água pura e
transparente, brilhando como os raios do sol.
Preste bem atenção em que lado
está a entrada do templo, e, tomando tua espada na mão, chega-te a essa entrada.
O local em que o templo se abre é estreito e há uma serpente diante dele,
guardando-o – ataca-a e mata-a. Tira sua pele, e, pegando sua carne e seus
ossos, separa-os; depois, unindo os membros com os ossos na entrada, faze deles
uma passadeira, sobe em cima dela e entra. Ali tu encontrarás o que buscas.
O sacerdote, o homem de cobre a
quem tu perceberás sentado no manancial e refletindo a sua cor, já não o verás
como um homem de cobre, porque ele mudou a cor da sua natureza e se tornou um
homem de prata.
Se tu quiseres, depois de pouco
tempo, tu o terás como um homem de ouro.
Lição 2
Quis subir outra vez os sete
degraus e considerar os sete sacrifícios, e, ao fazê-lo, só consegui realizar
uma ascensão em dois dias. Voltando sobre os meus passos, subi muitas vezes e
logo, ao voltar, não podia encontrar o caminho, pelo que me senti muito triste,
não sabendo como sair, e aí caí em um profundo sonho.
No meu sonho, vi um homenzinho
vestido com uma túnica vermelha e com galas reais, que se achava fora do lugar
dos sacrifícios, e que me disse:
“O que tu estás fazendo, homem?”
Eu lhe respondi:
“Estou aqui porque me perdi”.
Então o homenzinho me disse:
“Segue-me”.
Fiz assim e quando cheguei perto
do local dos sacrifícios, vi como meu guia se arrojou ali dentro e o fogo
consumiu seu corpo.
Vendo isso, fugi tremendo de medo
e acordei imediatamente, pensando:
“O que eu vi?”
E eu refleti novamente, chegando à
conclusão de que aquele homenzinho era o homem de cobre, vestido com roupagem
real, e então pensei:
“Se eu entendi bem, este é o homem
de cobre, e é necessário se jogar no altar do sacrifício”.
Mais uma vez meu espírito desejou
também subir ao terceiro degrau e novamente segui pelo caminho, e, quando de
novo me encontrei próximo ao lugar do sacrifício, perdi também o caminho,
deixando de avistar a trilha, e vagando, desesperadamente, de uma parte para
outra.
Porém, não demorou para eu me
encontrar com um personagem de cãs tão brancas que cegavam a vista. O nome dele
era Agathodæmon, e ele se virou para mim e ficou me olhando por uma hora
inteira. Eu lhe pedi:
“Mostra-me o caminho reto”.
Ele não me respondeu, porém,
começou a andar com velocidade, para seguir a rota verdadeiro, chegando
rapidamente ao altar. Quando eu subi ao altar, vi que o homem branco foi jogado
no lugar de sacrifício.
Oh deuses imortais! Imediatamente
as chamas o cercaram! Que terrível acontecimento, meu irmão! Devido à terrível
intensidade do fogo, seus olhos se encheram de sangue.
Então lhe perguntei:
“Por que tu estás deitado neste
lugar horrível?”
O homem abriu a boca e disse:
“Eu sou o homem de chumbo, e estou
sofrendo uma violência insuportável.”
Com isso, acordei, cheio de
choque, e pensei sobre o motivo daquele sonho.
Depois de refletir, eu disse a mim
mesmo:
“Entendo claramente que, deste
modo, devemos nos livrar do chumbo, e que a visão se refere à combinação dos
líquidos”.
Lição 3
De novo, eu vi o mesmo altar
sagrado em forma de caldeirão e também vi um sacerdote vestido de branco, que
estava celebrando aqueles amedrontadores mistérios.
“Quem és tu?”, lhe perguntei.
Ele me respondeu:
“Eu sou o sacerdote deste
santuário. É necessário colocar sangue nos corpos, limpar os olhos e
ressuscitar os mortos”.
Com isso, caindo de novo, voltei a
dormir por um momento, e subi ao quarto patamar, e vi, vindo do Oriente, um
homem que carregava uma espada na mão e, atrás dele, vi outro, que trazia um
bonito objeto redondo, de uma brancura resplandecente, e que se chama o
meridiano do sol e quando me aproximei do local do sacrifício, o homem que
portava a espada me falou:
“Corta-lhe a cabeça e destrincha a
sua carne e os seus músculos, peça por peça, para que a sua carne possa ser
fervida, como ensina o método e ele possa depois sofrer o sacrifício.
Nesse momento, acordei e disse
para mim mesmo:
“Compreendo que essas coisas se
referem aos líquidos da arte dos metais”.
E, novamente, aquele que carregava
a espada disse:
“Tu completaste a ascensão dos
sete degraus”.
E o outro, ao mesmo tempo em que o
chumbo se fundia pela ação dos líquidos, disse:
“A Obra está completa”.[206]
O que é Magia? Quase todas as coisas possuem
definições imprecisas, mas, por mais que pensemos que estamos circunscrevendo o
significado de algo, sempre é uma aproximação imperfeita. Pois bem.
Magia é percepção perfeita da essência de algo,
aliada à capacidade de afetar essa essência e ser por ela afetado.
Nesta compreensão, a Magia se aproxima muito mais de
outras práticas místicas, como a Kabbalah e o Hermetismo. Por um lado, há uma
definição ampla de Magia, que inclui todas essas práticas, pela razão mesma que
expliquei. Por outro lado, há linhas de tradições, e o que chamamos de Magia é
a forma ocidental que faz um caminho do Oriente próximo para a Europa, de lidar
com as essências[207].
Tem seus correspondentes
nas práticas já citadas, bem como no Hinduísmo, no Budismo, no Tao, no Zen e
outras tradições orientais, e as várias formas de xamanismo pelo mundo,
inclusive o Nagualismo da América.
Agora chegamos perto da religião. Essas fronteiras
são imprecisas, mesmo, pois a religião, bem como todas as práticas humanas,
procura, de alguma forma, por algum motivo, atingir a essência.
No caso das religiões, como no Judaísmo, o
Cristianismo, o Islamismo, a Vaishnava e o Budismo, entre outras, o que se
busca é a religação do homem com a consciência divina.
A Ciência tenta atingir o entendimento e a operação
eficaz sobre os fenômenos, baseada na razão pura aliada à observação, às
experiências, à prática, às técnicas e aos métodos matemáticos. Com isso,
consegue um nível de atuação, mas fica presa nesse nível, ligado à consciência
racional, à experimentação e ao trabalho com functivos (funções matemáticas)[208].
A Arte é uma outra forma de Magia, no polo oposto da
Ciência, trabalhando com a sensibilidade, a emoção e a corporeidade da pessoa,
de uma forma assinada, individual (assinada no sentido de perceber as coisas
como aquela pessoa o faz, não precisa ser autoral). Também produz percepção da
excência e ação sobre os fenômenos, numa verdadeira complementaridade com a Ciência,
do que uma faz, a outra não chega nem perto. Mas as duas se afastam mais ainda
da Magia pura, pois se atêm às camadas existenciais daquilo sobre o que
trabalham, não conseguem chegar ao cerne da questão, digamos assim, como o faz
o Mago.
Eu tenho fama de Filósofo
Amador...
(Noel Rosa)[209]
T = m > C
(Arnaldo Baptista)[210]
Sobre o verso de Noel Rosa: ele se declara alquimista
na sua fala humorística, pois o filósofo que ama é o alquimista, o amoroso da
ciência hermética, ao mesmo tempo que declara que nem chega a ser sofista, pois
não é “profissional”, não fez “faculdade”, é um filósofo, um pensador amador,
ao mesmo tempo que afirma que é um amante que pensa, um amador filosófico, no
fundo, no mundo, filosofal: alquimista.
A equação do mutante é tão genial e gritante que nem
precisa explicar.
Tudo nesse mundo é como esse livro, duplicado,
complicado .:.:.:.
Porque uma coisa é o que é e ao mesmo tempo é o que é
em outro tempo.
Alguns falam que sobre esses dois lados das coisas na
nossa vivência como duas formas de tempo: Chronos e Áion[211].
Qual a relação entre o
Mago e o Alquimista?
O Filósofo Hermético é
um investi(ga)dor da vida.
Como um efeito cascata,
de suas pesquisas nascem ciências, artes e livros. Nascem laboratórios,
equipamentos, técnicas; mas também nasce a Magia, como a entendemos no ocidente.
Técnicas de manipulação
do real podem ser feitas pelo efeito racional ou pelo efeito da vontade. O
homem comum sabe isso, sem formular explicita/mente, porém, sabe que consegue
afetar a realidade com essas faculdades: quando fazemos uma soma de dinheiro
usamos a razão; quando conseguimos algo pela persistência, ou pela focalização
da atenção, ou pela percepção do momento oportuno (ou por todos esses
combinados), como, por exemplo, um beijo, sabemos que não usamos a razão, mas
uma outra capacidade que possuímos. Essa capacidade produtora e transformadora
no homem é bem a vontade.
Na verdade, quem fixa ou
transforma é a consciência. Mas a vontade é que opera a fixação ou a
transformação, ela é o Súlfur que age sobre a mentalidade/corporeidade humana.
Outra arte
transcendental que estudo é o Nagualismo, a Toltequidade, o saber e o fazer dos
chamados feiticeiros da América pré-colombiana. Os toltecas percebem assim: o
homem traz a consciência, a vontade e o intento.
A consciência tem que
ver com os núcleos da razão e do falar.
A vontade se relaciona
com ver e sonhar.
Esses quatro são
disposições da consciência humana. O homem, quando engajado no pré-formalizado
de seu grupo social e da sua personalidade, age utilizando a razão e a
linguagem, o falar. Quando ele se liberta da exclusividade da formatação social
e pessoal, ele age pelo ver (que é um saber intuitivo e preciso) e o sonhar
(que é agir sob outro estado de consciência que não o comum).
Então, essas palavras
são maleáveis, principal/mente “consciência”, que tanto pode ser o estado comum
da mentalidade, quanto a mentalidade em si. Assim, razão e fala são da
consciência comum. Ver e sonhar, da consciência incomum. Mas todos quatro são
modos da consciência se relacionar e atuar sobre o mundo.
Por outro lado, é um
aparelhamento de três capacidade sucessivas, sendo a próxima sempre mais
abrangente e determinando a anterior: consciência, vontade e intento.
Na linguagem alquímica
temos Sal, Mercúrio e Enxofre, respectiva/mente.
Sobre essa questão,
Antonin Artaud escreve “O teatro alquímico”, que na tradução brasileira tem
cinco páginas, nas quais fala mais sobre sua compreensão transconsciencional do
teatro, ele relaciona esse fato e esse entendimento com a Alquimia, e o faz com
valor; ali temos uma concentrada compreensão da nossa Arte; aqui cito um trecho:
Entre
o princípio do teatro e o da alquimia há uma misteriosa identidade de essência.
É que o teatro, assim como a alquimia, quando considerado em seu princípio e
subterraneamente, está vinculado a um certo número de bases, que são as mesmas
para todas as artes e que visam, no domínio do imaginário, uma eficácia análoga
àquela que, no domínio físico, permite realmente
a produção do ouro. Mas entre o teatro e a alquimia há ainda uma semelhança
maior e que metafisicamente leva muito mais longe. É que tanto a alquimia
quanto o teatro são artes por assim
dizer virtuais e que carregam em si tanto sua finalidade quanto sua realidade.
Enquanto
a alquimia, através de seus símbolos, é como um Duplo espiritual de uma
operação que só tem eficácia no plano da matéria real, também o teatro deve ser
considerado como o Duplo não dessa realidade cotidiana e direta da qual ele aos
poucos se reduziu a ser apenas uma cópia inerte, tão inútil quanto edulcorada,
mas de uma outra realidade perigosa e típica, onde os Princípios, como
golfinhos, assim que mostram a cabeça apressam-se a voltar à escuridão das
águas.[212]
Perceba que ele não fala
de “arquétipos”, muito propria/mente escreve sobre “bases” e “princípios”, que
são pré-conscientes e estão na matéria no estado caótico, com o qual trabalha o
Alquimista no Athanor e um Ator como Artaud.
Sua visão do “teatro e
seu duplo” também é alquímica, pois o duplo, ao lado de ser um tema importante
da Filosofia (como, por exemplo, no livro O
Real e seu Duplo, de Clément Rosset[213]),
da Psicanálise (entre outros, O Duplo,
de Otto Rank[214])
e da Literatura (leia O Duplo, de
Dostoiévski[215]),
desempenha um papel fundamental na Alquimia.
Como eu mesmo escrevo no
livro Alquimia o Arquimagistério Solar:
Como já dizia o sapateiro/Iluminado[216]/Em
cada pedaço de madeira/Pedra/Ou fio de erva/Existem três coisas/Primeiro a
energia que gera o corpo/Depois nesse mesmo corpo/A força/Que constitui o seu
próprio âmago/E em terceiro lugar/Contém em si uma força/Um aroma ou sabor/Que
é o espírito/Dessa coisa/Do qual ela flui ou dimana/Assim ele falou em seu
livro Aurora/Assim falou o nosso
Bombastus[217]:/Na
madeira o que arde é enxofre/O que deita fumo é mercúrio/O que se transforma em
cinzas é o sal/O espírito (o Filho)/A alma (o Pai)/O corpo (a Mãe)/Assim o
mundo foi criado/Como ensinou/Hermes Trisgismestos/O três vezes grande/O que
significa/Você sabe igual a mim/Corpo alma e espírito/Sal enxofre e mercúrio/Ato
potência e sentido/Formas da vontade/Energia atualizada/Energia potencial/E
essência/Que quer dizer/Que tudo é existência/E que também quer dizer/Que há “n”
dimensões/Da manifestação/Mente e ação/O que é divino/Por uma questão/De
entendimento humano/Aqui e agora/Na hora/Que surge/Aurora Consurgens[218]/Quer
dizer/A hora rósea/Na hora áurea/A hora do ouro/Que quer dizer/A hora do outro/Que
nós somos/Isto é/Nós somos ouroboros[219].
Aqui encontramos um
fator fundamental na pista: todas as três fases são importantes, mas, tudo
começa e se realiza com o Enxofre.
Alquimia
é a arte da transmutação. O trabalho do alquimista é produzir mudanças
sucessivas no material em que trabalha, transformando-o de estado grosseiro e
bruto em forma perfeita e purificada. Transformar metais inferiores em ouro é a
expressão mais simples dessa meta, que, no plano físico, envolve operações
químicas com equipamento de laboratório. Contudo, essa é apenas uma dimensão da
alquimia, pois o “material inferior” trabalhado e o “ouro” produzido podem ser
também entendidos como o próprio homem em seu esforço para aperfeiçoar sua
natureza.[220]
Humberto Maturana e
Francisco Varela fazem um original e lindo trabalho sobre o caráter
autopoiético da vida[221],
a vida se gera.
Nesse sentido, o próprio
cosmos no seu caráter macro e micro é o ouroboros, a ontogênese e a cosmogênese
retroalimetam-se.
“In Mercurio est quicquid quae
runt Sapientes”,
tudo o que os Sapientes buscam está no mercúrio, repetem à saciedade os nossos
velhos autores. Não se poderia exprimir melhor sobre a pedra a natureza e a
função deste vaso que tantos artistas conhecem, sem saber o que ele é capaz de
produzir.
(Fulcanelli)[222]
Na infância e na
pré-adolescência eu quis mesmo desempenhar quase todas as profissões humanas
que eu achava muito interessantes: filósofo, artista, político, engenheiro,
médico, astronauta... e ainda outras mais.
Na adolescência se
desenvolveu em mim um projeto mais grandioso: realizar uma forma de
conhecimento que fundisse arte, filosofia, ciência e religião numa só prática
de investigação e produção de saber.
Às vezes mais, às vezes
menos consciente, é essa a grande motivação do meu trabalho de escritor, e,
julgo ser eu o escritor que mais fez essa fusão, até agora, em todos os países,
pelo que eu saiba. Assim é que meu projeto infantil e adolescente se realiza.
Macrocosmos e microcosmos[223]
Essa gravura da obra Opus Medico Chymicum de Johann Daniel Mylius
aparece com estas anotações na edição de Waite do O Museu Hermético; cito aqui o texto original latim com a versão
inglesa do organizador, acompanhada da tradução que faço:
The
Hermetic Museum, Vol. II, by Arthur Edward Waite, [1893]
THE ALL-WISE DOORKEEPER, OR A FOURFOLD
FIGURE, EXHIBITING ANALYTICALLY TO ALL THAT ENTER THIS
MUSEUM THE MOSAICO-HERMETIC SCIENCE OF THINGS ABOVE AND THINGS BELOW
O PORTEIRO SÁBIO, OU UMA FIGURA
QUÁDRUPLA, EXIBINDO ANALITICAMENTE A TODOS QUE ENTRAREM NESTE MUSEU A CIÊNCIA
MOSAICO-HERMÉTICA DAS COISAS ACIMA E DAS COISAS ABAIXO
Figure IV
יהוה = Jehovah = IHWH
ANNUS SOLARIS = The Solar
Year = O Ano Solar
ANNUS STELLATUS = The Year of
the Stars = O Ano Estelar
ANNUS VENTORUM = The Year of
the Winds = O Ano dos Ventos
Mercurius Philosophorum = Mercury of the Sages = Mercúrio dos Sábios
Mercurius Corporeus = Corporeal Mercury = Mercúrio Corpóreo
Mercurius Vulgaris = Common Mercury = Mercúrio Comum
Sulphur Combustibile = Combustible Sulphur = Enxofre Combustível
Sulphur Fixum = Fixed Sulphur = Enxofre Fixo
Sulphur Æthereum = Volatile Sulphur = Enxofre Volátil
Sal
Terrenum =
Earthy Salt = Sal Terreno
Sal
Elementorum =
Elementary Salt = Sal dos Elementos
Sal
Centrale =
Central Salt = Sal Central
Ignes
quatuor ad opus requiruntur = Four kinds of fire are requisite for the work
= Quatro tipos de fogo são necessários para o trabalho
Phœnix = Phoenix =
Fênix
Aquila = Eagle =
Águia[224]
Para traduzir os sonetos
do bardo inglês, duas edições usei, uma do século 20, a Sonnets, The new temple Shakespeare, de 1934, que traz numeração
diferente da standard, de 1609, que
está nas Complete Works, também
utilizada por mim.
Note que o soneto
italiano traz dois quartetos e dois tercetos, o soneto inglês coloca todos os
catorze versos juntos, mas com o recuo dos dois versos finais, a chave de ouro,
a qual, em Shakespeare, sempre é: ou uma conclusão lógica do que foi cantado
nos versos anteriores, ou uma reviravolta, reversão do que se falou antes:
Sonnet
145
Those
lips that Love’s own hand did make
Breathed forth the sound that said ‘I hate’,
To me that languish’d for her sake:
But when she saw my woeful state,
Straight in her heart did mercy come,
Chiding that tongue that ever sweet
Was used in giving gentle doom,
And taught it thus anew to greet:
‘I hate’ she alter’d with an end,
That follow’d it as gentle day
Doth follow night, who like a fiend
From heaven to hell is flown away;
‘I hate’ from hate away she threw,
And saved my life, saying – ‘not you’.
Soneto 145
Os lábios feitos por Amor, os
dela,
Soaram o som que disse assim: “Odeio”,
E eu desfaleci à voz aquela...
Mas imediatamente o perdão veio
Quando ela viu meu infeliz estado,
Censurou sua língua, que, sempre
branda,
Gentil decreto então me fez ser
dado;
E arremedou sua frase nefanda;
“Odeio”, ela alterou com um
complemento,
Que a seguiu, como segue o dia
terno
À noite, que tal qual demo
agourento,
Do céu desprende e retorna ao
inferno;
“Odeio”,
com ódio ela falou, e aí...
Salvou-me
a vida, ao dizer: “não a ti”.
Em favor da história e
da cultura.
Perceptivel/mente, duas
coisas nos distinguem dos animais.
Utilizar aparatos
tecnológicos é uma delas.
Mas, na verdade, essa
distinção é superficial, o agenciamento maquínico (cibernética) ocorre com os
outros animais também (usam instrumentos, constroem). Seria impossível treinar
um macaco a utilizar um computador? Não.
De uma forma mais
genuína, a consciência histórica e cultural nos especifica como seres humanos.
E é isso que, do jeito mais bisonho, está sendo reprimido agora. As pessoas
ficam orgulhosas de ignorar coisas de décadas precedentes, e debocham de quem
saiba informações artísticas, técnicas, sociais e outras, de anos anteriores ao
atual. Como se fossem (ou pior, lutassem para ser) total/mente desmemoriadas.
Peço re-força aos
Toltecas do México na voz da sua expressão mais forte pelos livros, Carlos
Castaneda:
Vou
pronunciar o que é talvez o maior fato de sabedoria que qualquer pessoa possa
exprimir. Vejamos o que você pode fazer com isso: sabe que neste momento você
está cercado pela eternidade? E sabe que pode usar essa eternidade, se o
desejar?[225]
Sim.
A força por trás das
coisas que acontecem chama-se intento e o ser humano pode aprender a controlar
o intento, limpando o seu elo de conexão com o Espírito.
Capítulo 6: Os Enamorados ו
O solo, a água e as florestas são
a base não apenas de nossa economia nacional, mas também de nossa própria
existência e civilização.
(Louis Bromfield)[226]
A sua letra hebraica é
Vav, que liga, pelo significado de gancho, e pela função sintática que
apresenta, quando é sufixo de um substantivo, correspondendo à nossa conjunção:
“e”.
É um Arcano de conexão e
ligação.
Seu hexagrama é 19 Lín,
Indo lá, A Aproximação: Terra sobre Lago.
Seu hexagrama também é 20 Guān,
A Contemplação, Vento sobre Terra.
Seu signo é Virgem,
regido por Mercúrio, e que tem como elemento Terra. Inspirando pessoas
sonhadoras e práticas, ao mesmo tempo, esse signo traz uma visão muito “terra a
terra”, “pé no chão”, analisando e pesando quanto vale cada coisa, e qual o seu
papel para ela. A Terra para Virgo é o porto seguro, é aquele lugar onde
sabemos quem somos e onde estamos, e ao qual pertencemos.
Todo signo traz
características próprias, que podem ser bem utilizadas pelo Mago no seu caminho
de aprendizado e autodesenvolvimento, ou ele ou ela faz dessas características
manias que o diminuem, criando assim a sombra do Mago.
Nas muitas universidades
brasileiras onde trabalhei e estudei havia um grande preconceito em relação à
consulta e citação de informações colhidas na Wikipedia; proposital/mente, eu
as utilizo quando me apraz, com prazer, e nisso estou sendo quase tão arrojado
quanto na proposta de escrever a sério e com proveito livros sobre Alquimia, à
vera.
Vejamos
estes quadros do site[227]
sobre os signos:
|
Signo |
Simbolo |
Número |
Longitude eclíptica (a ≤ λ <b) |
Lustro |
|
Áries |
0 |
0° a
30° |
O
Carneiro |
|
|
Touro |
1 |
30° a
60° |
O Touro |
|
|
Gêmeos |
2 |
60° a
90° |
Os
Gêmeos |
|
|
Câncer |
3 |
90° a
120° |
O
Caranguejo |
|
|
Leão |
4 |
120° a
150° |
O Leão |
|
|
Virgem |
5 |
150° a
180° |
A
Donzela |
|
|
Libra |
6 |
180° a
210° |
A
Balança |
|
|
Escorpião |
7 |
210° a
240° |
O
Escorpião |
|
|
Sagitário |
8 |
240° a
270° |
O
Arqueiro (Centauro) |
|
|
Carpricórnio |
9 |
270° a
300° |
A Cabra |
|
|
Aquário |
10 |
300° a
330° |
O Aguadeiro |
|
|
Peixes |
11 |
330° a
360° |
O Peixe |
E este, sobre a relação entre os signos e os
elementos:
|
Polaridade |
Elemento |
Simbolo |
Palavras-chave |
Signos |
|
Positivo
(Masculino) (auto-expressivo) |
Fogo |
Entusiasmo,
unidade para se expressar, fé |
Áries,
Leão, Sagitário |
|
|
Ar |
Comunicação,
socialização, conceituação |
Gêmeos,
Libra, Aquário |
||
|
Negativo
(Feminino) (independente) |
Terra |
Praticidade,
cautela, mundo material |
Touro,
Virgem, Capricórnio |
|
|
Água |
Emoção,
empatia, sensibilidade |
Câncer,
Escorpião, Peixes |
O zodíaco astronômico
abrange treze constelações, com permanências muito desiguais do Sol na sua casa
(por exemplo, Gêmeos tem 37 dias, Escorpião 7 dias); as datas que abrangem cada
signo são diferentes das astrológicas, sendo que doze constelações correspondem
aos doze signos astrológicos, mas, entre Escorpião e Sagitário está a
constelação de Serpentário, Ophiuchus ou Ofiúco[228].
Agrippa de Nettesheim assim expõe
magistral/mente a teoria alquímica dos elementos:
Existem
quatro elementos e bases originais de todas as coisas corpóreas – fogo, terra, água,
ar – dos quais todos os corpos inferiores são compostos; não por meio de um
acúmulo de todos eles, mas pela transmutação e união. E quando são destruídos,
decompõem-se nos elementos; pois nenhum dos elementos sensíveis é puro, mas
todos são mais ou menos mistos e passíveis de se transformar uns nos outros. A
terra, por exemplo, fica mole, dissolve-se e vira água, para depois endurecer e
espessar, tornando-se terra novamente; se, no entanto, como água, ela evaporar
por ação do calor, passa para o ar, que, sendo alimentado, passa para o fogo.
Este, ao se extinguir, retorna mais uma vez ao ar, mas, esfriando após o
retorno, torna-se terra, ou pedra, ou enxofre, e isso se manifesta pelo
relâmpago.
Platão também tinha essa opinião de que a Terra era
totalmente mutável e que o resto dos elementos são transformados uns nos
outros, sucessivamente. Mas na opinião dos mais sutis filósofos, a Terra não é
mudada, mas abrandada e misturada com outros elementos que não a dissolvem, e
retorna ao que era. Ora, cada um dos elementos tem duas qualidades especiais, a
primeira sendo a de reter a própria identidade; a segunda, como um meio, de
aceitar o que vem depois de si. Pois o fogo é quente e seco, a terra seca e
fria, a água fria e úmida, o ar úmido e quente. E assim, nesse sentido, os
elementos, de acordo com duas qualidades contrárias, são contrários um ao
outro, como fogo e água, terra e ar. Além disso, os elementos são contrários em
outro sentido, pois alguns são pesados, como terra e água, e outros são leves,
como ar e fogo. Os estoicos chamavam os primeiros de passivos e os últimos, de ativos.
Entretanto,
Platão faz mais uma distinção e
atribui a cada um três qualidades – ao fogo: brilho, finura e movimento; à
terra: escuridão, espessura e quietude. E de acordo com essas qualidades, os
elementos fogo e terra são contrários. Mas os outros elementos tomam
emprestadas as qualidades destas, de modo que o ar recebe duas qualidades do
fogo – finura e movimento – e uma da terra, escuridão. Da mesma maneira, a água
recebe duas qualidades da terra – escuridão e espessura – e uma do fogo –
movimento. Mas o fogo é duas vezes mais fino que o ar, três vezes mais móvel que
a água. A água, por sua vez, é duas vezes mais brilhante que a terra, três vezes
mais espessa e quatro vezes mais móvel. Assim como o fogo está para a água e a
água para a terra, novamente a terra está para a água, a água para o ar e o ar
para a terra. E essa é a raiz e a fundação de todos os corpos, naturezas,
virtudes e obras maravilhosas; e aquele que souber essas qualidades dos
elementos e suas misturas terá facilidade para fazer coisas maravilhosas e
surpreendentes, perfeitas na Magia.[230]
Sobre a Terra, ele
escreve:
Ora, a
base, a fundação de todos os elementos, é a terra, pois ela é o objeto, sujeito
e receptáculo de todos os raios e influências celestiais; nela estão contidas
as sementes e as virtudes seminais de todas as coisas; e por isso se diz que
ela é animal, vegetal e mineral. Frutificada pelos outros elementos e pelos
céus, ela gera tudo de si; recebe a abundância de todas as coisas e, sendo a
primeira fonte, é dela que brotam todas as coisas. Ela é o centro, a fundação e
a mãe de todas as coisas. Pegue dela quanto você quiser – separada, lavada,
depurada, sutilizada –, se a deixar exposta ao ar livre por algum tempo, sendo
plena e abundante de virtudes celestes, ela gerará plantas, minhocas e outros
seres vivos, além de pedras e brilhantes fagulhas de metais.
Nela se
encerram grandes segredos, se em algum momento ela for purificada com a ajuda
do fogo e reduzida à sua simplicidade por uma lavagem conveniente. Ela é a
primeira matéria de nossa criação e o remédio mais verdadeiro capaz de nos
restaurar e preservar.[231]
Este livro se propõe a
fazer relações da Alquimia com o Tarot, a Cabala, a Astrologia, a Magia e o I Ching. Também aparecem fulgores das
religiões, e do Yôga. Ainda fica latente uma relação com o Nagualismo dos
Toltecas.
Isso por acaso quer
dizer que estas práticas seriam iguais (e teriam os mesmos objetivos e
finalidades)?
Com certeza, essas
práticas e suas teorias são total/mente diferentes umas das outras, cada uma é
um mundo próprio. Mas podem se relacionar, se fortalecer juntas, pois, dentre
muitas metas que são variadas e não coincidentes, a proposta fundamental de
cada uma dela é a mesma da Grande Obra Alquímica: transmutar o ser humano para
que ele possa experimentar a essência divina do mundo e do seu próprio eu.
Jacques d’Arès assim a
explica:
/.../ “Para você, Jacques d’Arès,
o que é a alquimia?” Respondi-lhe sem hesitar: “Para mim, a alquimia é a
ciência da vida”. E já no dia seguinte Eugène Canseliet, que ouvira a
transmissão, me telefonava dizendo: “Jacques, você deu a melhor definição
possível de alquimia”.[232]
O sexo é um impulso
preponderante para o ser vivo. Unica/mente reprodutivo, nas plantas e nos
animais, porém, no ser humano o sexo se torna esférico, holístico, sempre é
algo mais e atua mais além do mera/mente genital, ou daquilo que, em sendo
genital, representa a reprodução da espécie no indivíduo.
A psicanálise fala em
repressão e sublimação, o ser humano encontra um mundo de regras que se colocam
entre suas pulsões instintivas e a sua realização, não é que seja proibido se
alimentar, ou dormir, ou excretar, mas cada sociedade apresenta regras muito
estritas que devem ser obedecidas, para que o sujeito possa atender a essas necessidades.
No caso do sexo, também. E, ao lado disso, o ser humano desenvolve a
afetividade, muito mais do que os outros animais mamíferos, e essa afetividade
atua em vários níveis e em vários tipos de relação, inclusive, negativa ou
positiva/mente, na sexualidade. E ainda, o ser humano é capaz de estar
consciente do sexo o tempo todo, acordado ou dormindo, como uma excitação que
não tem fim, que sempre aumenta. E há muitas interdições. E, como propõe a
psicanálise, diante da força absurda da pulsão sexual, e dos tremendos filtros
restritivos, constritivos e provocativos, das regras e costumes sociais, o ser
humano usa e abusa da sublimação, quer dizer, toda e qualquer coisa ou
atividade ou hábito pode ser agarrado com a força com que se expressa no ser
humano o sexo: seja arte, trabalho, religião, tudo pode servir de alternativa
ao sexo genital, como meio de fluir e fruição da energia sexual.
A Alquimia é uma Ciência
do Sexo. Todavia, como eu falo na introdução, o Alquimista que é merecedor do
seu aprendizado não é um escravo dos desejos e paixões. A complexa rede de
simbolizações, excitamentos, sublimações e regras sociais do ser humano mostra
o quanto a sua sexualidade é diferente da tão pouco problemática reprodução dos
vegetais e animais. Essa força do sexo no ser humano é uma imagem refletida da
força do sexo enquanto força viva, que permeia o unverso inteiro, a qual,
ainda, é uma imagem refletida da força do sexo espiritual.
Os Vaishnavas nos
explicam que os relatos do Śrīmad
Bhāgavatam e outros textos sobre os passatempos de Kṛṣṇa com as Gopīs não
devem ser compreendidos de maneira vulgar, pois há o sexo espiritual, que é
essa força plástica, geradora, produtora, transmutadora e vital, que gera o
mundo e “move Sol e estrelas”[233].
Lemos em Paul du Breuil
que Zoroastro e seus seguidores entendiam o amor como o fiel da balança do ser
espiritual do homem (entre a ligação com Deus, e o isolacionismo egoico), pois,
para os zoroastristas:
O Amor
tira sua essência do divino e daí realiza as duas versões terrestres: o amor
sublime e o amor demoníaco de natureza egoísta.[234]
Zaratustra é nosso
antecessor, Hermes Trismegistos é o nosso fundador; Nosso Senhor Jesus Cristo é
O maior Alquimista de todos os tempos: é Ele quem nos ensina o fundamento da
Religião Universal:
Ele
respondeu: “Amarás ao Senhor teu Deus de
todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento. Esse é o grande e
primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos
dependem toda a Lei e os Profetas”.[235]
Guilherme de Ockham deu
a base para a ciência contemporânea, lá do Alto da Baixa Idade Média, século
XIV: “Entia non sunt multiplicanda praeter
necessitatem”, que significa que as coisas não precisam ser multiplicadas além
do necessário.
Em ciência, a resposta mais simples e econômica tem uma grande chance de ser a mais acertada. Porém, como “o que está no alto é como o que está embaixo”, e assim também o que está no meio, esse princípio enriquece e auxilia tanto a medianidade das ciências, quanto vai para baixo e acode ao senso comum, e vai para cima e ilumina a Filosofia, a Alquimia e a Teologia.
O homem
neste mundo sempre se vê entre contrários, a luta é constante, e ele, mesmo que
tente se eximir, é obrigado a tomar partido.
Quando
era criança fui com meus parentes a Vacaria, cidade pecuária do Rio Grande do
Sul, onde minha tia, irmã do meu pai, e seu marido tinham uma fazendo e criavam
gado. Foi uma experiência rica, com muitas coisas impressionantes pra recordar.
Uma
dela é o rodeio que eu presenciei. Na época havia uma música composta especial/mente
para a ocasião, que tocava a toda hora, e cujo refrão dizia: “O rodeio em Vacaria
ninguém mais vai esquecer”.
No
começo do rodeio havia a “peleja dos mouros e cristãos”, uma cavalgada
teatralizada com peões vestidos de azul de um lado, representando os cristãos,
e de vermelho de outro, representando os mouros.
Havia a
encenação de lutas e disputas, até que, no final, o líder dos vermelhos se
ajoelhava e aceitava a evangelização.
Na
nossa vida é assim, quer você queira, quer não, as pessoas sempre te exigem a
posição: você é vermelho ou azul?
No
livro de Thoth, essa situação agonística do homem é demonstrada pelo jovem
entre duas mulheres que disputam sua atenção, enquanto nos céus o menino Eros
mira sua flecha de amor sobre ele. Uma pode ser a mãe, outra a namorada, ou
duas rivais.
No
mundo nos vemos sempre entre escolhas, cruzando caminhos e optando por rotas
nas escruzilhadas. Mas, na verdade, toda escolha é sempre a mesma, essencial: o
caminho da coisificação ou o caminho espiritual.
Essa é
a força da Alquimia, e como falei, das Religiões e da Magia, quando entendidas
de uma maneira espiritual, certa/mente. Pois a proposta demoníaca (diabo é uma
palavra grega que significa “o que separa”) se imiscui até mesmo nas práticas
do caminho espiritual.
Dessa
forma, aparecem aqueles que praticam a Magia para se dar bem em cima dos
outros, para se vingar, para conseguir transar com alguém, para manipular as
pessoas e burlar as leis da natureza, da economia e do estado.
Encontramos
pelo mundo homens que se dizem religiosos, mas que também usam as práticas que
eles denominam falsa/mente como religiosas para obter resultados de puro gozo
material, sem se importar com a ética do seu próprio ser.
E com a
Alquimia, que é o fruto da Religião e da Magia, a mesma coisa acontece, desde a
vulgaridade de fazer alguma fala ou texto tolo apelando de forma canhestra para
imagens alquímicas, só para tentar se aproveitar do efeito falso que produz, o
ouro de tolo, até aquelas grandes corporações que caçam livros e Adeptos pelo
mundo para transformar os seus conhecimentos e potências criadoras em algo
invertido.
Quando
eu era criança meu pai tinha alguns livros que pareciam muito bons, e eu ficava
com vontade de lê-los. Alguns eram intrigantes e misteriosos, e ali parecia que
se guardava o segredo, e eu viajava olhando suas capas, querendo os ler.
Um que
perdi nas muitas mudanças de casa que fizemos foi As Águas de Siloé, de Thomas Merton[237], esse ainda não li, mas
me impressionou e continua inspirando muito, junto com a vez em que meus pais
me levaram ao circo, e vi a “dança das águas vivas”, que eram altos jorros de água
que variavam no ritmo da música e mudavam de cor, iluminados por holofotes (por
isso escrevi a peça O Mistério da Casa da
Fonte de Águas Vivas).
Depois
que escrevi isso, eu comprei um exemplar do mesmo ano que aquele que meu pai
tinha, pelo site da Estante Virtual, e estou lendo e gostando muito. Thomas
Merton foi um cebonita, isto é, monge trapista da Abadia de Gethsemani, no
Kentucky, nos EUA, que escreveu mais de setenta livros sobre religião e com
poesias. O livro As Águas de Siloé
conta a história da formação da ordem à qual ele pertencia, bem como relata sua
doutrina e as experiências dos monges, inclusive do autor. O livro não é
direta/mente alquímico, mas é, e é muito legal.
Outro
livro do meu pai que tenho e leio é Eu e
a Terra, de Louis Bromfield.
Esses
dois livros, vê-los e querer tê-los e lê-los, fizeram de mim um Alquimista,
desde o berço.
Louis
Bromfield juntou seu trabalho de escritor e roteirista de cinema com o estudo
da Agricultura, na qual foi um inovador, com sua proposta da “agricultura
sustentável”, que teve e tem muita influência nas “metodologias agriculturais
em torno do mundo”[238], e sua bem-sucedida
fazenda Malabar (sobre a qual escreve nesse livro, e que ele reduplicou numa
Malabar do Brasil, em Itatiba, São Paulo, na década de 50); Eu e a Terra no original se chama From my Experience (1955).
Leiamos
um trecho luminoso de Louis Bromfield:
Uma de nossas lutas constantes em Malabar é contra a
influência avassaladora dos extremados pela matéria orgânica. Já tenho
declarado em outras passagens deste livro, e talvez seja levado a declarar
outras vezes, que em Malabar não somos nem nunca fomos extremados ou fanáticos.
Quando achamos que há necessidade de empregar adubos químicos, principalmente
para produzir densas culturas protetoras e adubo vegetal, utilizamo-los em
grande quantidade e com excelentes resultados. Se constatamos a conveniência do
uso de inseticidas e fungicidas, nós os usamos, embora procuremos sempre nos
valer de compostos orgânicos, tais como a rotenona, a nicotina, o piretro ou a
mistura de Bordeaux, todos eles relativamente inofensivos aos homens e animais.
Em meu livro Out of the Earth
dediquei muitas páginas à disputa aparentemente inócua entre os adeptos dos
fertilizantes químicos, ávidos pelo dinheiro rápido, e os extremados seguidores
do emprego das substâncias orgânicas.[239]
Isto é,
a Alquimia é Agricultura Celeste e igual/mente Agricultura Terrestre, como
mostra Fulcanelli em seu terceiro livro (o que foi enviado pela internet para
Jacques d’Arès, citado há pouco).
Ainda
Louis Bromfield:
Quando, em passagens anteriores deste livro, disse que
vivemos há quatorze anos em “íntimo” contato com a solo e com as plantas em
geral, não estava empregando linguagem figurada, pois nosso contato com a terra
e com as lavouras tem sido realmente bastante cerrado, em Malabar; e em meu
caso pessoal essa “intimidade” é muito mais antiga. /.../
Mas, por trás de tudo isso tem que haver algo mais – algo que
talvez possamos chamar de entusiasmo ou “fogo sagrado” – que transforma essa “intimidade”,
essa volúpia pela observação em qualquer ramo de atividade humana, na coisa
mais importante do mundo. É o mesmo tipo de entusiasmo que liga o criador
realmente digno desse nome a seus porcos ou a seu gado. Sem ele, de pouco vale
toda a educação que se possa obter e que, então, só conduriá a deduções
defeituosas e a erros. É o “fogo sagrado” quem transforma qualquer tarefa ou
meio de vida, de mera questão de um ganha-pão para si ou para a família, de
obter um salário, seguido no fim da vida por uma aposentadoria, num verdadeiro
trabalho de pesquisa e de experimentação, para o qual o tempo e as condições
meteorológicas deixam de existir, e a planta, o porco, a vaca, ou que outra
coisa seja a que o indivíduo passou a dedicar-se, se transformaram não apenas
num objetivo, mas no próprio objetivo.[240]
Outro
livro que meu pai tinha e que mexeu muito com minha imaginação, me fazendo
tentar lê-lo ainda criança, e realizar os exercícios de consciência ali
propostos, curiosa/mente, é O Mágico
Poder da sua Mente, de Walter M. Germain[241].
Também
me envolveu o entusiasmo que ele tinha pelos livros que lia de Erich von
Däniken[242].
Adulto, eu conheci a obra de Zecharia Sitchin[243], que, assim como
Däniken, levanta provas da influência alienígena na humanidade do passado, evidências
arqueológicas e linguísticas contestadas pela ciência oficial, nos dois casos.
Jacques
Carles e Michel Granger trazem essa proposta desvairada para a nossa arte, no
seu livro Alquimia
Superciência Extraterrestre?[244].
Entre vários autores que pensam que houve civilizações mais avançadas há
milênios antes da nossa, temos, por exemplo, James Churchward[245],
que afirma ter descoberto documentos que provam a existência magnífica do
continente Mu; ao passo que, defendendo que a Filosofia veio da Atlântica, entre
muitos outros que vieram depois, temos o depoimento do próprio Platão, no
diálogo Crítias[246].
Confesso que penso
porque o visualizei que a Alquimia como conheço veio do tempo de Hermes
Trismegistos, grande sábio egípcio que viveu no terceiro milênio antes de
Cristo. Mas compreendo também que ele formatou uma ciência mais antiga para a
nossa época, mesmo que seja muito sutil e exija árdua dedicação para aprender,
ele, na sua genialidade, formulou um saber que pode ser compreendido pelo que o
ser humano é nestes tempos. A começar pela sua jogada de fazer, além das
dezenas de tratados filosóficos herméticos que compôs, dois resumos da
Alquimia, duas súmulas, uma com palavras fortíssimas, A Tábua de Esmeralda, e uma sem palavras, o Tarot, para que a sua ciência terapêutica agisse de alguma maneira
sobre o maior número possível de pessoas.
As propostas acima
descritas, de a origem da nossa Arte ser extraterrestre, ou do continente Mu,
ou da Atlântida, atual/mente são ainda mais ridicularizadas pelos cientistas e
homens e mulheres de razão, do que a própria Alquimia o é.
Mas em sã consciência,
como rejeitar essas teses? Aconselho que as considere, Filáion, meu amigo.
Em
2011, Pricknett e Prince publicam em inglês, na cidade de Londres, uma obra
cujo título em português fica: O Universo
Proibido; as origens ocultas da ciência e a busca pela mente de Deus (The Forbidden Universe; the occult
origins of Science and the Search for the Mind of God[247]), que foi traduzida por Alfonso Barguñó Viana e publicada em Barcelona no ano de 2018, com
o nome de El
Universo Prohibido; los orígenes ocultos
de la Ciencia moderna[248]. Essa obra defende que a
ciência ocidental é um resultado camuflado do hermetismo, algo assim como Fanning
Philip propõe no seu livro Isaac Newton e
a Transmutação da Alquimia.
O mesmo
título, Universo Proibido, já tinha
sido usado em uma outra obra, do italiano Leo Talamonti, em 1966, que foi vertida
pra o espanhol e publicada em 1970: Universo
Proibito[249],
e que se desenrola na apresentação de muitos fatos e fotos concernentes aos
fenômenos paranormais e à parapsicologia.
Os
Adeptos não param de aconselhar que sigamos a Natureza, que o caminho natural e
o mais simples é o verdadeiro, como na poesia e na pintura La Complainte de Nature à l’Alchimiste Errant (A Queixa da
Natureza ao Alquimista Errante, 1515)[250], de Jehan Perréal
(1455 ou 60 – 1528), também chamado Jean Peréal, Johannes Parisienus e Jean de
Paris, pintor e arquiteto francês.
A
poesia tem 1822 versos, e ocupa 86 páginas de um manuscrito de 102, precedida de
uma apresentação. Não encontrei vestígio do livro publicado, apenas o
manuscrito original, que referencio em nota adiante. A pintura é mais
conhecida, tendo merecido o interessante estudo “Jean Perréal, poète et
alchimiste”, publicado em Paris, no ano de 1943, por André Vernet[251], coloquei-a na capa do
meu livro O Estudante do Coração[252].
Eis o
que a Encyclopedie Universalis.fr nos conta sobre Perréal:
Artista
extremamente ativo, que se dedicou à pintura, iluminação, decoração,
arquitetura e poesia. Jean Perréal, conhecido como Jean de Paris, estava ao
serviço da cidade de Lyon, onde organizou muitas “entradas” principescas, as
dos reis Carlos VIII, Luís XII e Francisco I, as da rainha Ana da Bretanha
(para as quais ele desenha os padrões escultóricos dos túmulos dos duques da
Bretanha em Nantes, executados pelo escultor Michel Colombe) e especialmente da
arquiduquesa Margarida da Áustria, com quem desempenha o papel de intermediário
para as obras da igreja de Brou. Embora tenhamos mais documentos sobre ele do
que sobre qualquer outro artista seu contemporâneo, só em 1963 Charles Sterling
pôde atribuir-lhe com certeza uma obra, o frontispício em miniatura de La Complainte de Nature à l’alchimiste
errant (1516, Musée
Marmottan Monet, Paris), e realizar a reconstrução
de sua obra por comparação estilística. Anteriormente, haviam sido feitas
tentativas frustradas, com base em sua celebridade, de atribuir-lhe o mais
importante grupo de pinturas anônimas francesas do final do século XV,
agrupadas sob o nome do Mestre de Moulins (hoje identificado como Jean Hey).
Parece, no entanto, que a fama de Perréal se deve mais às suas inúmeras
conexões e atividades do que apenas ao seu talento: suas obras sobreviventes,
especialmente retratos (retratos presumidos de Carlos VIII e Ana da Bretanha,
Biblioteca Nacional da França; miniatura do escritor e poeta Pierre Sala, British Museum, Londres; Retrato de um homem em oração,
Biblioteca Nacional da França; vários desenhos a lápis no museu Condé de
Chantilly), refletem uma visão viva e direta dos modelos e uma concepção
inovadora do retrato em miniatura. Se não é o introdutor do Renascimento na
França, Jean Perréal desempenhou um papel decisivo no desenvolvimento do
retrato que se tornará, com artistas como Jean Clouet, um gênero autônomo.[253]
A
imagem de La Complainte de Nature à
l’Alchimiste Errant é dividida exata/mente
em duas metades, nos sentidos horizontal e vertical, formando uma cruz.
No
vertical, vemos, de um lado, o Alquimista, um homem bem vestido, à frente de um
prédio no qual está seu laboratório, visível, no andar térreo, atrás de um
arco. Ali há um recipiente com carvões e um forno aceso, sobre o qual repousam
sete alambiques de destilação. Sobre uma prateleira ao fundo, podemos ver mais
outros três alambiques de reserva. Esta região da pintura representa o
Alquimista, o Humano, o Microcosmos e o Parergon, a obra no mundo.
Do lado
esquerdo vemos um anjo com os braços cruzados, olhando significativa/mente para
o homem, na aparência de o estar admoestando. O anjo porta uma coroa dourada
com os símbolos dos sete planetas moldados sobre ela, e está sentado sobre uma
estranha planta, cujos galhos se torcem e formam sete espaços, sendo que em
todos podemos ver o céu através deles, e no de baixo, sobre o qual o anjo se
assenta, além do céu, podemos avistar o mar, a terra e os vegetais e um monte
ao fundo, além do mar, que poderia ser a Montanha dos Filósofos, segundo a
página da internet “Jean Perréal,
poète! Jean Perréal, alchimiste?”[254]. A construção humana traz linhas retas, a árvore sobre a qual
está o anjo tem linhas curvas. Os sete espaços entre os galhos se opõem aos
sete aparelhos de destilação em uso pelo Alquimista. Sobre a planta há três
florações, que se contrapõem aos alambiques que estão sobre a prateleira. A
flor central é grande, bonita de dourada. Tudo no lado direito de quem vê a
pintura é feito pela mão do homem, com exceção do próprio homem. Tudo que se vê
do lado esquerdo é feito pela natureza, pela mão de Deus. A região à esquerda
representa Deus, a Natureza, o Macrocosmos e o Ergon.
No mesmo site citado vemos que a árvore traz concomitante/mente as representações de um coração, um ovo, o infinito e a flor de lis[255].
Sobre a
flor de lis:
A flor-de-lis é
um símbolo de poder, soberania, honra e lealdade, e também de pureza de corpo e
alma. É um símbolo que é usado no escotismo, na maçonaria, na alquimia e em
algumas religiões.
A palavra lis é
de origem francesa e significa lírio ou íris. Na heráldica (a ciência dos
brasões), representa uma das quatro figuras mais populares, juntamente com a
águia, o leão e a cruz.
Alguns estudiosos
afirmam que a flor-de-lis se originou da flor de lótus do Egito, outros afirmam
que foi inspirada na alabarda, uma arma de ferro de três pontas usada por
soldados, que era colocada em fossos ou poços para passar para aquele que caiu
neles. Outra possível origem é que se trata de uma cópia do desenho impresso em
antigas moedas assírias e muçulmanas.[256]
Sobre a
flor de lótus: “O loto é um símbolo dos deuses Brahma e Vishnu; é uma planta
sagrada”.[257]
Estes são dois aspectos do Deus único que criou o mundo: Brahma é o aspecto de
Deus que cria o mundo, que faz a criação, enquanto Vishnu é o aspecto de Deus
que preserva o mundo, é o Deus da preservação.
No
sentido vertical, a pintura mostra embaixo a Terra, em cima o Céu.
Do lado
do anjo, vemos a planta ou árvore que tem as suas raízes na terra e que sobe
até o Céu.
Do lado
do homem, vemos o laboratório, a obra alquímica, criticada pelo que está
inscrito em latim no rodapé do laboratório: “Opus Mechanicae”, isto é, A Obra
Mecânica, ou Trabalho da Mecânica, que é o objeto da queixa do anjo: não seja
tão soprador.
Em
cima, correspondendo à região do céu no quadro, do lado direito, vemos o
segundo andar do prédio, com uma janela fechada: a casa barroca (mesmo sendo
Perréal renascentista, vejo esse barroquismo avant la lettre, ao representar o segundo andar do ser humano, no
mundo).
A mão dentro
da bolsa (busca do ouro) e um pedaço do braço esquerdo do homem, assim como um
pé e parte da perna esquerda, estão do lado esquerdo, o lado de Deus e da
Natureza, bem como um pedacinho da sua cabeça está na parte de cima, que
representa o céu. Ele está aprendendo, está se conectando. Uma projeção da raiz
da planta vai até o campo da pintura reservado ao microcosmos: eles se comunicam,
se tocam (o que está no alto e o que está embaixo).
O arco
formado pelos galhos de cima de planta, no qual cresce a flor, traz a
inscrição: “Opus Naturae”, A Obra Natural. Na raiz da árvore, que se divide em
três, está escrito “Mineralis”, Mineral; nos galhos do lado esquerdo, de cima
pra baixo, nove elementos: “indi”, “vidiu”, “terra”, “aer”, “gen”, “ignys”, “aqua”,
“aer”, “terra” (indivíduo – que aparece dividido em três, o que é um paradoxo,
porque a palavra significa “que não se divide” –, terra, ar, gênero, fogo,
água, ar, terra); nos galhos do lado direito, nove elementos: “um”, “aqua”,
“ignys”, “spes”, “aer”, “mixtio”, “terra”, “ignys”, “agua” (um = indivíduo,
terceira parte da palavra latina “individuum”, começada no outro lado, água,
fogo, esperança, ar, mistura, terra, fogo, água); as inscrições também são
douradas.
A
árvore sobre a qual o anjo está sentado tem na sua base um fogo aceso, um forno
natural, que é alquímico, sob o qual está escrito: “Materia Prima”.
Leiamos uma estrofe da
poesia de Perréal apresentada por essa riquíssima figura (versos 991 a 1000):
La plus parfaicte
creature,
Que Dieu crea après les Anges;
Je vous rends honneur & louanges.
Que vous estes mere & maistresse
Gouvernante du macrocosme,
Qui fut crée pour microcosme.
Le premier, le monde se nomme:
Et microcosme en Grec, c’est l’homme.[258]
(A mais perfeita criatura,
Que Deus criou depois dos anjos;
Rendo-vos honra e louvor.
Pois vós sois mãe e amante
Governante do macrocosmo,
Que foi criado para o microcosmo.
O primeiro, o mundo é chamado:
E microcosmo em grego, é o homem.)
E por falar (s)em
segredo, vejamos as correspondências que Friedrich von Licht propõe na obra El Fuego Secreto, excelente trabalho
hermenêutico da obra de Fulcanelli, que traz esta explicação sob o título: “Comentario a El Misterio de las Catedrales y
Las Moradas Filosofales, de Fulcanelli, y su asociación al simbolismo
alquímico del Taoísmo, Budismo y Kundalini Yoga”[259].
|
Apo |
Deuses
do Olimpo |
Planetas
|
Etapas
da Grande
Obra |
Cor da matéria |
Dias da Criação |
Chakra ou loto |
Sephirah cabalística |
Hexagrama do I Ching |
Runa nórdica |
Metal espagírico |
|
Apóllon |
Sol |
Triunfo |
Púrpura |
Domingo |
Sahasrara |
Kether |
|
ᛁ |
Ouro |
|
|
Áres |
Marte |
Firmeza |
Vermelho |
Segunda-feira |
Ajña |
Chokmah Binah |
|
ᛇ |
Ferro |
|
|
Afrodite |
Vênus |
Graça |
Verde |
Terça-feira |
Visuddha |
Chesed Geburah |
|
ᛞ |
Cobre |
|
|
Ártemis |
Lua |
Inteireza |
Branco |
Quarta-feira |
Anahata |
Tiphareth |
|
ᛡ |
Prata |
|
|
Zeús |
Júpiter |
União |
Cinza |
Quinta-feira |
Manipura |
Netzach Hod |
|
ᛏ |
Estanho |
|
|
Krónos |
Saturno |
Caos |
Negro |
Sexta-feira |
Svadhisthana |
Yesod |
|
ᚾ |
Chumbo |
|
|
Hermes |
Mercúrio |
Fundamento |
? |
Sábado |
Muladhara |
Malkuth |
|
ᛜ |
Mercúrio |
Por
outro lado, as relações que estabeleço entre as fases da obra, a mitologia e o
Tarot ao longo deste livro não são as mais encontradas, como, por exemplo, aquelas
propostas por Arthur Edward Waite (podemos ver o baralho que ele propõe, desenhado
por Pamela Colman Smith, em The
Pictorial Key to the Tarot. London: Rider
& Son, 1910).
Waite
quer mudar a posição da carta da Força pela da Justiça, pensa-se que pela associação
dos arcanos com os signos astrológicos Leão e Libra, para manter a mesma
sequência do zodíaco nas cartas. Essa argumentação é boa, e é desenvolvida e
ampliada por Crowley, mas não a adoto, penso que a simbologia do Tarot segue
uma ordem que corresponde às etapas da Alquimia, o que também é bastante
controverso, pois pratica/mente cada escritor apresenta a sua versão das Fases
da Obra.
Minhas predileções (e
meu fazer poético) constituem o melhor do meu Parergon, então, não são a
Alquimia, mas são. Meu desprezo por Gullar, mesmo ele tendo talento pra versar,
é que ele é o inverso: afirma dolorosa/mente o não ao seu próprio ser, e tende
a tentar fazer com que todas as pessoas façam o mesmo, ato vil. Tudo pra ele
são bananas, parou e congelou a fase negra da obra. Sim, fala da obra, como
quem fala de fora, é o primeiro tipo de homem passivo, passional ou apaixonado:
aquele que se põe sempre como objeto do mundo, e que grita sem parar não a
tudo.
Meu amor gigantesco pela
poesia de Sousândrade, Manuel Bandeira e Oswald de Andrade mostra a minha
filiação. Trata-se da poesia aiônica, como escrevi nos Encontros das
Esquinas das Palavras. Uma nota coloca no corpo daquele texto: não vejo nos
críticos e acadêmicos brasileiros a construção de uma leitura com ferramentas e
inteligência potente para explicar, compreender ou fruir da melhor poesia feita
aqui, como as dos meus poetas mestres Andrade, Bandeira e Sousândrade.
Veja, por exemplo, a tola
e alucinatória teoria de que Oswald de Andrade (Oswáld, oxítono) faria poesia
piada. Poemas piada; quais? Releia sua obra poética. Seus poemas são koans zen,
são aforismas do tao, é a descoberta da poesia nas coisas que nunca vi (“3 de
maio”), sendo essas todas as coisas, olhadas sempre pela primeira vez, com
olhos aiônicos, de poeta químico, Alquimista:
Aprendi com meu
filho de dez anos
Que a poesia é a
descoberta
Das coisas que eu
nunca vi[260]
Bandeira e Oswald fazem
poemas pequenos, simples, singelos, comuns, com coisas insignificantes, coisas
pequenas do cotidiano. Mas constroem estrelas em suas estruturas supercomplexas
de muitos sentimentos e pensamentos encadeados em várias dimensões, mil folhas
do tempo e do espaço, olha de fora e de dentro, ao mesmo tempo, obra mil folhas
do tempo e do espaço, do eu.
ABS são os grandes
alquimistas da poesia brasileira, junto comigo, que escrevo poesia e teoria
(Parergon) como parte integrante da obra (Ergon), em todos os sentidos, para
construir no Brasil uma leitura potente, tanto da Estética quanto da Hermética.
Sobre eles e o que mais
amo na poesia escrevi a teoria da poética do tempo aiônico durante meu
pós-doutorado em Estudos Culturais na UFRJ, que concluí em 2015, e cujo livro Encontros nas Esquinas das Palavras
publiquei em 2021.
Desde 2015 venho
trabalhando neste livro aqui, Ergon e
Parergon.
São oito anos de
aquisição de obras (livrarias presenciais e online, e originais que consigo
encontrar pela internet), montagem deste texto em mim e sua redação. Mas, na
verdade, como se pode perceber quando cito influências desde a minha infância,
eu escrevo este livro desde que comecei a ler e escrever. E este é o volume um,
que aduz a teoria: Filosofia Hermética; estão programadas as redações dos
volumes dois: Alquimia, e três: Química, que darão conta da prática.
Aquele meu colega A, do
curso de Filosofia, tinha me falado, nos anos oitenta, sobre uma livraria muito
especial, meio secreta, à qual as pessoas apenas iam quando indicadas, que não
fazia publicidade, se escondia na sobreloja de um prédio na praça com o nome de
um grande poeta brasileiro, em frente ao Mercado das Flores do Rio de Janeiro,
e vendia muita coisa mesmo, muitos livros e outros produtos, sobre Alquimia,
Religiões, Esoterismo e Magia.
Um dia fomos eu e Lira
nesse local.
Quem nos atendeu foi um
senhor idoso, muito misterioso e que guardava silêncio; recebeu o pagamento
pelo livro que compramos, mas nada nos falou.
Ficamos frequentando a Livraria
Le Demande, até que um dia o senhor que nos atendeu foi o próprio dono do
estabelecimento, o Senhor Louis Le Demande, isso estava patente pra nós, mas
não sei como a gente percebeu isso.
Pedi livros de Alquimia.
Ele me falou que para poder estudar esta ciência é preciso ler em outras
línguas, e nos mostrou uns tesouros alquímicos em forma de livros, importados.
Foi nesse dia que adquirimos A
Philosophical Key, de Robert Fludd[261].
Ele ficou conversando
conosco. Neste dia só estávamos nós Eu e Lira e o senhor Le Demande na loja, e
ele falou longa/mente, nos deu uma verdadeira aula aula sobre Alquimia.
Quanto
às fases da Alquimia, nos abeberamos em dois autores lusos e uma neerlandesa.
Anselmo Caetano Munho’s de Avreu Gusmão Castello
Branco publicou seu Ennœa ou Aplicação do
Entendimento sobre A Pedra Filosofal em dois volumes, nos anos de 1732 e
1733, ele, médico e Alquimista (hasta en su nombre, hombre) que o tinha escrito
todo em 1730. Deve ter ficado desgostoso que sua custosa e rica publicação
viesse com um erro tipográfico nas maiores letras do título, que podemos ver no
fac-simile da edição que cito, no qual aparece Ennæa (quando a palavra grega em
carateceres latinos se diz e escreve Ennœa). Ele pensa que são quatro as fases,
acrescentando a cor amarela (tão significativa em sua simbologia, e, que,
alguns, consideram como fase laranja); assim Enodato fala a Enodio, nos
diálogos da obra:
Os meyos operativos, que tambem se
chamão chaves da Obra grande, são
quatro. O primeiro he dissolução, ou
liquefacção: o segundo lavação: o
terceiro reducão: e o quatro fixação. /.../[262]
O
contemporâneo Vitor Manuel Adrião entende que são doze, que, na verdade, se
reduzem a três subdivididas em quatro etapas, cada:
Nigredo,
“Obra Negra”:
Calcinação
Solução
Separação
Putrefação
Albedo,
“Obra Branca”:
Conjunção
Coagulação
Cibação
Sublimação
Rubedo,
“Obra Vermelha”:
Fermentação
Exaltação
Multiplicação
Projeção[263]
A investigadora
holandesa Mellie Uyldert pensa assim as possibilidades das fases: 1 –
calcinação, 2 – sublimação, 3 – solução, 4 – putrefação, 5 – destilação, 6 –
coagulação, 7 – tintura; ou: 1 – solução, 2 – putrefação, 3 – destilação. 4 –
sublimação, 5 – coagulação, 6 – fixação, 7 – lapidação; aos quais correspondem
na mesma ordem os planetas: 1 – Mercúrio, 2 – Saturno, 3 – Júpiter, 4 – Lua, 5
– Marte, 6 – Vênus, 7 – Sol[264].
Coloque o teu crisol sob a luz polarizada
Ó meu filho
Lava as escórias com a água tri-destilada
Pois aquele que forja a falsa prata
E o falso ouro
Não merece a simpatia de ninguém
Pois aquele que é vil
Está ávido a ser malévolo
Não merece a simpatia de ninguém
Domine a imagem use força inferior superior
Use o conhecimento com perseverança e consciência
Pratique e transmute à vontade
Com lealdade
E sinceridade
Seja atento e assíduo porque
A qualquer hora a qualquer momento
Pode estar nascendo o amor
(Jorge Ben)[265]
Assim
canta Jorge Ben(jor), citando a sério e de forma profícua uma ironia (injusta,
o que é incomum nesses autores tão importantes) de Louis Pawels e Jacques
Bergier:
A
alquimia, segundo a nossa opinião, poderia ser um dos mais importantes resíduos
de uma ciência, de uma técnica e de uma filosofia pertencentes a uma
civilização desaparecida. Aquilo que descobrimos na alquimia, à luz do saber
contemporâneo, não é de molde a fazer-nos acreditar que uma técnica tão sutil,
complicada e precisa possa ter sido o resultado de uma “revelação divina” caída
do céu. Não quer dizer que desprezemos toda a ideia de revelação. Mas, ao
estudarmos os santos e os grandes místicos, jamais podemos chegar à conclusão
de que Deus fala aos homens em linguagem técnica: “Coloca o teu crisol sob a
luz polarizada, ó meu Filho! Lava as escórias com água tridestilada!”[266]
Como todo alquimista de
respeito, Jorge Benjor se mostra total/mente fiel a Deus e à Ética Alquímica,
revelando e velando com desvelo o tempo todo os fios do seu tosão, e, ao mesmo
tempo, numa simples convexão do tempo, instaura o seu Templo, isso é, faz a sua
própria Arte. Cada alquimista que vale cria o seu ensinamento, a aprendizagem é
pessoal e instransferível, assim como cada ser no Universo é único, e,
concomitante/mente, é um filho, isto é, um fio de Deus.
Jorge Benjor ao longo de
sua carreira musical fez um caminho autoral, próprio e vivencial do aprendizado
hermético, a sério, não se podendo dar crédito a leituras imbecis que querem
ver ali apenas modismo ou alguma outra bobagem. A crítica é sempre, antes de
tudo, a crítica do crítico.
A luz polarizada sob a
qual se recomenda que seja colocado o crisol onde a matéria prima é trabalhada
é a luz da Lua.
O milagre da
multiplicação dos pães e dos peixes ou dos cinco pães e dois peixes, realizado
por Nosso Senhor Jesus Cristo, é um dos poucos registros que se repete igual
nos evangelhos sinóticos e no diferente João evangelista, e está nos capítulos
e versículos: Mateus 14:13-21,
Marcos 6:31-44, Lucas 9:10-17 e João 6:5-15.
Aqui eu cito a versão do
evangelho segundo São João, traduzido pelo maravilhoso tradutor e escritor João
Ferreira Annes d’Almeida, século XVII, o primeiro a verter a Bíblia para a
língua portuguesa, e, ainda, com o texto rico e forte original, pois as edições
usadas atual/mente, “revistas e atualizadas”, têm muitas palavras do original
modificadas, diferem do texto do nosso autor luso como a água do vinho, não lhe
chegam aos pés. Este exemplar da Bíblia não tem data de edição, deve ser da
década de 30 ou 40, pois minha mãe, que nasceu em 1933, e deu aulas na Igreja
Protestante de sua cidade natal São Gabriel, no Rio Grande do Sul, quando tinha
cerca de 18 anos, a recebeu do pastor protestante que dirigia a escola da
igreja onde ela dava aula como voluntária, provavel/mente em 1951
(preservo a ortografia do original que
possuo):
5 Então Jesus, levantando os olhos e vendo que uma grande multidão vinha
ter com elle, disse a Philippe: D’onde compraremos pão para estes comerem?
6 Mas dizia isto para o experimentar; porque elle bem sabia o que havia de
fazer.
7 Philippe respondeu-lhe: Duzentos dinheiros de pão não lhes bastarão,
para que cada um d’elles tome um pouco.
8 E um dos seus discipulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe:
9 Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos: mas
que é isto para tantos?
10 E disse Jesus: Fazei assentar os homens. E havia muita herva n’aquele
logar. Assentaram-se pois os homens em numero de quasi cinco mil.
11 E Jesus tomou os pães e, havendo dado graças, repartiu-os pelos
discipulos, e os discipulos entre os que estavam assentados: e egualmente
tambem dos peixes, quanto queriam.
12 E, quando já estavam saciados, disse a seus discipulos: Recolhei os
pedaços que sobejaram, para que nada se perca.
13 Recolheram-nos pois, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de
cevada, que sobejaram aos que haviam comido.
14 Vendo pois aquelles homens o signal que Jesus tinha feito, diziam: Este
é verdadeiramente o propheta que devia vir ao mundo.
15 Sabendo pois Jesus que haviam de vir arrebatal-o, para o fazerem rei,
tornou a retirar-se, elle só, para o monte.[267]
Pensemos sobre o Primeiro estágio da Grande Obra[268]. Há muitas inscrições em
latim nesta imagem, que é uma exposição do trabalho alquímico em suas sete
fases, colocadas contemporanea/mente na mesma imagem.
Sobre a mesa podemos ver
muitos instrumentos musicais e uma balança, confirmando que a Alquimia é a Arte
do Som e da Harmonia, a Ciência das Quantidades e Equilíbrios e a Filosofia da
Qualidade.
Na aparelhagem de
destilação, ao lado da grande mesa, está escrito “Maturandum”, “Aquilo que está
sendo amadurecido”, e “Festina Lente” = σπεῦδε βραδέως = apressa-te lenta/mente, que foi o
lema do imperador romano Augusto, e é o dos alquimistas[269].
O alquimista da figura tem
uma mansão gigantesca, e num salão enorme instalou o seu laboratório. Ali há
lugar para leitura e estudo, prática laboratorial com artefatos e substâncias,
vários instrumentos musicais e um oratório, com livros abertos e inscrições
latinas e acima o Tetragrammaton, as quatro letras hebraicas do nome de Deus.
Amphitheatrum Sapientiae Aeternae (1595) de Heinrich Khunrath merece um estudo detalhado, imagem a imagem,
detalhe a detalhe de cada imagem, palavra a palavra de cada frase de cada
texto. Esse livro é a Matéria, o Laboratório, a Obra, a Filosofia e a Alquimia.
Comento de maneira completa/mente incompleta essa imagem, o alquimista
sendo visto antes de tudo e mais que tudo diante do nome de Deus e do oratório,
tendo ao seu dispor o fogo, o forno, as matérias, os utensílios, os livros e as
notas musicais, ao seu lado.
Há o alerta também, numa inscrição em latim sobre a cena, de que se deve
dormir acordado, isso é, ao fazer as coisas humanas (como quem dorme), estar
desperto para o que real/mente importa para nós.
No entanto; quem pode ter uma mansão desse tamanho e com esse luxo todo?
Seria a nossa Arte apanágio dos milionários? Se você pensa os ricos de espírito,
sim.
Esse laboratório você deve construir em você.
O Soneto 33 de William
Shakespeare fala da Alquimia, na verdade, ele é integral/mente Alquímico (isso
é, Alquímica Mente), sua chave de ouro traz o princípio hermético “o que está
no alto é como que está embaixo”, e, principal/mente, fala que esse amor não se
esgota; antes, havia mostrado a Alquimia do céu fazendo a natureza inteira
parecer mais linda que o ouro.
Sonnet 33[270]
Full many a glorious morning have I seen
Flatter the mountain tops with
sovereign eye,
Kissing with golden face the meadows
green,
Gilding pale streams with heavenly
alchemy;
Anon permit the basest clouds to
ride
With ugly rack on his celestial
face,
And from the forlorn world his
visage hide,
Stealing unseen to west with this
disgrace:
Even so my sun one early morn did
shine,
With all triumphant splendour on my
brow;
But out, alack, he was but one hour
mine,
The region cloud hath mask’d him
from me now.
Yet him for this my love no whit disdaineth;
Suns of the world may stain when heaven’s sun staineth.
Soneto 33
Muitas manhãs gloriosas eu já vi
Cobrindo os montes com soberbo
olhar,
Áurea face a beijar verde capim,
Alquimia divina a transmutar
N’ouro rios sem cor; sem permitir
No firmamento nuvem baixo astral,
Nem deserdando o mundo a se
esvair,
Rosto que vai pro rastro
ocidental:
De um modo igual meu sol brilhou
pra mim,
Triunfo esplendoroso em minha
testa;
Porém, uma hora só, depois eu vi,
A nuvem que o escondeu, muito
depressa.
Mas nem por isso o amor que sinto
encerra;
Se foge o sol do céu, fá-lo os da
terra.
Vamos justa/mente citar
dois autores da maior importância do hermetismo brasileiro, mesmo que seja
citação, porque eles merecem ser estudados em grandes tratados exclusivos.
Um é Luiz Goulart e seu
livro Átomo Vital:
Digamos,
sem receio, que o Eu Vital conserva a sua energia, recebida diretamente do Átomo Vital, independente da ação que
exerce no centro motor cerebral. As possibilidades fracas ou fortes de
enervação, não modificam o QV (Quoeficiente Vital de Energia), que permanece o
mesmo, conforme afirmamos, apesar de suas permanentes emanações. /.../[271]
Trigueirinho é também
investigador das questões herméticas, como podemos aferir e auferir (obter o
áureo resultado) em seu texto:
Desde a Antiguidade houve, em
vossa Terra, seres evoluídos que mantinham secretas as chaves da transmutação e
da sublimação. Provinham de outras órbitas planetárias e desciam aos níveis
materiais para cumprir tarefas específicas dentro de um plano determinado. Eram
seres libertos dos aços compulsórios com a matéria, e muitos deles tornaram-se
conhecidos e fizeram parte da vossa História. Entretanto, o que podeis saber
sobre eles por meio de relatos não passa de uma pálida sombra do que realmente
eram e do que realmente fizeram.
O trabalho com energias, e
portanto o trabalho de transmutação, é oculto. Mesmo quando revelado à
consciência material, esta não pode, ainda, abarcar todas as chaves dessa
ciência. Sacerdotes e doutores do antigo Egito e de outros povos, bem como
santos e místicos, a conheceram, pois sem a transmutação não teriam chegado aos
elevados níveis que atingiram.[272]
Existem três fatores
irredutíveis um ao outro: o ser vivo, o espaço e o tempo.
O ser vivo sempre
experimenta as mudanças que acontecem na matéria (de estado, de deslocamento,
qualitativas, quantitativas e substanciais) e as extensões que a matéria lhe
apresenta (formas em todos os sentidos, visual, auditivo, de paladar, de tato,
de olfato, de penetrabilidade, de reacionaridade etc.).
O ser nasce e cresce
presenciando, sentindo e se relacionando com as transformações do tempo
(Mercúrio) e as formas da matéria (Enxofre). Mercúrio é a capacidade que o real
tem de fazer transformação, o tempo todo. Enxofre é a capacidade que o real tem
de apresentar formas nítidas, que se mantêm.
Veja bem, caro Filáion:
falo que Mercúrio é um fator independente, uno, igual a si mesmo, não sendo o
tempo, mas, tendo na representação do tempo, uma das suas manifestações; o
simples tempo é claro que é um caldo mesclado de Mercúrio e Enxofre. O qual,
Sulfur, é um fator independente também, duo, sempre igual a si mesmo, não sendo
em si o espaço, mas tendo, este, em si, as características trançadas em rama de
Mercúrio e Enxofre. Como podemos ver no Caduceu, a vara de Hermes, que traz
duas cobras entrelaçadas em espirais ascendentes a uma vara.
O ser se coloca diante
do Enxofre e do Mercúrio de três maneiras, que correspondem aos três gêneros de
conhecimento de Espinosa. Se o ser se coloca como passivo receptor das transformações
e das formas recusando-as, negando-as, ele afirma o não total, e se envenena,
se nega a si mesmo. Se o ser se coloca como passivo receptor das formas e
transformações afirmando-as, ele afirma o real, e se fortalece. Essas duas
posições não são herméticas, é o homem comum, feliz ou infeliz, conforme sua
atitude mais íntima de afirmar ou negar. Essa é a posição passiva, que
corresponde em Espinosa ao homem das paixões tristes (que enfraquecem o
sujeito) e o homem das paixões alegres (que fortalecem o sujeito). O ser para
afirmar precisa acreditar.
Mas é possível ao ser
receber as formas e transformações do mundo e ser ativo em relação a elas,
ativo mesmo, isto é, transmutando as formas e as transformações. O ser humano
pode fazer isso com qualquer atividade e coisa com que ele esteja lidando.
Conseguir dominar a
fixação sulfúrea e a volatilidade mercurial, para realizar suas obras comuns
(Parergon), é o trabalho do Hermetista. É Parergon porque se pode fazer isso
com qualquer atividade, plantar, caçar, cozinhar, construir, fabricar, vender,
comprar, atender, ensinar, ler, escrever, fazer arte etc.
O Ergon é o trabalho
alquímico. Mas o Parergon é o trabalho que possibilita e conduz ao Ergon.
Capítulo 7: O Carro do
Triunfo ז
–
De certa maneira – explicou –, a química pode ser vista como um casamento entre
a ciência e a arte, uma poesia da Terra, um caleidoscópio sensorial de cheiros,
gostos, cores e texturas. Muitos artistas se interessavam pela química:
pintores, escultores e sobretudo músicos. Sir Edward Elgar, por exemplo, se aventurava
no assunto, e Aleksandr Borodin era
químico. Costumava rabiscar notas musicais pelas paredes do laboratório,
distraidamente, enquanto conduzia seus experimentos. E também havia os químicos-poetas, como
Humphry Davy, que descobriu o sódio e o potássio. Os cadernos dele estavam
recheados de experimentos químicos misturados a versos recém-compostos para um
poema qualquer. Ele e Coleridge chegaram a planejar a aquisição de um
laboratório em conjunto! E também tem o Primo Levi, claro, que via a química
como a arte de sopesar e separar, tal qual a literatura.
(Jeffrey Moore)[273]
O Carro do Triunfo
corresponde à letra do alfabeto hebraico Zaiin, que dá a ideia de luta, espada
e proteção do que merece ser projegido.
Corresponde ao hexagrama
35 Jìn O Progresso: Fogo sobre Terra.
Mas, na sua dupla face
de vitória, porém guerra contra os outros, também se lhe pode atribuir o
hexagrama 7 Shī O Exército: Terra sobre
Água.
Aqui o signo zodiacal é
Libra, que é regido por Vênus e tem o Ar como elemento.
Esse Ar de Libra é
aquele que te revitaliza e acalma, quando você respira fundo e sente uma força
que vem do Cosmos pra você, na sua respiração. É o ar do campo, que rejuvesce e
alimenta. O ar claro, que nos permite enxergar clara/mente a quilômetros de
distância.
O libriano é exigente,
sendo sua maior exigência consigo mesmo, que haja justiça, dele para com os
outros e consigo mesmo, e reciproca/mente, no mundo. Ama a beleza e a harmonia,
é alguém que prefere a calma e a ponderação, sendo por isso um lutador que se
vê no meio dos conflitos, um pacifista que se arvora a lutar pelos seus ideais.
O pedagogo de si[274]
E essa que é uma espécie
de messe da proprya vivência bem arquitetada uma grande epopeia ou poema lírico
ou ainda sinfonia que sintoniza suas partes alma corpo coração mente sexo e
pulmão e tudo mais que lhe praza e lhe faz ser uma brasa, mora, e lhe enche a
casa de amor e paz.
Pensava nessas coisas
quando cheguei em casa. Em todas elas mesmo, nos artigos que estava escrevendo
sobre as eleições, sobre educação e sobre empreendedorismo. Sou um tudógrafo,
esse o meu trabalho, pelo qual ganho grana que chegue para engalanar esses
momentos inócuos de matéria estelar e de sonho que comprimo entre meu dormir e
acordar, ou vice-versa. Quem sabe o que é o quê? Shakes falou que somos feitos
e o mundo é feito da matéria dos sonhos (A Tempestade). Eu tenho a
helênica impressão imprecisa mas ao mesmo tempo preciosa (eu não sei por quê)
de que somos os sonhos e o que chamamos de somos são os sonhos que sonhamos.
Essa coincidência
absoluta de tudo com tudo é que motivou a escrever essa liteira ligeira mais o
fato incontestável de que eu estava assistindo a uma das jornadas nas estrelas
star trek e o cara falou já: “ajustar para tonteio”, se referindo aos fasers que eles traziam, que são as
armas deles, e eu quando vi e ouvi isso pensei na hora: tenho que escrever um
livro com esse plurissignificativo e alimentício rótulo: por isso vossa
senhoria o traz agora, entre as mãos, diante dos olhos e do coração, e da
mente, se tanto.
Umas coisas eu posso
explicar pra alegar em nossa defesa minha o omnólogo e vossa leitora e leitor:
sou um omnógrafo, tudo absoluta/mente tudo que eu conto aqui é a mais pura
verdade, nada é ficção, e, se assim o parece, é devido a uma inconcebível e
insuportável coincidência.
Estamos aqui fazendo os
novos namoros com a medicina:
De modo que o ritmo musical é de
todos os ritmos artísticos o de maior poder fisiológico, por se apresentar mais
puramente. E por isso muitos autores colocam como causa primeira do
aparecimento da música, não o som que lhe é exclusivo, mas o ritmo.[276]
Este livro é uma obra de
Filosofia da medicina.
A questão da saúde é
ecológica e está total/mente ligada ao meio natural e social em que vivemos[277].
Mais do que nunca,
precisamos nos conscientizar, não da boca pra fora, só como efeito
midiático, mas sim de uma forma holística, nas nossas práticas e nos nossos
discursos, transcender uma imagem mecanicista e divisionista do ser do homem, e
compreender que a natureza somos nós, não há sujeito e objeto quando se trata
do todo ecológico, somos a saúde natural que conseguirmos desenvolver no
planeta, ou o oposto; as riquezas que preservamos são aspectos do nosso ser, e
cada planta ou animal que permitimos que se extinga por incúria ou ganância, é
uma parte do nosso próprio ser que desdenhamos, e “desdesenhamos”.
A flecha do tempo quem
disparou e ela tem início e acerta um alvo?
A par de ser a grande
questão do Visconde Ilya Prigogine, ela é também o motor das inúmeras aspirações
e realizações humanas, mesmo quando não se tem plena consciência disto. A
consciência comum desperta faz uma linha muito nítida, que dá sensação
claustrofóbica para qualquer ser humano. Mas algo no coração nos diz que
vivemos num tempo rico e plural, variável e variante o tempo inteiro.
– Amigo Filáion, como você sabe meu nome é Carlos Fontana, mas, junto com a experiência
mística que tive, recebi o nome Hermes Grau, do qual me orgulho e que humilde/mente
eu me esforço ao máximo para honrar, pois me liga ao mestre criador da nossa
Arte. Hermes foi a versão grega, assim como Mercúrio a romana, do nome
iniciático que ele mesmo recebeu na língua egípcia: Thoth. Seu nome era outro,
foi-me revelado em sonho, junta/mente com o que vou contar, mas não me atrevo a
escrevê-lo, ainda.
Sobre esse nome recebido, assim escreve Xavier
Renau Nebot:
O
epíteto Trismégistos certamente vem
do título egípcio de Thoth: aā aā, grande grande, ou seja, muito
grande, que, desde a época de Ptolomeu IV Filopator (221-205 a. C.) foi
traduzido para o grego com o superlativo repetido três vezes: mégistos kaì mégistos kaì mégistos;
resta apenas abreviar a fórmula por meio do prefixo tris (três vezes) para dar Trismégistos,
o três vezes muito grande, ou, como nos papiros mágicos: Trismégas Hermês.[278]
Hermes Trismegistos viveu no Egito, na mesma época
de Kṛṣṇa na Índia[279],
cerca de 3000 a. C. Tinha 1,77 de altura, magro, jeito tímido, foi escriba, mas
se destacou tanto, que se tornou um Mestre respeitado em todo mundo em sua
época, tendo regido por muito tempo uma instituição de pesquisa e ensino
egípcia, que lançou as bases da Alquimia para vários povos, até orientais, os
quais enviavam representantes para estudar ali; e, por desígnio do povo egípico,
Hermes chegou a ser Faraó.
/.../ 4 A essas palavras mudou de
aspecto e, subitamente, tudo se abriu diante de mim em um momento, e vi uma
visão sem limites, tudo tornou-se luz, serena e alegre, e tendo-a visto
apaixonei-me por ela. E pouco depois surgiu uma obscuridade dirigindo-se para
baixo, sendo, por sua vez, assustadora e sombria, rolando-se em espirais
tortuosas, semelhante a uma serpente, segundo me pareceu. Depois esta
obscuridade transformou-se numa espécie de natureza úmida, agitada de u’a
maneira indizível e exalando um vapor, como o que sai do fogo e produzindo uma
espécie de som, um gemido indescritível. Depois lançando um grito de apelo, sem
articulação, tal que o comparei a uma voz de fogo, 5 ainda que, saindo da
luz... um Verbo santo veio cobrir a Natureza, e um fogo sem mistura exalta-se
da natureza úmida em direção à região sublime, era leve, vivo e ativo ao mesmo
tempo; e o ar, sendo leve, seguia ao sopro ígneo elevando-se até ao fogo, a
partir da terra e da água, de forma a parecer preso ao fogo; pela terra e pela
água, permaneciam no lugar estreitamente conjuntos, se bem que não se
percebesse a terra separada da água: estavam continuamente em movimento sob a
ação do sopro do Verbo que colocara-se sobre elas, segundo percebia a orelha.[280]
Hoje o que chamamos de capítulo era o que os
antigos chamavam de livro, e havia uma obra maior que abrangia vários livros,
como os da Metafísica de Aristóteles. Por isso se diz que Hermes Trismegistos
escreveu milhares de livros, na verdade, foram tantos capítulos de 98 de
livros, dos quais chegou até nós uma tradição fortíssima, a influência que
exerceu sobre tantos pensadores e a obra Hermetica, ou Corpus
Hermeticum (o “corpus” é conjunto da obra de um autor, na diplomacia também
podemos ler “corpo fechado”).
É a constituição do seu próprio pensamento que o
Ocidente reprimiu e ocultou. Não se trata de uma ciência oculta, mas que foi
ocultada, censurada. Os que afirmam que a Filosofia nasceu na Grécia, com
Tales, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Platão, Aristóteles e seus amigos e os
amigos dos amigos deles, fazem questão de ignorar todos os liames que ligam as
questões milenares da Filosofia com o pensamento hermético.
Mesmo com as sucessivas destruições da biblioteca
de Alexandria e as perseguições que o cristianismo, quando se tornou dominante
em Roma e depois na Europa, fez dos textos herméticos, alguma coisa, pouca
coisa, chegou até nós. É o caso de ter uma espaçonave interdimensional e destruí-la,
para poder usar uma carroça, literal/mente falando.
O estudioso da Filosofia Hermética Xavier Renau
Nebot assim comenta os textos que chegaram até nós:
Em torno do século II a. C. começaram a ser
traduzidos para o grego alguns dos tratados egípcios de alquimia, magia e
astrologia, os quais, logicamente, foram colocados sob o nome de Hermes-Tot, o
patrono das ciências ocultas; o sucesso foi extraordinário, uma vez que vieram
para satisfazer a necessidade de certezas que uma filosofia envelhecida e desenganada
era incapaz de proporcionar. Algum tempo depois, provavelmente no início de
nossa era, a mesma filosofia grega (um conglomerado eclético de Platão,
estoicismo e mística pitagorizante), se viu arrastada por aquela impetuosa necessidade
de certezas e acabou presa à religião, uma área em que a civilização egípcia não
tinha rival. A partir desse fluxo e refluxo entre a filosofia grega e a
civilização egípcia nasceu um hermetismo culto, erudito ou filosófico que, sem
abandonar de todo as fontes ocultistas, soube elaborar uma espiritualidade
refinada baseada na “piedade por meio do conhecimento”, ou, na definição do
próprio Asclépio, uma “religião da mente”. Nos Hermetica filosóficos encontramos textos de origens díspares: os
dezessete tratados do Corpus Hermeticum;
o Asclepius (tradução latina de um perdido
Discurso Perfeito); vinte e nove
excertos preservados na Antologia
Estobeo (volume V); uma série de citações em obras de outros autores; três
textos herméticos que apareceram na Biblioteca copta de Nag Hammadi e a
tradução para o armênio de umas Definições
de Hermes Trismegisto a Asclépio. A maioria desses escritos teve enorme
sucesso, tanto no Antiguidade como na Idade Média, mas sua época mais
espetacular é o Renascimento, quando estudiosos como Marsilio Ficino, Agrippa
von Nettesheim ou Giordano Bruno encontraram neles as chaves para sua reforma
da sociedade medieval.[281]
Os textos que chegaram até nós, qual professor ou
pesquisador ou estudante de Filosofia os lê e estuda? Se o fizer, verá ali uma visão
cósmica incomparável, uma visão teológica comparável ao que nos chegou dos
egípcios, mesopotâmios, indianos e hebreus, e uma visão filosófica que se
mostra o elo perdido da Filosofia ocidental. Tales, Heráclito, Pitágoras,
Platão e muitos outros viajaram pelo Egito. Plotino nasceu no Egito. Guardaram
silêncio sobre o que viram, ouviram, leram e aprenderam lá, porém, as suas
filosofias estão impregnadas de hermetismo.
É intrigante que Tales fale que a arché, o princípio formador de todas as
coisas, seja a água; essa é uma afirmação fundamental da cosmologia hermética,
total/mente desvirtuada e incompreendida quando pensam que se trata da
substância H2O; assim como quando supõem que os quatro elementos são
as substâncias comuns por nós designadas fogo, ar, água e terra. De onde vem o
conceito aristotélico de quintessência? Leiamos o que chegou até nós dos livros
de Hermes, a maioria na forma de diálogos. Alguns scholars alegam que os textos “atribuídos” a Hermes trazem essas
coisas porque teriam sido feitos séculos depois de Cristo, com a influência do
neopitagorismo, do neoplatonismo e da gnose.
No livro Alchemy,
Child of Greek Philosophy (título cuja tradução é Alquimia, Filha da
Filosofia Grega), Hopkins defende a teoria de que a miscelânea de religião,
filosofia e técnica que a Alquimia apresenta seria so/mente uma consequência da
aplicação das filosofias de Platão e Aristóteles aos processos egípcios de
ligas de metais e tingimentos[282].
De novo, as pessoas veem o que querem, ou o que
precisam ver, para acreditar que conseguem discernir alguma coisa, quando não
estão entendendo nada. Nova/mente, essas técnicas existiram, elas não
constituem o núcleo luminoso da Alquimia; nem as locubrações esotéricas
constituem; a Alquimia é outra coisa: seria possível ler no seu nome a antiga
palavra portuguesa “al”, que significa “outra coisa”, “o mais”, e é um pronome
indefinido devirado do Latim aliud[283];
nessa tradução, Alquimia significa “A outra química”.
A Tábua de Esmeralda foi escrita por Hermes
Trismegistos como o suprassumo de sua Filosofia, em uma tábua ou quadro de
esmeralda, com uma ponta de diamante. Você já ouviu falar de um quadro que é
uma esmeralda larga e fina, indivisível? Hermes fabricou a tábua e o diamante
com o qual escreveu.
Tive um professor de História da Arte, no curso de
Interpretação Teatral que iniciei na Uni-Rio, que defendia com vigor que os
egípcios antigos eram da etnia negroide, pois seu país fica na África, suas
pinturas representam pessoas morenas e a elite usava perucas, esses eram os argumentos
dele. Mas sei, tanto quanto você queira acreditar que eu possa saber pelos meus
sonhos lúcidos e visões, nos quais aprendo com Mestre Zózimo Panopolitano e
Mestre Bolos de Mendes, que os egípcios não eram negros, mas morenos, e que há
três etnias na África da antiguidade: os semitas, como caldeus, árabes e judeus;
os hamitas, egípcios; e os camitas, negros africanos.
Os judeus apresentavam já no início pessoas mais
morenas ou mais claras. Jesus é retratado como um homem de cabelos e barbas
castanhos, porque era assim sua compleição, não por etnocentrismo, há um saber
subconsciente que permeia os seres humanos e aflora aqui e ali.
A jovem norte-americana Akiane Kramarik é poetisa e pintora, desde criança manifestou genialidade e percepção
especial, tendo aprendido sozinha a pintar. Eis aqui como aconteceu o seu
pedido a Deus para pintar o rosto de Jesus, o que ela fez na tela Prince of Peace (O Príncipe da Paz):
No entanto, o
quadro mais impactante da jovem é o do rosto de Jesus, que recebeu o nome de “O
Príncipe da Paz”, e foi criado depois de uma experiência espiritual muito
forte.
Na entrevista,
Akiane conta que passou um ano à procura do modelo para o rosto de Jesus. Uma
noite, ela rezou a Deus, pedindo que Ele lhe mostrasse como era Jesus, para que
pudesse pintar um quadro de Seu rosto e, na manhã seguinte, um carpinteiro
bateu à porta de sua casa, dizendo que “seria o modelo para o seu quadro”.[284]
Essa “corrente de ouro” (citação do tratado Aurea Catena Homeri[285],
que cita os versos da Ilíada, de Homero:
“Suspensa/Da
abóboda estrelada áurea cadeia,/Deuses e deusas, pendurai-vos dela/E juntos
forcejai, que a Jove sumo/Nem mesmo abalareis; mas, se aprover-me,/Puxar-vos-ei
de cima e a terra e os mares,/E enrolada a cadeia ao tope Olímpio,/Penderá das
alturas o orbe inteiro:/Tanto os numes supero e tanto os homens”, canto VIII,
tradução de Manuel Odorico Mendes[286]),
cadeia que liga os seres da criação a seu Criador, que conecta a Natura
Naturans à Natura Naturata, pelo amor, segue continua/mente, desde William Shakespeare
até nós:
Sonnet 21
So is it not with me as
with that Muse,
Stirred by a painted beauty to his verse,
Who heaven itself for ornament doth use
And every fair with his fair doth rehearse,
Making a couplement of proud compare
With sun and moon, with earth and sea’s rich gems,
With April’s first-born flowers, and all things rare,
That heaven’s air in this huge rondure hems.
O! let me, true in love, but truly write,
And then believe me, my love is as fair
As any mother’s child, though not so bright
As those gold candles fixed in heaven’s air:
Let them say more that like
of hearsay well;
I will not praise that purpose not to sell.
Soneto 21
Então, não, não se dá comigo como
com aquela
Musa, que se autoinspira em fazer
verso e beleza,
Para quem o próprio céu é só mais
um enfeite,
E o bem mera expressão do quanto
se embeleza,
Se apresentando em pares na
comparação vaidosa
Com o sol e a lua, e as joias
preciosas da terra e do mar,
Com as primeiras flores da
primavera, e com todas as coisas
Raras que o ar celeste em sua
abóbada abarca.
Oh! Permita-me ser verdadeiro no
amor e na poesia,
E então confia em mim, que o meu
amor é tão puro
Como o da mãe com seu filho, mesmo
sem ter tanto brilho
Quanto as velas de ouro fixadas no
ar celestial.
Deixe meus versos falarem mais do
se pode compreender;
Pois, não faço comercial do que
não posso oferecer.
O trabalho que a Alquimia faz com as imagens, ao longo dos séculos, desde o Egito e a Grécia, passando pela Idade Média e Renascença, até a época Contemporânea, é impressionante. A Alquimia adota algo do impulso dos hieróglifos e da nobreza da heráldica, e cria seus próprios códigos, com uma beleza gigantesca, e que na verdade se tratam, como já falei, de indutores da transmutação da consciência (bem como o são seus textos, sempre, se genuina/mente herméticos).
A esse respeito é muito legal consultar as obras Alchimie de Jacques van Lennep[287] e The Golden Game: Alchemical Engravings of the Seventeenth Century, de Stanislas Klossowski de Rola[288], que trazem magníficas coleções das obras plásticas alquímicas.
A imagem aparece na obra O Triunfo Hermético, de Limojon de
Saint-Didier, e tem essa frase, que pode ser traduzida assim: A
caverna dos metais é oculta, e sua Pedra é venerável. Vamos ler aqui a
Explicação geral deste emblema, em que o autor escreve:
Não devemos esperar ver uma explicação em detalhes
aqui, retirando absolutamente o véu desse enigma filosófico, para que a verdade
apareça a descoberto: nesse caso, todos os escritos precisariam ser jogados no
fogo dos filósofos; os sábios não teriam mais nenhuma vantagem sobre o
ignorante; ambos seriam igualmente habilidosos nessa arte maravilhosa.
Será
necessário se contentar em ver nesta figura, como em um Espelho, o resumo de
toda a filosofia secreta contida neste pequeno livro, onde todas as partes
deste emblema são explicadas de forma clara como fazê-lo.
Aqueles
que são iniciados nos mistérios filosóficos entenderão facilmente desde o
primeiro momento o significado que está oculto sob esta figura; mas
quem não
tem essas luzes geralmente deve considerar uma correspondência entre o Céu e a
Terra, através do Sol e da Lua, que são como os laços secretos dessa união
filosófica.
Eles
verão na prática do trabalho duas correntes parabólicas, que, secretamente se
confundindo, dão à luz a pedra misteriosa triangular, que é a base da arte.
Você
verá um fogo secreto e natural, cujo espírito penetrando na pedra a sublima em
vapores, que se condensam no vaso.
Você
verá a eficácia que a pedra sublimada recebe do Sol e da Lua, que são pai e
mãe, de quem herdou antes de mais nada a primeira coroa de perfeição.
Você
verá na continuação da prática que a arte confere a esse licor divino uma coroa
dupla de perfeição para a conversão dos Elementos e para a extração e depuração
dos princípios, nos quais isso se torna caduceu misterioso de Mercúrio, que
opera tão incrível metamorfose.
Você
verá que esse mesmo Mercúrio, como uma Fênix que renasce em fogo, chega graças
ao Magisterium até a última perfeição do enxofre fixo dos filósofos, que lhe
confere poder soberano sobre os três gêneros da natureza, cuja coroa tripla,
sobre a qual o hieróglifo do mundo repousa, é o seu caráter mais essencial.
Verá,
enfim, em seu lugar, o que significa a porção do zodíaco, com as três figuras que
são representadas nele; para ver que, unindo todas essas explicações, não será
impossível obter disto o entendimento exato de toda a filosofia secreta e a
maior parte da prática que se segue ordenadamente da carta dirigida aos
verdadeiros discípulos de Hermes, que está no final deste trabalho.[289]
Há dois mil e quinhentos
anos as pessoas entendem de modos estranhos a afirmação de Sócrates de que ele
só sabia que nada sabia: é como uma coberta puxada de um lado para o outro,
que, sendo assim, não cobre igual/mente bem a nenhum dos interessados.
E se ele não afirmava
nem ideias imutáveis como modelos eternos do real e nem o relativismo total das
opiniões humanas que nunca seria capaz de produzir um conhecimento real? E se
ele afirmava, ao contrário dessas duas vertentes que explicita/mente se
inspiram nele, repito, e se ele afirmasse o conhecimento real, nos vários
sentidos da palavra: que se aprende mesmo, por si mesmo, que corresponde com
realidade ao mundo que nos cerca, que faz de nós pessoas verdadeiras, que nos
amplia e potencializa em nós a realidade, que é uma insígnia nobre que tudo tem
a ver com espírito e nada com dominação social? Sim.
A coisa mais difícil no
campo dos saberes humanos, demasiado humanos, é a Alquimia, a genuína Gaia
Ciência, isto é, ciência feliz que faz quem a pratica feliz, e ainda a ciência
da Terra, da nossa conexão mais genuína com o mundo que nos concebe e alimenta,
a cada instante.
Isso é chamado pelos
Adeptos de Química, mas é preciso compreender que essa Química dos Adeptos não
é a Química que se desenvolveu com Lavoisier e os cientistas contemporâneos que
o sucederam.
Falei que é o
aprendizado mais difícil, para um homem. Trabalho de mulher e brincadeira de
criança, assim a Alquimia é chamada. Como assim? Sempre há várias camadas de leitura,
a mais tola seria supor uma visão machista ou de desprezo às mulheres e crianças,
pois é o contrário, do que se trata. A criança brinca com a Alquimia, quando
fica adulto é que se esquece, e, se quer estudar, fica décadas trabalhando no
oraetlaborium, batalhando com os livros e os fornos, para entender plena/mente
aquilo que quando era criança ele intuía, isto é, sabia, ao saber tão
certa/mente que nada sabia.
A mulher ao ser
carinhosa com seu amado, fazer amor, ficar grávida, dar à luz, amamentar e
criar seu filho, ela faz um “trabalho de mulher”, não porque seja o único na
sociedade que ela pode fazer, ao contrário, sabemos bem que a mulher pode
realizar os mesmos trabalhos que os homens, mas sim porque essa gestação um
homem não faz, isso é óbvio, so/mente uma mulher dela é capaz.
Sim,
eu sei falar do mundo,
Uma
fala bem ligeira;
Também
sei, de todo jeito,
Que
o sentir sim vale a pena.
O
sentimento nos faz,
Com
sua feroz gentileza,
Gerir
a guerra e a paz:
Ele
vale o quanto preza.
A
ação é não ação,
Sendo
pura ação, porém,
O
silêncio interior
É
o segredo do wu wei.
Quando o ser humano
surge sobre a face do planeta, ele possui o elo de conexão com o intento, mas
exterior/mente, ele tem o instinto, como por exemplo a necessidade de se
alimentar e de se reproduzir, e se depara com o mundo à sua volta, o qual
coloca desafios para obter o alimento, por exemplo, aos quais ele, como os
outros animais, responde desenvolvendo suas habilidades.
Uma delas é a capacidade
de produzir e utilizar linguagens, seja a língua falada, os sinais riscados ou
pintados numa superfície ou os mitos que ele recria e reconta. Essa capacidade
surgiu para expressar o desejo de comunicar a visão da névoa que por seu
intento percebe, e as sensações que a visão provocava, como angústia,
insegurança, entusiasmo, desejo de criar, vontade de fazer. Então, nessa
historinha que estou contando, o ser humano tinha as necessidades naturais,
como obter alimento e se defender, e tinha visões “metafísicas”, que iam além
das coisas do mundo conhecido.
A fala, o desenho e o
mito (que é a origem da literatura, assim como o desenho é a origem das artes
visuais e a fala a origem do teatro e do canto, mas as artes se separaram da
linguagem mágica e da linguagem comum, assim como Filosofia e Ciência se separaram
da Alquimia, e cada uma delas é uma prática específica que é e faz o que as
outras não fazem) surgiram para tentar com os outros as visões, e atuar sobre
os outros e as visões. A fala, o desenho e o mito surgem criados pelo intento
humano como uma resposta à necessidade de expressar para as outras pessoas as
experiências essenciais que cada um tem e é seu mundo possível.
Esse atuar sobre os
outros foi além das visões, ou veio aquém, e se tornou a comunicação social
comum, usar as falas, as imagens e as narrativas para fazer as atividades
comuns do grupo social no mundo conhecido, incluindo aí o nascimento da
religião, que se diferencia tanto do mito, por ser aquela, ao lado de uma
ligação metafísica, também uma prática de ordenamento e harmonização mental e
perceptiva social.
Veja bem, não se trata
de uma crítica à religião per si. O maior objetivo do ser humano, a maior
alegria para o ser humano e a realização maior da grande obra é o homem
conhecer Deus. Todos os caminhos humanos são trilhas no caminho do verdadeiro
autoconhecimento, que é o amor divino (prema).
O amor divino transcende sujeito e objeto, por isso é a mais alta vibração, a
qual queima e egoísmo e suas manifestações. As religiões trazem esta proposta, assim
como toda a atividade humana o traz, ou tem a potencialidade de trazer, também.
Às vezes algum religioso se concentra mais nos aspectos sociais e individuais, sendo
assim uma prática egoica.
Jesus Cristo o filho de
Deus o Deus homem veio trazer o amor de Deus junto com o conhecimento de que
somos irmãos somos filhos de Deus e os mandamentos: amar a Deus sobre todas as
coisas e ao próximo como a ti mesmo. Ama teu Pai e teus irmãos. Isso é
religião. Essa é a meta optata, a excência
da Alquimia.
Claro que algumas
pessoas se ligam às religiões como nossos avós se ligavam aos mitos; isso é do
foro íntimo de cada um: o que você usa para crescer.
Os mitos não são nem
visões e explicações primárias sobre a natureza, nem representações do
inconsciente, nem fantasias que expressam medos e desejos do povo que os cria.
Os mitos não são religiões, nem as origens das religiões. Os mitos são signos
narrativos e imagéticos que expressam a visão do entremeio que o homem tem.
Uma pessoa pouco
experiente desperta numa situação inesperada, por exemplo, no meio do campo
cheio de neblina. Ela com certeza vai sentir insegurança e formular respostas
fantasiosas sobre o que está acontecendo, até que, num certo momento, ela
entenda o que REAL/mente acontece. Se for alguém mais maduro, mais experiente,
ele logo tenta entender, não acredita nem quando acorda que haja coisas
misteriosas no mundo.
Mas há. O ser humano o
percebe. E a linguagem verbal, os sinais gravados e os mitos representam primaria/mente
esse entremundo, essa névoa misteriosa, essa “fresta entre os mundos” da qual
fala Carlos Castaneda.
O peixe só pode
experimentar o mar. Se ele fosse falar ou pensar, ia falar e pensar no mar, do
mar, sobre o mar. Mas o ser humano é um tipo de peixe atento, que vê que além
da superfície da água que refrata a luz do sol e é de outra densidade do que o
ar, além dela há a terra, e há o ar, e há o sol.
Os quatro elementos e a
quintessência.
Esse ser anfíbio, que o
homem é, consegue pensar no entremundos, na fímbria do ser, nas fibras que
entretecem o real que ele experimenta. Isso é metafísica.
As negações da
metafísica se colocam em perspectivas primárias: materialismo, ou o positivismo
lógico que só aceita aquilo que pode ser comprovado ou falseado, ou o
relativismo das culturas e suas linguagens, que seria o ser em suas várias
maneiras, isso é, o homem para todos esse antimetafísicos seria a medida das
coisas.
Pois bem, aqui está o
começo desta aula: o homem não é a medida de todas as coisas. Quando Protágoras
formulou sua tese já lhe foi respondido isso: eu homem sou a medida de todas as
coisas, mas eu estou afirmando que não sou a medida de todas as coisas, logo,
eu que sou a medida das coisas coloco que não o sou e essa colocação é
soberana, logo o homem é e não é a medida de todas as coisas. Aí sim.
A sociedade contemporânea
é herdeira de uma visão que foi se cristalizando como cínica e empirista,
materialista e míope.
Jung foi um dos maiores
inimigos da Alquimia. Mesmo que sua obra tenha trazido o tema à voga, e ele
tenha pesquisado e dado à publicidade no século XX o texto alquímico Aurora Consurgens, sua interpretação
total/mente equivocada muito tem feito para deseducar uma grande cópia de “esoteristas”
que pensa que a Alquimia é psicológica, que ela fala do inconsciente coletivo, que
seus textos e gravuras são representações dos “arquétipos” e outras loucuras
assim. Ao fazer essa conjugação do fake com o falseado, desencaminha tanto o
estudante da Alquimia quanto o da Psicologia.
Sei que a proposta de
arquétipo parece atraente para muita gente, e, inclusive, essa palavra aparece em
alguns textos fundamentais da Alquimia. Mas o que eu proponho aqui é que a
Alquimia trabalha espinoseana/mente com a expressão da excência, conceito que
inventei e que dá conta das essências compreendidas como uma eterna criação,
assim como o eterno retorno de Niezsche, que não propõe o eterno retorno do
mesmo, mas sim o eterno retorno do diferente, daquilo que afirma (expressa) a
sua diferença, a potência que não se nega (nem tenta se afirmar negando às
outras), a potência que quer ser vontade: o eterno retorna.
Esse eterno não é feito
de “tipos”. Porque não é feito, se faz, e não faz tipos, e sim expressões
diferenciais: toda família dos “tipos” é cretina, porque trabalha com a
proposta de uma coisa fixada, que tenta sair do tempo, colocar o tempo (as
diferenças) no cabide: estereótipo, protótipo, arquétipo... Lembre-se do que
escreveu Carol Anthony agenciada ao I
Ching: o tempo é a essência.
O arquétipo é a proposta
da escola junguiana[290]
de que haveria um “tipo” imutável modelar, um modelo superior, para todas as
formas e situações humanas (a palavra arquétipo vem de duas palavras gregas
compostas: ἀρχή, que se pronuncia “arché” e
significa “princípio”, “ponta”, “posição superior”, e τύπος, cuja pronúncia é
“tüpos”, “typos” ou “tipos”, e quer dizer “impressão”, “marca”, “tipo”). Para
ilustrar o ridículo dessa proposta, que haja tipos fixos que são repetidos
sempre pelos seres humanos, como modos de ser e comportamentos, tomemos o já
citado personagem literário Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle.
Nos
contos e novelas publicados, o personagem encantou de tal maneira os leitores e
o público em geral, que ofuscou a obra literária de seu autor que ele próprio
considerava “mais séria”. Tenta, então, se livrar do personagem, porém, não
consegue, e, pelas décadas, além das aventuras originais, aparece uma pletora
de imitações, pastiches, paródias, tentativas de reescrever e continuar a saga
do detetive, com novas aventuras feitas por outros escritores, numa fanfiction avant la lettre[291]. Além de textos em
livros, jornais, revistas e na internet, a mesma multiplicação pletórica de
Sherlocks aconteceu e acontece no teatro, cinema e televisão, com filmes e
séries etc.
O que
diria um partidário da paranoica teoria do arquétipo? É fácil imaginar, e seria
bem chato repetir. Mas é um arquétipo que foi mostrado ali? É a isso que deve
seu sucesso? Ou se trata justa/mente da invenção, fazendo aumentar os tipos do
que o ser humano pode ser e fazer, sempre recriando o seu modo de ser, numa
invenção contínua da excência.
Vejamos
outro
exemplo, a questão da Astrologia. Cada pessoa sabe que, tendo nascido naquele
período do ano, possui um signo zodiacal. Quando você procura se conhecer, se
observa, e ouve ou lê as características daquele signo, fica impressionado com
o quanto aquilo que se diz do signo se aplica a você, e se vê descrito ali.
Sim. Todavia, leia sobre
os outros signos: perceberá que o que se fala sobre todos eles também serve
para você; quer dizer, cada um de nós tem doze signos solares regentes, na
Astrologia. Não é só a questão de calcular o ascendente ou o signo lunar, mas é
a questão de que o ser é um complicatio
no conceito do filósofo medieval Johanes Duns Scotus[292],
ou como o gênero animal segundo o naturalista Isidore Geoffroy Saint-Hilaire
(não confunda, o que veio ao Brasil quando a corte portuguesa estava aqui
instalada foi Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire). Isidore
Geoffroy considera o animal como uma sobreposição de todas as características
de todos os animais, que são, algumas, realçadas naquele espécime, como a luz
branca é a mistura de todas as cores, e a biologia molecular veio a lhe dar
razão[293].
Então, qual o seu tipo? Qual o arquétipo? Cada um faz as suas diferenciações
dentro da riqueza incomensurável de um plano de imanência comum.
Veja o que disse sobre
isso Sri Yukteswar, o guru do grande guru Paramahansa Yogananda:
– Senhor
– perguntei – é uma análise astrológica? O senhor desconhece em que dia e hora
ela nasceu.
Sri
Yukteswar sorriu. – Existe uma astrologia mais profunda, que não depende do
testemunho de calendários e relógios. Cada homem é uma parte do Criador, ou um
Homem Cósmico; possui um corpo celeste, bem como um terrestre. O olho humano vê
a forma física, mas o olho interno penetra mais profundamente, chegando até o
modelo universal do qual cada homem é uma parte individual e integral.[294]
Já Jung não é tão ruim
só por isso. Sua insistência em interpretar toda a supercomplexa e bilionária
operação alquímica sempre tentando reduzir tudo ao casamento das duas metades
da pessoa, a anima e a o animus, isso é muito pobre. O inconsciente é o
multiverso, ouçam isto, senhores Sigmund pai e Gustav filho.
Quase tão equivocada
quanto a proposta junguiana, é aquela que afirma ser a Alquimia uma disciplina
espiritual, entre outras. Muita gente boa diz que existem duas Alquimias, a
operativa e a espiritual. Lento engano (que o sendo, não pode ser ledo).
Como explica o professor
de ciências inglês Eric John Holmyard, em seu livro Alchemy:
A alquimia possui dupla natureza,
uma externa ou exotérica e outra oculta e esotérica. A alquimia exotérica diz
respeito às tentativas de preparar uma substância, a pedra filosofal, ou
simplesmente a Pedra, dotada do poder de transmutar os metais básicos chumbo,
estanho, cobre, ferro e mercúrio nos metais preciosos ouro e prata. A Pedra
também era às vezes conhecida como Elixir ou Tintura, e era creditada não
apenas com o poder de transmutação, mas também com o de prolongar a vida humana
indefinidamente. A crença de que só poderia ser obtida pela graça e favor
divinos levou ao desenvolvimento da alquimia esotérica ou mística, e esta,
gradualmente, se desenvolveu em um sistema devocional, no qual a transmutação
mundana de metais tornou-se meramente simbólica da transformação do homem
pecador em um ser perfeito, através da oração e submissão à vontade de Deus. /…/[295]
As duas visões são
carentes, caretas e incorretas: nunca a Alquimia é mera/mente laboratorial, ou
externa ou exotérica, e nunca, se ela é real/mente o que é, a essência da
Alquimia, se apresenta como simples disciplina espiritual. A Alquimia é um
laboratório real e concreto e material e espiritual, tudo ao mesmo tempo,
agora.
A Alquimia é
laboratorial, a palavra Laboratório foi inventada pelos alquimistas, para
referir o caráter teológico, filosófico e prático/físico e químico da nossa
realização.
No livro Alquimia o Arquimagistério Solar eu
proponho que nossa Arte Filosofal tem várias camadas, sendo a mais externa a
exoAlquimia, que é justa/mente essa relação mais ou menos frouxa que os vários
misteres humanos procuram ter conosco, há assim teatro, música, dança, artes
visuais, literatura, filosofia, arquitetura, psicologia, misticismo, culinária
etc., que se propõem alquímicas, que se ligam de alguma forma ao magistério.
Mas não são a própria Alquimia essencial.
O outro círculo, menos
externo que a exoAlquimia, se constitui na Arquimia ou Voarcadumia, que é o
trabalho real e literal com minerais e metais. Essa arte metálica tanto
degenerou em tentativas de fraude, quanto técnicas de cosmética e enfeite de
metais (por exemplo, produzir uma peça de cobre que pareça ouro, o valor
estando apenas no aparecer, não visando o engano das pessoas), quanto nos
sopradores, mais ou menos sérios, e os houve e os há muitíssimos; quanto pode
se realizar na total seriedade da transmutação metálica, que é uma demonstração
poderosa e impressionante, advinda da Alquimia, mas que ainda não é o seu
núcleo.
Numa camada mais interna
temos a Espagíria, que faz a separação do Mercúrio e do Enxofre dos metais e
das plantas, e a sua sublimação, e a sua fixação, para produzir medicamentos
muito mais sutis, potencializados e eficazes. Seu grande representante é
Paracelso, que, com sua aplicação da Alquimia à Medicina, revolucionou e
evolucionou esta, e se tornou o fundador de várias escolas e técnicas atuais, a
começar pela Alopatia, a Homeopatia e a própria Espagiria.
O núcleo da Alquimia é o
“desejo desejado” sobre o qual escreve Nicolas Flamel. É o trabalho físico e
laboratorial com a nossa pedra para separar seus constituintes, trabalho
perigosíssimo e fácil e difícil ao mesmo tempo, refiná-los, purificá-los, e
tornar a reuni-los, o solve e coagula que desperta no homem a semente de Deus.
Podemos ler no meu livro
anterior:
Antes
devemos separar as três Artes pelas quais se manifesta a Alquimia, e que
abrangem campos tão solida/mente preparados, irrigados e semeados:
I – A
Espagíria – arte/ciência/mística de separar e unir as partes das substâncias
para prover a sua sublimação, indefinida/mente.
II – A
Voarchadumia – aplicação específica da espagíria ao reino mineral, especial/mente
a pedras preciosas e metais.
III – A
Alquimia – que é a “meta optata”, o nosso “objetivo desejado”, como a chamo, a
heraclítica chama, ou o “desejo desejado”, conforme afirma clara/mente Nicolas
Flamel.[296]
A essência da Alquimia é
a Agricultura Celeste.
A excência da Alquimia é
a realização da Grande Obra, que se constitui com Ergon e Parergon.
Energy is Eternal Delight
Energia é Deleite Eterno.
(William Blake)[297]
Duas vertentes de
interpretação da Alquimia se apresentam como as mais difundidas, sendo total/mente
distorcidas: a produção do metal ouro por um processo químico secreto e uma
exploração do inconsciente, que, nesta visão, sendo coletivo, equivaleria a uma
“evolução” espiritual.
Ora, não há viagem
quando chegamos ao mesmo ponto onde estávamos, nem evolução quando nos tornamos
exata/mente aquilo que éramos antes.
A Alquimia é a Arte das
Transmutações.
Aquela bobajada de Carl
Gustav Jung e seus sequazes, assim como suas versões soft diluídas, ou a visão
mais tola do positivismo experimental subquímico não impediram que surgisse uma
gama de expressivos Alquimistas reais, entre os quais se destaca o gênio
alquímico de Fulcanelli.
A grande questão central
do trabalho de Freud e seus seguidores é o inconsciente. Pensar o inconsciente
já está presente com muita força na literatura em vários momentos, principal/mente
no Romantismo, e na filosofia de Nietzsche, que trabalha consciente e explicita/mente
com o inconsciente. Então, o apanágio dos freudianos não é trazer essa questão;
e, sim, a maneira como a trabalha.
O esquema do
funcionamento e do conhecimento clínico do inconsciente para Freud é a
metáfora. Ele fala que sonhos, chistes e atos falhos revelam o reprimido pelos
mecanismos da metáfora e da metonímia, por exemplo, sonhar com um pássaro pode
ser representação do desejo pelo falo, do qual o pássaro seria a metáfora.
Jung se afasta de Freud
porque, ao invés de trabalhar com a formação da sexualidade do indivíduo,
passando pelas fases oral, anal, fálica e genital, ele pensa que o indivíduo
precisa encontrar o seu self, que é a junção das suas duas metades, seu animus
e sua anima.
A importância que ele dá
para os textos e ilustrações alquímicos é que eles seriam sempre metáforas
dessa procura e desse encontro do eu com o seu self, o casamento alquímico das duas
metades do eu.
Então eu coloco aqui a
minha visão da Alquimia e da Psicologia (entendendo que estes sete capítulos
iniciais constituem o começo da jornada, o primeiro triângulo, nas negações e
principal/mente nas afirmações que aqui se fazem):
1) A
Alquimia trabalha o tempo todo com o inconsciente. Sim. Por isso, fazer ao pé
da letra aquilo a que os textos aludem só produz maçaroca ou um caminho para a
simples química, na melhor das hipóteses, dentro da genial lógica oswaldiana da
“contribuição milionária de todos os erros”.
2) As
imagens míticas, verbais e visuais da alquimia se dirigem ao inconsciente. Mas
não são metáforas, porque
3) O
inconsciente não é metafórico. Se o fosse, seria reativo, na terminologia de
Nietzsche, ou, quando o é, é paixão triste, na conceituação de Espinosa. O
inconsciente é a força da vida em nós, ele não representa as coisas, como
brilhante a mente esquizoanalítica de Deuleuze e Guattari ensina: o
inconsciente é produtivo, não representativo, ele inventa, produz, cria,
recria, faz; não metaforiza; então,
O Berço de Todos os Mitos
Nisi solis nobis scripsimus
Somente para nós mesmos escrevemos[298]
(O cenário é um campo bucólico na Grécia
Antiga. Entra um rapaz, vestindo uma túnica, e se senta à beira de uma fonte.
Pega de uma lira e começa a tocar.)
Dionísio (canta):
A vida... a alegria... A melodia
Pede uma letra, atrevida
Que quer voar pelos espaços
Nas asas de um sentimento
Nos passos de uma fantasia
Além de todos os laços
O momento é essa lida
Da vida, da poesia
Atena (aparece, por trás dele, e, ouvindo
a música, sem que ele a visse, depois bate palmas e lhe fala): Lindo, lindo!!
Meu irmão, você sabia que você tem muito jeito pra isso?
Dionísio: Querida Atena, você sabe que o
nosso fraterno Apolo é o dono do monopólio das artes por aqui. Inclusive da
música e da poesia. Eu estou só brincando com a lira... Que ninguém nos ouça!
Atena: Mas Hermes inventou a lira! Então
não é mais monopólio.
Dionísio: Palas querida, uma coisa é a
manufatura, a indústria. Nós, os fabricantes, não brilhamos na mente dos
homens. Quem brilha é ele, que encanta.
Atena: Você está deprimido, Dionísio? Não
acredito! É claro que você brilha! E o vinho, as uvas, as festas, a alegria!?
Tudo isso eles atribuem a você.
Dionísio: Irmã, sou o deus da alegria,
seria ridículo se eu ficasse triste. Você é a sábia, Apolo o poeta, eu sou o
bufão. Vamos mudar de assunto. Esse papo já deu.
(A luz apaga e acende no Olimpo).
Zeus: Ganimedes, meu rapaz, venha aqui,
quero lhe dar uma ordem.
Ganimedes: Sim, meu senhor.
Zeus: Convoque todos os doze deuses
olímpicos. Desejo conversar com eles.
Ganimedes: Agora mesmo,
meu deus!
Zeus cofia a barba e
medita sobre o que vai fazer.
Enquanto isso, na Terra,
acontece o primeiro combate de Héracles e Selene:
Ele sabia que só podia
contar com sua força, do seu âmago, secundários eram os músculos naquela
situação, e as armas brancas, as setas, a lança e a maça de nada valeriam.
Entrou na caverna, atrás
do Leão de Nemeia.
Ele era o começo, nem
sabia bem de quê, mas aquele gigantesco e ferocíssimo felino, aquela fera
voraz, aquele vórtice feroz, nascido não se sabe pelas artes de quem na Lua, a
casa de Selene, o berço de Diana, e vindo não se sabe como para a Terra.
Aí, o Leão perdeu sua timidez
inicial, e veio com fúria para cima do herói.
Héracles reuniu as
forças que tinha várias no ponto virtual onde elas se tocavam como se fossem
uma só.
E estrangulou o leão.
O leão invulnerável.
Que não podia ser
ferido.
Cuja pele, para poder
cortar e tirar, para virar sua armadura natural e proteção, dela ele teve que
arrancar-lhe as unhas, pois, só essas, as do leão, conseguiam cortar sua
própria carne.
Calmo, como quem segue o
seu caminho sob o sol, na estrada que escolheu, como um trabalhador quase
braçal, apesar ou JUSTA/mente por ser essencial, quase incansável, como você e
eu, Héracles realizou o seu trabalho inicial.
É assim que a coisa
começa.
A Alquimia é o hercúleo
labor.
Anexo: Harmonia
Escrevi
Poemas do Micro e do Macro em 2000,
quando comecei a usar computador, para comemorar e utilizar alguns dos
múltiplos recursos novos que o ordenador oferece, aplicados à poesia na
perspectiva da experimentação.
A
ideia é: usar o micro para falar do micro e do macro, do homem e do cosmos.
Essas
poesias se apresentam coloridas e com várias formatações, mas aqui eu coloco
uma versão pasteurizada de alguns textos selecionados deste livro, porque ele
é, antes de tudo, Alquímico.
Ainda
no ano 2000, entusiasmado com as possibilidades que escrever as poesias no word
oferecia, fiz mais um livro com várias formatações e cores, chamado Harmonia. Ele é propria/mente uma
continuação de Poemas do Micro e do Macro.
Coloco aqui alguns textos que podem ser adaptados desse segundo livro antes,
depois uma crestomatia da obra inicial.
Você
pode ler as versões originais nos blogs:
Sinta
o sabor da chuva
é
bom estar aqui
há
um segredo
em
cada canto do
nosso
momento
saiba
que fumega
no
espaço na cor
uma
entrega linda
o
amor que sinto
comamos
juntos
esse
alimento
eu
pago o gás
nasce
um
cogumelo
na
porta da cozinha
não
a conserto
porque
ela está ótima
cheia
de memórias
é
assim que eu a quero
Há
um poema a ser escrito e é este poema que faço
É preciso fazê-lo mesmo que eu nem
saiba o que dizer
Só sei que quero e preciso
escrever o poema
Porque sinto uma enorme alegria e
felicidade escrevendo
E tudo faz muito mais sentido
assim
Eu poderia por exemplo falar de amor
Amor amor amor o amor ah o amor
O amor é lindo é maravilhoso é
esplendoroso e tem sabor
O amor é o saber mais secreto e
infinito do mundo e do corpo
E dos seres humanos e eu amo
sempre amei e sempre amarei
Amando eu me sinto feliz e vivo o
amor em plenitude
Eu tenho o meu amor
Eu real/mente poderia fazer mil
poemas sobre o amor
Mas agora neste momento sereno e
amplo
Tudo o que eu quero é escrever
O amor torna-se um átomo
Que constitui o infinito corpo da
poesia
Não é preciso falar de nada e eu
sou mais que humano
Ou que tudo não importa nenhum
outro sentimento
Ou acontecimento a hora extrapola
meus conhecimentos
E toda a filmografia básica
biográfica
Ou todo o sentido e significado
simbólico ou o que seja
Não existe mais nenhum único
símbolo em toda a face da Terra
Agora não existe mais certeza
vanguarda vantagem ou monotonia
Ou plano existencial ou virtual ou
potencial
Ou real agora só existe a poesia
que está nua e crua
A poesia fina e ampla plena e voa
nau e cria
E tudo o mais é mentira ou nem
mentira
Tudo mais é tirinha e nem tirinha
tudo mais é uma fina
Sensação de arrepio que deu e
passou e a gente nem conseguiu
Perceber direito porque foi muito
rápido
Agora só existe poesia em toda a
parte e todo o resto
É uma gosma nojenta e grudenta
mais grudenta que tudo
E no entanto já não gruda mais nem
é mais gosma porque
Se evaporou se volatilizou se
sublimou toda a matéria e toda a energia do universo
E só a poesia não é sublimação
E só a poesia é
Agora e sempre em toda parte em
todo o tempo e tudo
E está plena ela é e pronto
E todo o tempo se cria
E todo o tempo nos cria
Não para ser lida
Ou ser sentida
Ou entendida
Ou corrigida
Ou errada
Ou errar pela face do nada
Ou acertar na mosca do alvo
Ou navegar no mar do desconhecido
Ou mergulhar no oceano cósmico da
consciência
Ela não quer saber de nada disto
Nem daquilo
Não pesa nem valora nem credita
nem cobra
Não quer ser considerada bonita ou
genial
Nem ganhar o prêmio Nobel
Ou ganhar a estatueta do Oscar
Ou o troféu da Gosma
Ou a medalha da Babel
Ela não tá nem aí pra isso
Tudo que ela quer é pôr-se
Além de tudo como a si em sua sina
Eterna/mente diferente
De tudo e todos de si mesma e de
mim
A poesia é indiferente
Ela não liga
Não sente dor de dente nem morde
nem come
Nem dorme nem tem fome nem sede
nem sequer
Anseia por alguma coisa além do
além de si
Pelo qual na realidade não anseia
mas faz
Ou nem faz é ou nem é apenas
acontece
Se bem que todos os verbos e nomes
Todas palavras e frases não possam
dizer
Exata/mente o que ocorre com ela
que é terra
E céu e início e fim sem ser deus
nem demo nem
Gente nem bicho nem consciência
nem mito nem real nem al nem Alquimia nem Magia nem ciência nem filosofia nem
saber nem opinião nem razão nem desrazão nem real nem irreal nem terráquea nem
alienígena nem poesia
Nem poesia
Poesia
É isso que faço porque é assim que
é
Hoje é 22 de abril de 2000 e eu
faço este poema pra comemorar o aniversário de 500 anos do Descobrimento do
Brasil
De novo a poesia se faz nua e sem
motivo e nova/mente a gente está aqui para experimentar esse dom casual da
poesia
O amor é uma faísca a verdade é
uma pizza aqui tudo vira ouro o Eldorado
Está em algum lugar o ouro da
milésima manhã e dos quinhentos anos
Aqui há harmonia &
Desarmonia
Desarmamento
Desarvoramento & alegria
Fantasia de colorido descobrimento
O OURO DAS ÍNDIAS
E tudo
bem tudo vem quando tem que ser o descobrimento e outras coisas que compensam à
beça como a conquista do Eldorado o sonho de Pizarro e a aventura fantástica
dele e de Francisco de Orellana tudo tem seu momento tudo tem seu logos isto é
sua razão de ser tudo tem que ser forte e amor fati como dizia nosso Cabral do
pensamento Friedrich Nietzsche e Carlos Castaneda Aguirre Herzog o Eldorado
está AQUI
Aaaaaaaah como é bom acordar e
comer um bombom quer dizer como é bom simples/mente acordar e dar alô pro
papagaio e falar currupaco com as vizinhas ontem eu vi uma novelinha de três
capítulos na televisão aberta e escancarada que contava com muita mentira a
história do bravo herói mito e lenda e verdade brasileira Caramuru Dom Diogo
nem sei das quantas que casou com Paraguaçu (mar grande) que iria ser comido
pelos índios Tupinambás mas que soltou um tiro feito um peido de fubá com sua
espingarda fina que nem a enguia elétrica de lá e eles disseram “Cara Murú”,
que quer dizer enguia elétrica fina que tem lá ou Deus do Trovão alguma coisa
parecida assim ninguém consegue decifrar ao certo pois o Frei Santa Rita Durão
que escreveu o poema épico neoclássico árcade mineiro quase pós-barroco e
pré-romântico fundeando o indianismo justa/mente intitulado Caramuru ele disse que era o Filho ou
Pai ou Espírito do Trovão um troço assim então o tal Diogo que eu não lembro
como era o resto ele estendeu-se por ali e entendeu-se com os índios casou com
um monte de índias e mais com Pará Guaçu e teve um lote de filhos e se tornou o
tal dos Tupinambás e foi visitar a frança onde casou com sua mulher e foi
recebido pelo rei e apoiou os portugueses na sua instalação e fundação da
Cidade da Bahia possibilitando a colonização e fazendo muitos benefícios para
os índios para os brancos e os negros Diogo foi o primeiro rei do Brasil
Pindorama o primeiro fundador o primeiro embaixador um grande fornicador
polígamo e um deus grego moderno rei do trovão e das enguias inda ganhou
novelinha na tv Globo e um poeminha que eu escrevo neste dia lindo de
aniversário de Pindorama Brasil 22 de Abril de 2000
Este livro é dedicado a Caramuru
bom de papo e melhor de pontaria acertou num urubu e casou com a mais bonita
filha do cacique e tudo e comeu muito jesuíta e francês gordo ou pirata inglês
holandês galego e foi um puta patriarca que misturou sua raça com os Filhos da
Alvorada o Novo Povo da Selva saiu de sua espingarda e do cano de seu pau e de
sua gargalhada este livro bom e mau é dedicado ao pirado hippie beat anti-crusoé
Diogo o enfeitiçado comedor de índia e de branco moqueado arrivista anti-imperialista
Viva Caramuru do Brasil
WAKING UP
Waking up in this new morning that has
Never happened before, what’s the goal?
If you neither know why you’re here
There’s no reason but there’s a real sense indeed
Why suffer if someone doesn’t understand
All the ways are at your feet and all the greet
Is at your hand there’s a meaning either
If you really do not understand that
What’s the matter? What do you understand?
Wake up in this mighty morning feeling eke
That that’s your real and only way to knowledge
And pleasure and power and live
Feel the breeze and the drizzle
See the gray skies and realize
All your dreams are hidden behind one of these
Dozens of colored, heavy clouds; don’t worry
You’re surely a little part of this infinite world
Don’t cry don’t weep don’t crowd and neither
Ask for something else only because
You’ve got everything
Already be happy be ready and only pray
And sing and smile and run across the sand
Of the endless beach beside the all-mighty ocean
Of
the Universe
Anexo
2: Poemas do Micro e do Macro
Amor
é fogo
que arde e que se
VÊ
e
nem adianta ficar vendo tv ou ficar pastando no seu computador
Porque o
amor
Meu
querido amiguinho
É
a cor da vida do mundo e tudofica colorido
Até
mesmo você e seu umbigo
E aí
At
é
O
QUE NÃO SE VÊ
Você
diz que é Flamengo
Ele
diz que é Vasco
Acolá
se é Flamenco
Ou
Basco
As
paixões tão violentas
Depois
são brandas
Como
há flores violetas
E
brancas
Bárbara/Patrícia
Lembro
bem de quando
Houve
o encontro primo
Estava
nevando e eu indo
Rumo
ao Capitólio o imo
Cheio
das chamas inauditas
Que
sentimentos antitéticos
Sempre
causam nas benditas
Regras
e outros preceitos éticos
Quando
a vi ela vestia um traje
Mais
inusitado e estranho ainda
Era
mágica e era ultraje
Porém
ela estava linda
Viu-me
e fingiu não me ver
Cumprimentei-a
olhou pra mim
Sendo
assim bárbara sem ser
E
eu gastando o meu latim
A
rua estava toda acesa
Um preto vestido de azul turquesa
A
sala estava uma zona
Uma
crioula toda gostozona
Tinha
até formiga no prato
E
um guri correndo no mato
Era
um quilombo sem tirar nem pôr
Ali
do lado faziam amor
Uma
negrada espalhafatosa
E
na panela comida gostosa
Era
só samba pela cidade
E
a gente sentia muita vontade
Água
Na
Floresta um lago
O
oceano ao lado
Na
gota da chuva
Pelas
ruas corre
a
água
E pelos canos há
E
na poça de chuva enlameada pois
Lama
é terra mais água
E
a própria terra está coberta de água
E
assim somos nós feitos à feição da
água
O
violeta vibra vira voo volátil o violeta é versátil viva o violeta
O
índigo um índio industrioso que invade o início da imagem o índigo
O
azul acolhe o astro e o antropoide o azul acalma e aclara o azul
O
verde verseja nos vãos e veredas nos vales vastos o valente verde
O
amarelo amante anda amando o amor o amarelo amigo o amarelo
O
laranja é lindo o laranja é luminoso o laranja é louro o laranja
O
vermelho vivo vanguarda da vontade vitória da vida o vermelho é
O
violeta vibra vira
Borboleta
eu sou redondo eu sei
pinta
o escaravelho de arco-íris
faze
as pazes com a vida
as
mulheres que beijei
e
o garção de costeletas
Lábios
Antes e depois da festa
Lábios
Com qualquer negócio à vista
Lábios
No interior ou na costa
Lábios
Com a bacante com a casta
Lábios
O amor vale o quanto custa
Lábios
Pequenos e grandes
Faustos
MICRO
MACRO
COSMOS
ὁ
Κόσμος é (ἐστίν) ∞
A
coisa está assim festiva e
abusiva
a gente faz faxina
e
passa fax sem motivo
precisa
é sobriedade mas
não
espere permissão
para
ser sóbrio ou ébrio
ou
permissivo ou sério
ou
então
o
que bem quiser
o tempo
uma obra de arte aberta sempre
em movimento O tempo
uma
nave que singra os universos-momentum
o
tempo
o
templo dos deuses eternos do eterno prazer
o
tempo
o
livro dos sonhos misteriosos e lúcidos do aprendiz dele mesmo
o
tempo
água que flui da cachoeira no lago
o tempo
terra
que engloba tudo que ocorre tudo que há tudo que é
o
tempo
ar lavado pela chuva e o vento
o tempo
fogo
vivo e eterno sempre a crepitar
o
tempo
criança
brincando pichando o muro que é
o tempo
A
caverna era enorme e coberta de hera e tinha um cheiro acre e era escura
demais...
A
mulher sua
É
por você que eu velejo
Nem
é sempre que eu te vejo
Como
quero te encontrar
Toda
vez que você passa
Por
esta rua sem graça
A
minha locomotiva
Faz
fumaça pra caramba
E
a minha aura ecoa um samba
Um
carnaval dos infernos
Não
rimo o terceiro verso
Porque
a rima no universo
É
coisa meio esporádica
Quando
acontece é o máximo
Tudo
se eterniza faz-se mo-
Mento
infinito de paz
E
então role o que rolar
Toda
gônada se ativa
E
amantes sábios e ternos
Só
têm sentidos pro que há-de ca-
Pacitar
o já capaz
E
AÍ O QUE É QUE É QUE VEM HEIN VOCÊ SEMPRE PODE CONTAR COM A CHEGADA DAS CRIANÇAS
QUE SÃO O COROLÁRIO INDISPENSÁVEL DE UMA RELAÇÃO E COM ELES EM VOLTA FICA MEIO
COMPLICADO DE SE FAZER PAPAI E MAMÃE NO QUARTO AO LADO DO SOM NO SOFÁ DA SALA
SOBRE O TAPETE NA BANHEIRA SENTADO NO BIDÊ NA PIA DA COZINHA OU EM QUALQUER
OUTRO LUGAR QUE SUGIRA A SUA IMAGINAÇÃO MAS MESMO ASSIM VEJA BEM VALE A PENA
ELES VÃO CRESCER E DIZER BESTEIRAS E FAZER LOUCURAS E VOCÊ VAI TER QUE DAR
SURRAS NELES VOCÊ VAI GOSTAR DE TER QUE EDUCÁ-LOS E MANTÊ-LOS NAS RÉDEAS E
PRESENTEÁ-LOS QUANDO FOREM SEUS ANOS OU POR QUALQUER COISA OU MESMO COISA
ALGUMA TUDO BEM PORÉM VOCÊ NÃO VÁ
MIMÁ-LOS SEJA RAZOÁVEL NÃO VÃO FICAR CRETINOS ELES VÃO QUERER UM COMPUTADOR
PESSOAL O TÊNIS DA MODA UMA NAMORADA DEIXE QUE SE VIREM QUE QUEBREM A CARA SEM
QUE VOCÊ SE META DEIXE QUE APRENDAM COM A PRÓPRIA VIDA QUE PICHEM A CIDADE QUE
COMAM ERRADO FALEM PALAVRÃO AS CRIANÇAS CRIAM ISSO É ASSIM MESMO ASSIM É QUE É
BOM
A
lâmpada de Aladim
A
redondeza da esfera
Ela
olhou de longe quando nos vimos e aí percebi
Quem
não gostaria de ter uma gênia
Eu
por mim
Adoro
tê-la
Ela
é boa é foda é fera
Quando
ela me olhou de longe eu vi
A
lâmpada mágica é minha
Como
no mito platônico
Ela
é minha feiticeira
Ela
é loura é castanha e é morena
O
nosso amor é carnal sobretudo corpóreo
O
homem e a mulher juntos formam um só
Quando
ela me viu ela viu que sim
A
mulher é necessária
Para
o homem para o mundo
A
redondeza da terra
Ela
é uma pantera
Ela
é mais que um avião um jato supersônico
Ela
é super-luminosa
Nosso
amor é uma rosa rosa
Que
viceja sem descanso
Ela
é uma pantera
Uma
geniosa criatura macho/fêmea andrógina
Nosso
amor não cansa é criança
Ela
é minha por inteiro
Eu
sou redondo e certeiro
Com
ela
Um
dia uma química vai se processar incontrolável como o fogo
Que
aquece e conforta e anima os seres vivos e alimenta
Os
processos vitais como o logos eterno e aí logo
Tudo
vai ser a lenda feliz que o amor acalenta
Um dia você vai sacar e tudo vai ficar claro como a água
Que
ocorre pelos campos sem fronteiras do planeta inteiro
Aí
vai ser até engraçado porque eu não vou guardar mágoa
Tudo
vai ficar claro lago limpo aura clara agradável outeiro
Um dia você vai ligar distraída e veloz leve e sutil como o ar
Que
circunda nossos corpos material e etéreo
Aí
eu vou ficar muito sério e ouvir o que você disser sem falar
Porque
o que sinto agora é notório e flagrante mistério
Um
dia eu vou ter o prazer de te ver terna e fecunda como a terra
Que
embasa os encontros possíveis e inimagináveis dos seres
Humanos
e é a deusa Ceres que o segredo da vida nunca encerra
Aí
eu vou rir com você porque o amor é prazer é o maior dos prazeres
O orgânico domina toda a terra
É
uma suposição comum e assente
Mas se soubermos que há consciência
Além
dos processos biológicos
Conhecidos
e entendidos como o vivo
Vida
e consciência além da base carbono
Sci fi hi tec cyber punk blade runner
Real
que está à volta e alguém não nota
Mas
alguém nota a vingança do silício
O
pensamento na acepção bergsoniana
É
uma derivação viva do vivo
Como o logos
Heraclítico ou a concepção dos estoicos
Via Deleuze e Châtelet bem pode ser
Que
você diga isto é prosaica poesia
Ou
simulacro de tese que tenta passar
A
sensação de excesso de cultura e/ou
Tudo
se concentra numa suposição
Nefelibata
e idealista de filósofo
Neoplatônico ou neoplotiniano
A discorrer sobre o universo vivo
E
a anima mundi e a quintessência
Ou
figuras geométricas
Numa via ultrarracionalista
Que
se encontra com práticas antigas
Propiciatórias
do modo de produção
Asiático
ou com as tradições xamânicas
De
primitivos neolíticos espalhados
Até
o século xix pelos cinco continentes
E
no seguinte teórica/mente resgatadas
Por
antropólogos de gabinete
Eu
conheço muitas das contestações
Possíveis
através de outros embates
Nos
ambientes que se outorgam a palma
De
reciclar cultura com copyright
Mas
aqui escrevendo e lendo no micro
E
com os livros
E
os cds e dvds e sobretudo
Os
meus pensamentos eu penso
As
armas e os barões assinalados que da Ocidental praia Lusitana por mares nunca
dantes navegados passaram inda além da Taprobana velejaram por meses sem
caminhos sem comida decente e Tramontana até que encurralados entre o abismo o
gigante Adamastor e a muçulmana eles encontraram um pórtico do acaso navegando
em busca do oriente eles desviaram sua rota e seguiram o sol pois lembraram das
histórias que ouviam quando eram crianças nas aldeias e que as velhas malucas
lhes contavam e diziam que havia pro Ocidente um paraíso uma outra terra onde
mana leite e mel açúcar e café e onde havia também florestas colossais e uma
montanha toda de ouro outra de prata e uma serra todinha de esmeralda o Jardim
do Éden uma terra mágica e linda chamada Hy Brasil e eles acreditaram nisso
tudo feito loucos pois a fome era muita e a bolacha era pouca e as Índias
estavam muito longe mesmo e era arriscado e chato e a viagem comprida e só
tinha barbado a bordo e o mar estava cheio de piratas e eles estavam doidos pra
encontrar e descobrir índias lindas com vergonhas sem culpas e pinturas nas
caras e melhor se já vierem sem roupas descascadas prontinhas como vieram ao
mundo ao natural e evitando as calmarias e as tormentas por ordem do rei e de
Poseidon eles foram em frente e de repente encontraram a linda Pindorama
Este é em homenagem a
Luís Vaz de Camões
O
grande pensador do macro e do micro
Para os povos lusófonos e para toda a civilização
Latino
glótica e mesmo para as gentes
De
idioma bárbaro ou além do indoeuropeu
Luís
Vaz Camões foi um homem forte
Que
viveu e amou muito e lutou pelo mundo
E
por seu mundo interior na Europa e na África
Nas
Índias e nas ilhas e enfrentou a fúria do mar
E
naufragou e soube se salvar e salvar sua arte
Foi
o grande forjador do idioma que falo
E
no qual escrevo os meus atuais poemas
Do
micro e do macro navegando sobre as novas
Ondas
que são as mesmas e são outras com
As
naves que lhes cabem e seguindo
A
constelação que nos guia vou em frente
Simples
marujo desta nau sem rumo
Buscando
o ouro das Índias do presente
Descobrindo
as Novas Terras do futuro
Anexo 3: O Pequeno
Caderno
de Eliane Colchete
- escrito em 1987
- Janelas
ônibus superlotado atropelando
bêbados
caos urbano em cidade fantasma
bombas promessas erógenas de paz
-
Meu jardim
pétalas abertas na solidão do dia
terra fofa, céu azul
futuro mar de algas juvenis
É só no olho o cristal do encontro
A imensa esfera da eternidade
- Abismo sobre Abismo
Um tom qualquer de existência
torneira aberta
lavando pisos
Quero igrejas sem sinos
Terrível
é todo dia que permanece
Não existe glória em não querer
Se torturada,
toda mente
névoa
Talvez ninguém saiba existir
- O Apocalipse
Astros imensos perdidos
imensos espaços
O pio da coruja
Controle do nada
Aperto de mão
minha cabeça tomba na cor.
Aquarela Brasileira.
- Tristes Recordações
As balas esperam atrás da porta:
campainhas, meu amor
que todas as vozes distantes
formaram um coral de mar
Insetos eletrônicos?
Aberto o caminho da areia
o navio é apenas afresco
Nunca mais poderei distinguir os
sons.
-
Delicada corda Bamba
Voltar um passo atrás
Alguma coisa explodiu
no ar
Uma nuvem de talco
sapatilhas acesas na luz
A vida do equilibrista
não tem dimensões de cor.
- Revolution
Cacos perdidos
vidros vazios
infâncias mórbidas adornam
as vitrines das lojas de Natal
Não haverá fantasma a perseguir-me
Eu já matei a ambiguidade
As ilusões ressecam
feito um planalto central
Meus cinco mil Vietnãs
- Quem já viu a Noite?
É um túnel de estrelas
farol de prazeres
entre fatos concretos
e montanhas enormes
Um suave gosto de solidão
Outro mundo desabitado
Onde
Sinfonias perpétuas se fazem ouvir
- Microfísica
Quebrar a luz diante do espelho
isso não é coisa normal
A física é uma ciência complexa,
usina,
nuclear.
Atarefada andei pela cidade
nada há para encontrar
(exceto postos de gasolina
abertos domingo de manhã)
E tudo era tão emocionante
foi uma cambalhota no ar
rajadas de metralhadora
no passeio público
Amar.
Amar.
Amar.
- Sobre a estante
Gritos na noite
pote de jóias atraindo
meu olhar
O acaso produz
motivos e combinações
Atrás de um grande homem
não há nada.
Vinte mil léguas submarinas
para um homem navegar
e o cavalo é o símbolo
da força
O pote fechado
hermético
Meu corpo compactua
No fim serei só um olhar.
-
Distúrbios Onomatopaicos
Surpresas inacreditáveis!
A tarde na cidade
cai de forma desconhecida
e nem mesmo os moleques
saberiam o endereço procurado
Segurei sua mão
no meio do caminho
Você esqueceu o anel,
Agora eu ando
à procura de florestas imensas.
- Registro de Ocorrência
Não comentem o filme
do cinema
O choque me aperta
e o tremor me suspende
(o espaço abriu uma fenda)
chiclete com Banana
ou um almoço no Ritz.
-
Dedicatória
para o Sr. X
(L. C.)
Quando você declarou o sorriso
estive perdida em dunas
andando ao sol.
Aí está o tempo
para me desmentir
e tudo o que eu tenho
São dois olhos que viajam
pelo mar.
Mesmo assim
o sentimento é uma gota
de orvalho numa pétala de cor.
-
Caos agônico
Uma esfera perfeita
contemplando o espaço do ar
Acreditei em você muitas vezes
todo o mundo deseja
um fã-clube internacional
Não gosto de telas equilibradas
Por isso me despedi para sempre
e não saí.
-
Auroras
tua pele
me arranca um silêncio
e eu preciso falar
para esquecer
Quando acordo, teu corpo
estava ao lado do meu
Não sei como
esconder esse olhar
No entanto
os dramas de amor
são todos iguais
A TV só atualiza
títulos
trilhas sonoras
e comerciais.
- Tarde de Verão
A porta estava
aberta, abrupta, absurda
O caos era
imenso, intenso, incêndio
Saí na rua
tranquila, translúcida, transporte
Acordei lírica no ponto final.
-
Rush
Toda ponte adquire
um ar de saudade quando anoitece
e o mundo se distancia
numa lentidão enervante
O pedágio impotente sinaliza em
vão
Toda ponte nunca existiu
só a paisagem foi ilusão.
- A História da Precisão
Científica
Venceram todos os gênios maus
tentando com bocejos ganhar a vida
perdi todos os bilhetes
e voltei do aeroporto
desiludida com o nada
Estendo a dor na varanda
na hora em que está sol
e utilizo poesia
da forma menos canalha possível.
- Castelos no Ar
Tenho todos os motivos para chorar
mas é verão e o céu está limpo
provocarei orgasmos para passar o
tempo
e nem assim vou me sentir de todo
triste
Alguma coisa aconteceu
como se a mudança de uma célula
no organismo de qualquer borboleta
provocasse em mim uma tremenda dor
de cabeça
Eu uso imagens
como quem escuta discos.
- Just Like
Olhar o teu rosto de luzes acesas
dormir no teu corpo branco lençol
acordar nos teus olhos rindo da
noite
sentir teus cabelos dourados no
mar
Meu amor enxerga o mundo
na palma esquerda da tua mão
e tua boca é só beijo
só beijo e nada
nada mais.
-
Nada Demais
Não, nada
pode acordar o pavio de
pólvora no barril
seco desses trópicos
loucos
E ver-se cercado de sombras
no meio da noite manto
de estrelas e cantores
negros
Pelo reino outro hemisfério
ou mata atlântica
perdida num oco de
tempo
Tudo louco, negro tempo
Fumaça em câmera lenta.
- Vésperas
Uma vez era noite
e a terra estava úmida
premiando pedras com imagens
fugazes
escorrendo azeite de poderosas
nutrizes
sorvendo o leite de vigorosos
caules
folhas verdejam seus amores
secretos
Uma vez era dia
da Independência e tambores
ruflavam cachorros e soldados
na rua
- Mas há dias que estou assim
O pato leva no bico
a minhoca é levada pelo pato
A pata do pato coça
e o pato corresponde
a minhoca na corrida
passa na passagem da goela do pato
se espreme na goela do pato
engasga na goela do pato
e o pato devora a fome da minhoca
II -
-
O dom da profecia
ver de frente aqui e ali
deslizando e nadando
caminhando pela cachoeira
saltos e passos precisos
Querida torneira
no cimento de azulejo
Níveis das Águas
cânticos, passeios
Imagens
padrões de temperatura
Tudo isso pode ser visto
pela fresta do Infinito
que desliza pela bica
quando se abre a torneira
numa espécie de limpeza
O outro lado, além do infinito
É quando te encontro
Em meus pensamentos.
- O
Mogbeg
O tapete mágico
destacou-se do solo
e voa como um pássaro
Pássaro. Serpente
O Homem nasceu dessa união
como se fosse uma metamorfose
permanente ou uma linha
ondulante e quente
O mogbeg
vem da Babilônia
o mogbeg canta,
adivinha, dança
E viaja pelo tempo
No tapete do presente
O mogbeg é um
Mago
- Pássaros na Ilha
Vou fundo no olho do mundo
Se tudo durar um segundo
Ainda assim será vivido
Essa visão que eu hei tido
Eu contigo, você comigo
A vida feita só perigo
Ainda assim correrei o risco
desse imenso passadismo
Avante agora, ou então, vamos lá
Eu conheço esse olhar que me toca
e sempre um pouco me sufoca
sugestões e promessas do mar
Tudo me vem desse olhar
-
Pombo além do pôr do sol
A fim de ver havia
uma grande combinação por toda
parte
até onde iam os telhados
os grandes pássaros prosseguiam
depois era como se o mundo se
acabasse
É tão triste ver um pombo voltar
porque o pombal é triste
bem mais triste que a mata
à noite, tão triste
E tão fremente quanto uma gota
Eu gostaria que ele voasse
Muito além do pôr do sol
Eu gostaria que ele chegasse
Na manhã, mas ela está além
Sempre além do pôr do sol
E a manhã é tão fugidia...
- All Right
Lovely
songs we sing the beauty
colours
of Sun
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alchemiam pertinentium thesaurus instructissimus: quo non tantum Artis
Auriferæ, ac scriptorum in ea nobiliorum historia traditur; lapidis veritas
argumentis & experimentis innumeris, immo & juris consultorum judiciis
evincitur; termini obscuriores explicantur; cautiones contra impostores, &
difficultates in tinctura universali conficienda occurrentes, declarantur: Verum
etiam tractatus omnes virorum celebriorum, qui in magno sudarunt elixyre,
quique ab ipso Hermete, ut dicitur, Trismegisto, ad nostra usque tempora de
Chrysopoæ scripserunt, cum præcipuis suis commentariis, concinno ordine
dispositi exhibentur. Ad quorum omnium illustrationem additæ sunt quamplurimæ
figuræ æneæ. Duobus tomis comprehensa. Genevae:
Sumptibus Chouet, G. de Tournes, Cramer, Parachon, Ritter, & de Tournes,
1702.
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Bibliotheca Pharmaceutico-medica; Seu Rerum ad Pharmaciam
Galenico-Chymicam spectantium Thesaurus Refertissimus: In quo, Ordine Alphabetico non
Omnis tantum Materia Medica Historice, Physice, Chymice ac Anatomice explicata;
sed & Celebriores quaeque Compositiones, Tum Ex Omnibus Dispensatoriis
Pharmaceuticis, variis hactenus Linguis in lucem editis, tum e melioris notae
Scriptoribus Practicis excerptae: cum indicibus et figuris Aeneis necessareiis.
2
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![]()
[1] FULCANELLI. As Mansões Filosofais. Trad. António Last e António Lopes Ribeiro.
Lisboa: Edições 70, 1977, “A salamandra de Lisieux V”, p. 165.
[2] “Elementos cisurânicos são
todos os elementos artificiais que apresentam número atômico menor que 92
(acima desse valor são os artificiais denominados transurânicos). Eles são: -
Tecnécio: sigla Tc, número atômico 43; Promécio: sigla Pm, número atômico 61;
Astato: sigla At, número atômico 85; Frâncio: sigla Fr, número atômico 87”, in https://mundoeducacao.uol.com.br/quimica/elementos-cisuranicos.htm.
“A
Tabela Periódica apresenta um total de 118 elementos
químicos. Todavia, desses elementos, apenas alguns podem ser classificados
como transurânicos,
isto é, elementos artificiais que apresentam número atômico (Z) maior do que
92.
O
urânio é o elemento químico natural de maior número atômico. Assim, qualquer
elemento químico que apresente número atômico superior ao do urânio não pode
ser encontrado na natureza, ou seja, tem que ser produzido pelo ser humano em
laboratório. Esse é o caso dos elementos transurânicos.
(Adaptação
da lista que está no site: Elemento, sigla, número atômico: Netúnio, Np, 93;
Plutônio, Pu, 94; Amerício, Am, 95; Cúrio, Cm, 96; Berquélio, Kk, 97;
Califórnio, Cf, 98; Einstênio, Es, 99; Férmio, Fm, 100; Mendelévio, Md, 101;
Nobélio, No, 102; Laurêncio, Lr, 103; Rutherfórdio, Rf, 104; Dúbnio, Db, 105;
Seabórgio, Sg, 106; Bóhrio, Bh, 107; Hássio, Hs, 108; Meitnério, Mt, 109;
Darmstadtio, Ds, 110; Reontgênio, Rg, 111; Un-un-bium, Uub, 112; Un-un-trium,
Uut, 113; Un-un-quadium, Uuq, 114; Un-un-pentium, Uup, 115; Un-un-hexium, Uuh,
116; Un-un-setium, Uus, 117; Un-un-octium, Uuo, 118.)
A
criação de novos elementos foi realizada porque alguns cientistas acreditavam
que seria possível produzir em laboratório, além de átomos dos elementos
encontrados na natureza, outros que não existiam naturalmente, principalmente
porque alguns estudiosos haviam previsto teoricamente a existência de vários
elementos na tabela que nunca foram encontrados na natureza.
Em
1934, Marie Curie e Frederic Joliot realizaram um experimento radioativo por
meio de uma lâmina de alumínio e um preparado de polônio. Esse fato permitiu
que os cientistas Fermi e Segre, em 1938, tivessem a condição experimental para
tentar criar elementos químicos por intermédio do bombardeamento de núcleos com
prótons”, in https://www.manualdaquimica.com/quimica-geral/elementos-transuranicos.htm.
[3] BACHELARD, Gaston. Epistemologia. Trechos escolhidos. 2 ed.
Trad. Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, p. 68 e ss.
[4] In in
https://www.dicionarioinformal.com.br/transracional/.
[5] BERGSON, Henri. Matéria e Memória.
Trad. Paulo Neves da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 133.
[6] “Concomitar - V.
tr. || (p. us.) produzir-se ao mesmo tempo, acompanhar, ser concomitante. F. Concomitar”, in https://www.aulete.com.br/concomitar.
[7] Alguns dos
textos alquímicos de Isaac Newton estão transcritos no site The Newton Project,
na página Introducing Newton’s Alchemical Papers, in https://www.newtonproject.ox.ac.uk/texts/newtons-works/alchemical.
[8] ULPIANO, Cláudio. Do Saber em Platão e do Sentido nos Estoicos
como Reversão do Platonismo. Dissertação apresentada ao Departamento de
Filosofia por Cláudio Ulpiano Santos Nogueira Itagiba, como requisito à
obtenção do Grau de Mestre em Filosofia. Orientador: Professora Dra. Creusa
Capalbo. UFRJ, IFCS, 1983.
______. O Pensamento de Deleuze ou a Grande Aventura
do Espírito. Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de Filosofia do
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas,
sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Benedito Lacerda Orlandi, Unicamp, 1998.
[9] PLATÃO. Timeu e Crítias ou a Atlântida. Trad. Norberto de Paula Lima. São
Paulo: Hemus, 1981, p. 7-53.
[10] MORAIS
JUNIOR¸Luis Carlos de. Natureza Viva.
Rio de Janeiro: Quártica, 2012, p. 19.
[11] ANDRADE, Oswald
de. A Antropofagia como visão de mundo.
A infabilidade do erro, in Diário
Confessional. Org. Manuel da Costa Pinto. São Paulo: Companhia das Letras,
2022, p. 512.
[12] ______. falação,
Pau-Brasil, in Poesias Reunidas. 4 ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1974, p. 77.
[13] MICHELSPACHER, Stephan. Cabala, Speculum Artis et Naturae in Alchymia (Cabala:
Spiegel der Kunst und Natur in Alchymia – Cabala: Espelho da Arte e da Natureza na Alquimia). Dresden, 1615. Prancha 3.
[14] SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha. Madrid: imprenta
de Juan de la Cuesta, 1605.
Este
livro tem seu duplo; entre o primeiro e o aguardado segundo volume escritos por
Cervantes, surge uma obra replicante, querendo ser a “verdadeira” história do
homem de la Mancha: AVELLANEDA, Alonso Fernández de. Segundo tomo del ingenioso hidalgo
don Quijote de la Mancha. Barcelona: Librería científico-literariaToledano
López, 1614.
[15] WEBER, Robert;
GRISON, Roger (praep.). Biblia Sacra
Vulgata. Editio quinta. Stuttgart: Deutsche
Bibelgesellschaft, 2007, p. 5.
[16] Gên 1:27,28. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus,
2019, p. 34-5.
[17] CASTELOT, F.
Jollivet. Comment on devient Alchimiste;
traité d’hermetisme et d’art spagyrique basé sur les clefs du tarot (quatre
portraits et de nombreuses figures). Paris: Azoth, Édition de L’Hyperchimie,
Chamuel Éditeur, 1897, folha de rosto.
[18] FULCANELLI. As Mansões Filosofais. Trad. António
Last e António Lopes Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1977, p. 96.
[19] LICHT, Friedrich Von. El Fuego
Secreto, versão eletrônica, p. 27, traduzido. Fiz muitas pesquisas sobre Friedrich von Licht, mas
não consegui descobrir nada sobre ele, a não ser alguns textos. Suas obras só
se encontram por enquanto na internet e em espanhol, por isso suponho que seu
nome não se deve à nacionalidade germânica, e é um nome hermético, que
significa “Rei pacífico da luz”.
[20] DELEUZE, Gilles. Diferença e
Repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal,
1988, Capítulo IV Síntese ideal da diferença, seção: A ilusão do negativo, p.
325 e ss.
[21]
CLEÓPATRA, Crisopea. In EVOLA, Julius. A
Tradição Hermética.
Trad. Maria Teresa Simões. Lisboa: Edições 70, 1979, p. 36. Evola referencia: Códice Marciano, Ms. 2325, f. 188 b; e Ms. 2327, f. 196.
[22] SHAKESPEARE, William. Hamlet; prince of Denmark. Act I, scene V. Complete
works. Oxford:
Wordsworth Editions, 2007, p. 679.
[23] GAROZZO,
Filippo. Gregório Mendel. Coleção Os Homens que Mudaram a Humanidade. V.
18. Rio de Janeiro: Editora Três, 1975, p. 92. Filippo Garozzo é com certeza um
dos maiores escritores brasileiros, tendo nascido na Itália, e renascido in Brasil, realizando, na década de 70,
26 livros desta coleção (que tem 30 volumes, quatro foram escritos por outros
autores), pela Editora Três, e, depois, os livros Contos de Sábado à Tarde
(2005), Contos de São Paulo (2006) e Contos do Outro Lado (2007),
pela Editora Cultura.
[24] Neste livro
trabalho com os dois conceitos, essência e excência, que aparecem mesclados
pelo texto, correspondendo cada um ao seu significado já expresso.
[25]
AGRIPPA, Cornelio. Filosofía Oculta.
2 ed. Trad. Hector V. Morel. Buenos
Aires: Kier, 1982, p.22, tradução minha.
[26] OVÍDIO. Metamorfoses. Ed. bilíngue. 2ª
reimpressão. Trad. Domingos Lucas Dias. São Paulo: 34, 2021, p. 812.
[27] IBN ‘ARABȊ. A Alquimia da Felicidade Perfeita. Trad.
Roberto Ahmad Cattani. São Paulo: Landy, 2002, p. 59-60.
[28] CASTELOT, F.
Jollivet. Comment on Devient Alchimiste;
traité d’hermetisme et d’art spagyrique basé sur les clefs du tarot (quatre
portraits et de nombreuses figures). Préface de Papus. Paris: Azoth, Édition de
L’Hyperchimie, Chamuel Éditeur, 1897. Leia esse livro, cujo título pode ser
traduzido em português: Como alguém se torna Alquimista.
[29] Mutus Liber. O livro
mudo da Alquimia; ensaio introdutório, comentários e notas José Jorge de
Carvalho. São Paulo: Attar Editorial, 1995, p 64-65.
[30] MASCUÑANA, Luis Silva. Alquimia tras la Piedra Filosofal. Madrid: Glyphos, 2012, p. 58-59, my translation.
[31] FREI JHONES
LUCAS. A Ciência Infusa Preternatural,
in https://conexaofraterna.com.br/2021/08/27/a-ciencia-infusa-preternatural/.
[32] D’AURACH, Georges. Le
très-précieux Don de Dieu. Transcrit, présenté et annoté par Eugène Canseliet,
disponível in
http://www.labirintoermetico.com/01alchimia/Aurach_G_Le_tres_precieux_Don_de_Dieu_(comm.Canseliet).pdf.
[33] Mateus 7: 7,8. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus,
2019, p. 1715.
[34] VALOIS, Nicolas. Les Cinq Livres ou La Clef Du Secret des Secrets. Précédé de GROSPARMY, Nicolas. Le Tresor des Tresors. Bibliotheca Hermetica. Introduction, glossaire et notes bibliographiques de Bernard Roger. Paris: Retz, 1975: “La patience est l’échelle des philosophes et l’humilité la porte de leur jardin; car quiconque persévérera sans orgueil et sans envie, Dieu lui fera miséricorde”.
Também
citado por FULCANELLI. O Mistério das
Catedrais. Trad. António Carvalho. Lisboa: Edições 70, 1986, Notre Dame de
Paris. p. 81-82.
[35]
MATTON, Sylvain. Variations alchimiques
sur le symbole et le mythe du labyrinth, in BATSDORF. Le Filet
d’Ariadne. Fac símile do original
1695. Alençon: Bailly, 1984, p. V-XXVII.
[36] ALBERTO, Mestre.
De Alchimia, apud SADOUL, Jacques. O
Tesouro dos Alquimistas. Trad. Rachel de Andrade. São Paulo: Hemus, 1970,
p. 66.
[37] DIEGUEZ, Flávio. “A Mecânica do Universo – A semelhança das
forças fundamentais revela a profunda harmonia que mesmo os antigos já
percebiam no Cosmo. O trabalho da física é tentar entender melhor essa
harmonia”. Revista Ciência Ilustrada, São Paulo: Abril Cultural, n° 16, Janeiro
de 1984, p. 12-14: “O físico americano Sheldon Glashow usou um antigo símbolo
cosmológico – a serpente – para ilustrar as distâncias características das
forças fundamentais. A gravidade age em qualquer escala, mas é dominante em
coisas grandes como as galáxias. Em objetos como as montanhas, a força
eletromagnética se torna importante. No núcleo atômico, as forças nucleares,
fraca e forte, dominam. Nessa região atuam as partículas W e Z. As distâncias
estão em centímetros. Acima de 10-30 cm todas as forças se tornam
equivalentes”. Coloquei essa imagem no começo e na contracapa de O Olho do Ciclope e os Novos Antropófagos: antropofagia
cinematótica na literatura brasileira. Rio de Janeiro: Quártica, 2009.
[38] VITÓRIO, Adão de São, in KEHREIN, Joseph (herausgegeben von). Lateinische Sequenzen des Mittelalters; aus
Handschriften und Drucken. De sancto Ioanne Ev. Auctor est Adam de S. Victore. (KEHREIN,
Joseph, editor. Sequências Latinas Medievais; a partir de manuscritos e gravuras. Na véspera de São
João. O autor é Adão
de São Vitório).
Mainz: Druck und Verlag von (impressão e publicação por) Florian Kupferberg,
1873, p. 289. Esse livro completo pode ser
encontrado no Arquive.org no endereço: http://archive.org/stream/lateinischesequ00kehrgoog/lateinischesequ00kehrgoog_djvu.txt.
Os versos em latim:
“Cum gemmarum partes fractas/Solidasset, has distractas/Tribuit pauperibus:/Inexhaustum fert thesaurum/Qui de virgis
fecit aurum/Gemmas de lapidibus”.
Ver também: ATWOOD, Mary Anne. Hermetic Philosophy & Alchemy: a Suggestive
Inquiry into the Hermetic Mystery. Revised Edition, with an Introduction by Walter L.
Wilmhurst. Library of Congress. New
York: Julian Press, 1960. Sua nota a esta citação reza: “See Alexander Beauvais
in Speculo Naturali”. Sobre Adão de São Vitório, ver:
https://stringfixer.com/pt/Adam_of_Saint_Victor.
[39] Surfista de
ondas grandes, de cinco metros p’ra cima.
[40] Trois Traitez
de la Philosophie Naturelle Non Encore Imprimez: Scavoir le Secret Livre du
Très Ancien Philosophe Artephius, Traitant de l‘Art Occulte Transmutation
Metallique, Latin François; Plus les Figures Hierogliphiques de Nicolas Flamel
Ensemble le Vrai Livre du Docte Synesius Abbé Grec. Paris: Guillaume Marrete, 1612.
[41] HEALY,
Margaret. Shakespeare, Alchemy and the
Creative Imagination: The Sonnets and A Lover’s Complaint. Cambrigde:
Cambridge University Press, 2011.
[42]
MATEUS, Ana Cristina Gonçalves. Ocultismo
e esoterismo na obra de William Shakespeare: Hamlet, The Tempest e The Winter’s
Tale. Dissertação
de Mestrado em Estudos Ingleses. Orientação Professora Doutora Maria de Jesus
Crespo Candeis Relvas. Lisboa: Universidade Aberta, 2006, in https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/445
[43] The Shakespeare blog: Shakespeare and the Alchemistis, in
http://theshakespeareblog.com/2014/06/shakespeare-and-the-alchemists/,
[44] SHAKESPEARE. Teatro
Completo. Três volumes: Comédias,
Dramas, Tragédias. Trad. Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Tecnoprint, /s.
d./.
[45] HOMERO. Ilíada. Trad. Manuel Odorico Mendes. Rio de Janeiro: Clássicos de
Jackson, 1950.
______. Odisseia. Trad. Manuel Odorico Mendes. São Paulo: Principis, 2020.
VIRGILIO. Virgilio brasileiro (Bucólicas, Geórgicas
e Eneida). Trad. Manuel Odorico
Mendes. Paris: W. Remquet e Companhia, 1858.
______. Geórgicas. Eneida. Trad.
António Feliciano de Castilho e Manuel Odorico Mendes. São Paulo: Jackson,
1960.
[46] NUNES, Carlos Alberto. Os Brasileidas. São Paulo: Melhoramentos, 1962. Edições anteriores:
São Paulo Editora, 1931; Editora
Elvino Pocai, 1938.
[47] OLIVEIRA, José
Carlos. Diário da Patetocracia.
Crônicas brasileiras 1968. Rio de Janeiro: Graphai, 1995, p. 181-2.
[48] RODRIX, Z. O Cozinheiro do Rei: As aventuras e desventuras de Pedro Karaí
Raposo, entre o Rio de Contas e a Corte de 1773 e 1823. São Paulo: Madras,
2013, p. 474.
Ver tb: ______. Johaben: diário de um construtor do Templo. Trilogia
do Templo, volume 1. Rio de Janeiro: Record, 2005.
______. Zorobabel: reconstruindo o Templo. Trilogia do Templo, volume 2. Rio de
Janeiro: Record, 2005.
______. Esquin de Floyrac: o fim do Templo. Trilogia do Templo, volume 3. Rio de Janeiro:
Record, 2005.
[49] MORAIS JUNIOR,
Luis Carlos de. O Sol nasceu pra Todos: a
História Secreta do Samba. Rio de Janeiro: Litteris, 2011, p. 82 e ss.
[50] O Pasquim de 11/7/1972 comete a mesma
transliteração.
[51] FULCANELLI. Finis Gloriæ Mundi; ou a transformação
alquímica do mundo. Trad. Gilson César Cardoso de Sousa. São Paulo: Pensamento,
2008.
[52] TOM ZÉ. Todos os
Olhos. Continental, 1973.
[53] O Pasquim, número 169, 26/9 a 2/10/1972,
p. 10-11.
[54] TOM ZÉ; ELTON
MEDEIROS. Tô. Lp Estudando o Samba.
Continental, 1976.
[55] NOEL ROSA; VADICO. Feitio de oração. Samba gravado por
Francisco Alves e Castro Barbosa acompanhados pela Orquestra Copacabana, em
1933, pela gravadora Odeon.
[56] BUKOWSKI,
Charles. Shakespeare never did this.
Photographs by Michael Montfort. Santa Rosa: Black Sparrow Press, 1995.
[57] Mateus 3: 11. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus,
2019, p. 1707.
“Ego
quidem vos baptizo in aqua in paenitentiam/qui autem post me venturus est
fortior me/cuius non sum dignus calciamenta portare/ipse vos baptizabit in Spiritu
Sancto et igni” in Secundum Mattheum
3: 11. WEBER, Robert; GRISON, Roger (praep.). Biblia Sacra Vulgata. Editio quinta. Stuttgart: Deutsche
Bibelgesellschaft, 2007, p. 1592.
[58] MORAIS JUNIOR, Lui Carlos de.
“Soneto 7”, in Carlos Castaneda e a Fresta entre os Mundos – Vislumbres da
Filosofia Ānahuacah no Século 21. Rio de Janeiro: Litteris, 2012, p. 7.
[59] CARAÇA, Bento de
Jesus. Conceitos Fundamentais da Matemática. Lisboa: Tipografia
Matemática, 1951. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1984, p. 6.
[60] “Nas décadas de 1960 e 1970, a pessoa que apresentava
problemas psiquiátricos e se tornava incapaz de trabalhar, poderia se aposentar
com base no Artigo 22 da CLT
(Consolidação das Leis de Trabalho) da época. Daí dizer-se: ‘aquele sujeito
é 22’”, in https://www.dicionarioinformal.com.br/22/.
[61] “Em cores diversas e diferentes; matizado,
pintalgado. Repleto de diversidade; diferente, diversificado”, in https://www.dicio.com.br/variegado/.
[62] https://pt.wikipedia.org/wiki/
Cristóvão_da_Lícia, baseado nos sites: http://catholicsaints.info/saint-christopher/,
https://www.catholic.org/saints/saint.php?saint_id=36,
https://www.newadvent.org/cathen/03728a.htm.
[63] SAMS, Jamie. As Cartas do Caminho Sagrado; a
descoberta do ser através dos ensinamentos dos índios norte-americanos. 6 ed.
Trad. Fabio Fernandes. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, pp. 199/200.
[64] Bible. The Old
Testament. Interlinear Greek-English, in https://www.pdfdrive.com/interlinear-greek-english-septuagint-old-testament-d157762781.html.
[65] Na tradução de DATTLER,
Frederico. Gênesis; texto e
comentário. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 23.
[66]
https://www.gnosisonline.org/luz-negra/.
[67]
MASCUÑANA, Luis Silva. Alquimia tras la
Piedra Filosofal. Madrid: Glyphos, 2012, p. 22, mi traducción.
[68] Geheime Figuren der Rosenkreuzer aus dem 16ten und 17ten
Jahrhundert
(Figuras secretas dos Rosacruzes dos
séculos XVI e XVII). Altona: J. D. A. Eckhardt, 1785, p. 15.
Gravura em cobre, colorida.
[69] HERMES
TRISMEGISTO. La Tabla de Esmeralda.
HORTULANO. Comentarios a la Tabla de
Esmeralda. FULCANELLI. La Tabla de
Esmeralda. Org. Miguel Algel Muñoz Moya. Madrid: Mestas, 1997, p. 45 e nota
31: Viridarium Chymicum. Muñoz Moyaeditores.
Sevilla, 1986.
[70] DELEUZE, Gilles. A
Dobra. Trad. Luiz B.
L. Orlandi. Campinas:
São Paulo: Papirus, 1991.
[71] ZALBIDEA,
Victor; PANIAGUA, Victoria; FERNANDEZ DE CERRO, Elena; AMO, Casto del. Alquimia y Ocultismo. Barcelona: Barral,
1973, p. 25.
[72] BERTHELOT,
Marcelin. Collection des Anciens Alchimistes Grecs. Paris: Georges Steinheil, 1888, Vol. I, p. 119, 127-174, 209, 250;
vol. II, p. 28, 117-120; Vol. III, p. 117-242.
[73] CÁRDENAS, Carlos. Artigo sobre Zósimo de Panópolis, in
Alquimistas Modernos, de Carlos Cardenas, Alejandro Romero, Jennyfer Lopez y Santiago Godinez,
https://expertosenalquimia.wordpress.com/2016/04/05/zosimo-de-panopolis/.
[74] HOMERO. Ilíada. Trad. Haroldo de Campos. 2 vol. 3 ed. São Paulo: Arx, 2002.
______. Odisseia. Trad. Trajano Vieira. São Paulo: 34, 2011.
[75] HESÍODO. Teogonia. Trad. Ana Lúcia Silveira Cerqueira e Maria Therezinha
Arêas Lyra. Niterói: UFF, 1977.
______. Os Trabalhos e os Dias. Trad. Mary de Camargo Neves Lafer. 3 ed.
São Paulo: Iluminuras, 1996.
[76] PENA FILHO,
Carlos. Livro Geral. Org. Tania
Carneiro Leão. Recife: edição da organizadora, 1999.
COUTINHO,
Edilberto. O Livro de Carlos. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1983.
[77] MELO NETO, João Cabral de. Poesia completa. 2 vol. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1997.
[78]
GULLAR, Ferreira. Poesia Completa, teatro
e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008.
[79] ALBANO, José. Rimas. Org. Manuel Bandeira. 3 ed. Rio
de Janeiro: Graphia, 1993.
[80] OVÍDIO. Metamorfoses. Ed. bilíngue. 2ª
reimpressão. Trad. Domingos Lucas Dias. São Paulo: 34, 2021.
[81] APULEIO. O Asno de Ouro. Trad. Ruth Guimarães. São Paulo: Cultrix, 1963.
[82] SANTO AGOSTINHO.
A Cidade de Deus. Parte III. 2 ed.
Trad. J. Dias Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2000, Livro XVIII, Capítulo
XVIII, p. 1739-1740.
[83] WILHELM,
Richard. I Ching; o livro das
mutações. 16 ed. Trad. Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São
Paulo: Pensamento, 1997, p. XI.
[84] Apud LEGGE, James. I Ching; o livro das mutações. 18 ed. Supervisão: Torrieri
Guimarães. Coordenação editorial: Maxim Behar. São Paulo: Hemus, 2004, p. 8.
[85] LAO-TZU. Tao-te King. Texto e comentário de Richard
Wilhelm. Trad. Margit Martincic. 10 ed. São Paulo: Pensamento, 1995, p. 57.
[86] Liga de cobre e zinco que imita o ouro; ouro falso.
[87] Liga metálica de cobre, de cor amarela, que imita ouro;
alquime.
[88] RAUL SEIXAS.
Compacto Ouro de tolo, Philips, 1973,
e faixa do LP Krig-há, Bandolo,
mesmos gravadora e ano.
[89] Desenho que fiz reproduzindo o
grafite que vimos com esta inscrição em um muro da cidade de São Paulo em 1990,
e que coloquei no começo do meu livro Proteu
ou a arte das transmutações; leituras, audições e visões da obra de Jorge
Mautner. Rio de Janeiro: HP Comunicação, 2004, p. 9. Proteu é minha
dissertação de mestrado em Literatura Brasileira pela UFRJ, defendida em 1993; O
olho do Ciclope é minha tese de doutorado em Ciência da Literatura pela
UFRJ, defendida em 1997.
[90] LICHT, Friedrich Von. El Fuego
Secreto, versão eletrônica, p. 27.
[91] Veja a importância que lhe
atribui ao seu trabalho este alquimista do século XX: BARBAULT, Armand. L‘Or du Millième Matin. Paris:
Publications Premières, 1969.
[92]
LEGGE, James. I Ching; o livro das mutações. 18 ed.
Supervisão: Torrieri Guimarães. Coordenação editorial: Maxim Behar. São Paulo:
Hemus, 2004, p. 53, 54 e 55.
[93] WILHELM,
Richard. I Ching; o livro das
mutações. 16 ed. Trad. Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São
Paulo: Pensamento, 1997, p. 29.
[94]
https://www.facebook.com/Jogo.Persona/.
[95] CAMPADELLO,
Roberto. I Ching – Steps – O Livro das
Mutações – O Jogo da Vida. 2 ed. São Paulo: Global Ground, 1985, p. 20-25.
[96] Idem, ibidem, p. 62, 63.
[97] ANTHONY, Carol K. A Filosofia do I Ching. Trad. Lia
Alverga-Wyler. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
[98]______. O Guia do I Ching. 3 ed. Trad. Luisa Ibañez. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1990, p. 308.
[99] MORAIS JUNIOR,
Luis Carlos de. Peças Leves. Inédito.
[100] ALBERTUS,
Frater. Guia Prático de Alquimia.
Trad Mário Muniz Ferreira. São Paulo: Pensamento, 1989, p. 17.
[101] BEN, Jorge. Lp A Tábua de Esmeralda. Philips, 1974.
[102] SADOUL, Jacques.
O Tesouro dos Alquimistas. Trad.
Rachel de Andrade. São Paulo: Hemus, 1970.
[103] CASTANEDA, Carlos. Tales of Power. London: Hodder
and Stoughton, 1975.
[104] MCCRUM, Robert “Who really wrote Shakespeare?”, 2010,
in
https://www.theguardian.com/culture/2010/mar/14/who-wrote-shakespeare-james-shapiro.
[105] SHAKESPEARE. Teatro Completo. 3 volumes: Comédias,
Dramas, Tragédias. Trad. Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Tecnoprint, /s.
d./.
______. Complete
Works. Oxford: Wordsworth Editions, 2007.
______. Sonnets.
The new temple Shakespeare. Edited by M. R. Ridley. London: J. M. Dent &
Sons, New York: E. P. Dutton, 1934.
[106] https://refugospontocom.blogspot.com/.
[107]
LAWLOR, Robert. Geometria Sagrada. Trad. Maria José Garcia Ripoll,
GVS. Madrid: Del Prado, 1996, p. 4-5.
[108] HOFFMAN, T. A.;
DUMAS, Alexandre. O Quebra Nozes. Trad. André Telles e Luís S.
Krausz. São Paulo: Zahar, 2018.
[109] DOYLE, Arthur
Conan. Sherlock Holmes. Volume 1.
Trad. Louiza Ibánez. Rio de Janeiro: HaperCollins, 2017, p. 20.
[110] As Novas Aventuras de Sherlock Holmes.
Org. Otto Penzler. 2 volumes. Trad. Maria Helena Rouanet e Celina Portocarrero.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018, p. 253-274.
[111] PAUWELS, Louis; BERGIER, Jacques.
O Despertar dos Mágicos; introdução
ao Realismo Fantástico. 7 ed. Trad. Gina de Freitas. São Paulo: Difusão
Europeia do Livro, 1971, A Alquimia como exemplo, p. 96.
[112] PLATÃO. Diálogos
II: Eutidemo. São Paulo: Edipro, 2007, p. 198-199, 288 d, 289 a, b.
[113] BLAVATSKY, Helena Petrovna. A Doutrina Secreta – síntese de ciência, filosofia e religião. 6
vol. 1 ed, 18 reimpressão. Trad. Raymundo Mendes Sobral. São Paulo: Pensamento,
2021, p. 20 e ss.
[114] PLATÃO. Timeu e Crítias ou a Atlântida. Trad.
Norberto de Paula Lima. São Paulo: Hemus, 1981, p. 94-95-99.
[115] MANN, A. T. Elementos do Tarô. Trad. Ângela Perez de
Sá. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995, p. sem número.
[116] DICTA e
FRANÇOISE. Mitos e Tarôs; a Viagem do
Mago. Trad. Maria Stela Gonçalves. 10 ed. São Paulo:
Pensamento, 1995, p. 10.
[117] MEBES, G. O. Os Arcanos Maiores do Tarô. Trad. Marta Pécher. São Paulo: Pensamento,
2007, p. 4. Ver tb: ______. Os Arcanos
Menores do Tarô. Trad. Marta Pécher. São Paulo: Pensamento, 2007.
[118] O Mago, Somos todos um: http://www.stum.com.br/testes/tarot/resultado.asp?i=1.
[119]
SHAKESPEARE, William. Hamlet; Prince
of Denmark. Act I, scene III. Complete Works. Oxford: Wordsworth Editions, 2007,
p. 676.
[120] LÉVI, Éliphas. Curso de Filosofia Oculta. 9 ed. Trad.
Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Pensamento, 1993, p. 19-21.
[121] ENIH GIL’EAD. Livro do Gênesis
completo e textos bíblicos seletos; interlinear Hebraico-Português. 2 ed.
Vianópolis: N.V.S.G., 2011, p. 1.
[122] LEGGE, James. I Ching; o livro das mutações. 18 ed.
Supervisão: Torrieri Guimarães. Coordenação editorial: Maxim Behar. São Paulo:
Hemus, 2004, p. 57.
[123] WILHELM, Richard. I Ching; o livro das mutações. 16 ed.
Trad. Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São Paulo:
Pensamento, 1997, p. 33.
[124]
BECCHERUS, Johannes Joachim. Physica
Subterranea Profundam Subterraneorum Genesis; e Principiis Hucusque
Ignotis, Ostendens; Opus Sine Pari, Primum Hactenus Et Princeps, Editio
Novissima; Præfatione Utili Præmissa, Indice Locupletissimo Adornato,
Sensuumque Et Rerum Distinctionibus, Libro Tersius Et Curatius Edendo, Operam
Navavit. Lipsiae: apud Johann Ludov, Gleditschim, anno MDCCIII (escrito em
1667), Praefatio autoris lectori benévolo, p. 3, 4.
[125]
https://todayinsci.com/QuotationsCategories/P_Cat/Pleasure-Quotations.htm.
[127] ANDRADE, Mário. O
Empalhador de Passarinho. 3 ed. São Paulo: Martins, 1972.
[128] ELIADE, Mircea. Ferreiros e Alquimistas. Trad. Roberto
Cortes de Lacerda. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 22.
[129] PETRINUS, Rubellus. Espagíria Alquímica. Joinville: Clube de Autores, 2019.
[130]
BARBAULT, Armand. L’Or du
Millième Matin. Paris: Publications Premières, 1969.
______. Gold of
a Thousand Mornings. Trad. Robin Camprell. London: Neville Spearman, 1975.
[131] ALBERTUS, Frater. Guia Prático de Alquimia. Trad Mário
Muniz Ferreira. São Paulo: Pensamento, 1989.
BARTLETT, Robert Allen. Real Alchemy; a Primer of Practical Alchemy. Quinquangle Press, 2006.
[132] FULCANELLI. As Mansões Filosofais. Trad. António
Last e António Lopes Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1977, nota à p. 66.
[133]
PANTHEUS, Ioanne Augustino. Voarchadumia
contra Alchimia ars distincta ab archimia et sophia: cum additionibus,
proportionibus numeris, & figuris opportunis. Paris: Veneunt apud
Viventium Gaultherot, via ad Diuum Jacobum, sub signo D. Martini, 1550.
______. Ars et Theoria
Transmutationis Mettalicae cum Voarchadumia, proportionibus, numeris, &
inconibus rei accommodis illustrata. Paris: Veneunt apud Viventium
Gaultherot, via ad Diuum Jacobum, sub signo D. Martini, 1566.
[134] DUBOIS, Geneviève. Fulcanelli and
the Alchemical Revival: the Man Behind the Mystery of the Cathedrals. Rochester: Destiny Books, 2005.
[135] FANNING, Philip
Ashley. Isaac Newton e a Transmutação da
Alquimia; uma visão alternativa da revolução científica. Trad. Fábio Lins
Leite. Santa Catarina: Danúbio, 2016, p. 28 e ss.
[136]
BATSDORF. Le Filet d’Ariadne. Fac símile do original 1695. Alençon: Bailly,
1984, Avertissement, p. xxxiv: “/.../ Les Chymistes mêmes se persuadent que
cette Science est de leur competence & non de celle d’autruy, voyans
solvente dans leurs Livres les termes de Sublimations,
Solutions, Dissolutions, Digestions, Calcinations, Imbibitions, Coagulations
& une infinite d’autres terms dont on se sert dans la Chymie.
Surquoy travaillans, ils ont fait cent broüilleries
qui n’ont rien produit que la confusion dans leurs esprits & de la dépense
inutile dans leurs Laboratoires, parce qu’ils on pris à la lettre les dites des
Philosophes qui doivet s’expliquer tou autrement /.../”
[137] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim
falou Zaratustra. 4 ed. Trad. Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1986, p. 34.
[138]
DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a Filosofia. Trad. Edmundo Fernandes Dias e Ruth
Joffily Dias. Rio de Janeiro: Rio, 1976.
[139] AGRIPPA, Cornelio. Filosofía Oculta. 2 ed. Trad. Hector V. Morel. Buenos Aires:
Kier, 1982, p. 189-200.
[140] In https://hi.wikipedia.org/wiki/सिद्धि.
[141] CAMÕES, Luís Vaz
de. Sonetos. São Paulo: Martin
Claret, 2011, Soneto 92, p. 104.
[142] PHANEG, G. Ciquante Merveilleux Secrets d’Alchimie.
Paris: Libraire Generale des Sciences Occultes, Bibliotheque Chacornac, 1912.
[143] COLCHETE, Eliane
Marques e MORAIS JUNIOR, Luis Carlos de. Abobrinhas
Requintadas. Rio de Janeiro: Quártica, 2011, p. 74.
[144] Anónimo. Ludus Puerorum o Tratado
intitulado Trabajo de Mujeres y Juego de
Niños, in https://qdoc.tips/anonimo-ludus-puerorum-pdf-free.html.
Ludus Puerorum ou Traité dit du Travail des Femmes et le Jeu des Enfants,
traduction faite du latin faite par
un auteur anonyme, in
https://docplayer.fr/141619616-Anonyme-ludus-puerorum-traite-dit-du-travail-des-femmes-et-le-jeu-des-enfants-traduction-faite-du-latin-faite-par-un-auteur-anonyme.html.
[145] GUERCIO, Maria Rita. “Da Alquimia
à Química: a representação dos alquimistas nas pinturas de gênero holandesas do
Século XVII (Coleção Eddleman and Fisher do Centro da História da Ciência da
Filadélfia)”. Khronos, Revista de História da Ciência, nº10, 2020, pp. 65-78, in http://revistas.usp.br/khronos.
SÁ, Roberto Novaes de. “Ludus
Puerorum: Aspectos da Tradição Alquímica”. Revista Tempo Brasileiro, 1988.
[146] Richard Brakenberg, An Alchemist’s
Workshop with Children Playing, oil on canvas, óleo sobre tela, 1670-1702,
Science History Institute, Philadelphia, in
https://digital.sciencehistory.org/works/ks65hc76p.
[147] TRISMOSIN,
Salomon. Le Toison d’Or ou Le Fleur des
Trésors. Editado por René Alleau. Paris: Retz, 1975, p. 112-115.
[148] In https://fr.wikipedia.org/wiki/Splendor_Solis,
tradução minha.
[149] DELEUZE,
Gilles e GUATTARI, Félix. Mille Plateaux. Paris:
Minuit, 1980, p. 284 e ss.
[150] HERÁCLITO. Os
fragmentos heraclíticos, in BERGE,
Damião. O Logos Heraclítico;
introdução ao estudo dos fragmentos. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do
Livro, 1969, p. 250-251; 258-259. Ver tb: Os
Pré-Socráticos. Os Pensadores. Trad. José Cavalcante de Souza (et al.). São Paulo: Abril Cultural,
1973, fragmento 52, p. 90. A explicação sobre Aión entre parêntesis é minha.
[151] NIETZSCHE,
Friedrich. Vontade de potência. Trad.
Mário Ferreira da Silva. Petrópolis:
Vozes, 2011, aforisma 385, p. 453-454.
[152]
RAMEY, Joshua. The Hermetic Deleuze;
Philosophy and Spiritual Ordeal. Durham: Duke University
Press, 2012.
______. Deleuze
Hermético; Filosofia y Prueba Espiritual. Trad. Juan Salzano. Ciudad
Autónoma de Buenos Aires: Las Cuarenta, 2016.
[153] DELEUZE, Gilles
e GUATTARI, Félix. Rizoma, introdução
de Mil Platôs; Capitalismo e
Esquizofrenia 2. Volume 1. Trad. Ana Lúcia de Oliveira et alii. São Paulo: 34, 1995, p. 19.
[154] LAO-TZU. Tao-te
King. Texto
e comentário de Richard Wilhelm. Trad. Margit Martincic. 10 ed. São Paulo:
Pensamento, 1995, p. 81.
[155] EVOLA, Julius. A Tradição hermética. Trad. Maria Teresa
Simões. Lisboa: Edições 70, 1979, p. 51.
La Tradizione Ermetica. 4 ed. Roma: Mediterranee, 2006, p. 62.
[156] FULCANELLI. As Mansões Filosofais. Trad. António
Last e António Lopes Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1977, p. 302-302. Em nota,
Fulcanelli explica: “Limitamo-nos a enumerar aqui os sucessivos estádios da
segunda Obra, sem os analisar especialmente. Grandes Adeptos, e particularmente
Filaleuto, no seu Introitus, levaram
muito longe esse estudo. As suas descrições reflectem tal consciência que seria
impossível dizermos nós mais ou dizê-lo melhor”.
[157] Cabala Mística: A Árvore da Vida (Sephiroth) in Aum Magic http://aumagic.blogspot.com/2014/03/cabala-mistica-arvore-da-vidasephirot.html.
Ver
tb. DICTA e FRANÇOISE. Mitos e tarôs;
a Viagem do Mago. Trad. Maria Stela Gonçalves. 10 ed. São Paulo:
Pensamento, 1995, p. 18 e ss.
[158] https://pt.wikipedia.org/wiki/Trigrama.
[159]
DELEUZE, Gilles. L‘Île déserte. Textes et Entretiens 1953-1974. Édition
préparée par David Lapoujade. Paris: Les Éditions de Minuit, 2002.
______. Deux Régimes de Fous. Textes et
Entretiens 1975-1995. Édition préparée par
David Lapoujade. Paris: Les Éditions de Minuit, 2003.
[160] PLOTINO. Enéadas. Sete volumes: 1ª a 6ª, esta em
dois tomos. Trad. José R. Seabra F. e Juvino Alves Maia Junior. Belo Horizonte:
Nova Acrópole, 2014-2019.
PORFÍRIO DE TIRO. Isagoge. Trad. Bento Silva Santos. São Paulo: Attar, 2002.
[161] MEBES, G. O. Os Arcanos Menores do Tarô. Trad. Marta Pécher. São Paulo:
Pensamento, 2007, p. 23.
[162] MARTINEAU, Mathrin Eyquem. O
Piloto da Onda Viva.
Trad. Maria José Pinto. Lisboa, Edições 70, 1977.
[163] MONOD, Jacques. Acaso e Necessidade; ensaio sobre a
filosofia natural da biologia moderna. 4 ed. Trad. Bruno Palma e Pedro Paulo de
Sena Madureira. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 43.
[164] CHARDIN, Pierre
Teilhard de. Escritos Essenciales. Trad.
Jorge Antonio Orendáin Caldera. Guadalajara: Editorial Universitaria, 2018, p.
59.
Ver
tb: ______. O Fenómeno Humano. Trad. Léon Bourdon e José Terra. Porto: Livraria Tavares
Martins, 1970.
______.
El Medio Divino. /s. t./. 5 ed.
Madrid: Taurus, 1965.
[165] LÉVI, Éliphas. A
Ciência de Hermes; A Revelação dos Supremos Segredos. Tradução de La
Ciencia de Hermes; La Revelación de los Supremos Secretos Editorial Humanitas. Barcelona: 1999; São
Paulo: 2015, in Sociedade das Ciências Antigas https://sca.org.br/wp-content/uploads/2019/09/A-Ciencia-de-Hermes-Eliphas-Levi.pdf,
excertos.
[166] Mutus Liber. O livro mudo da Alquimia; ensaio introdutório, comentários e notas
José Jorge de Carvalho. São Paulo: Attar Editorial, 1995.
[167] COLCHETE,
Eliane. Riqueza e Poder: a Geoegologia.
Rio de Janeiro: Quártica, 2018. Esta é uma entre várias obras, livros e blogs,
nos quais ela desenvolve sua teoria.
[168] COLCHETE DE
MORAIS, Eliane Colchete. Boas Novas! Luis Carlos de Morais Junior tornou-se
Geoególogo!, in MORAIS JUNIOR, Luis
Carlos de. O Pedagogo de Si: A Educação e
a Filosofia. Rio de Janeiro: Litteris, 2019, p. 9-11.
[169] MORAIS, Eliane
Marques Colchete e MORAIS JUNIOR, Luis Carlos de. Crisopeia. Rio de Janeiro: Quártica, 2010.
[170] HERMES
TRISMEGISTOS. A Tábua de Esmeralda, in SADOUL, Jacques. O tesouro dos Alquimistas. Trad. Rachel
de Andrade. São Paulo: Hemus, 1970, p. 25.
[171] “1. Veritas ita se habet et non est dubium.
Verum sine mendacio certum et verissimum.
Verum est et ab omni mendaciorum involucre remotum.
Vere non ficte, certo verissimeque aio.
2. Quod inferiora superioribus et superiora
inferioribus respondent.
Quod est inferius est sicut quod est superius, et
quod est superius est sicut quod est inferius.
Quodcunque inferius est simile est ejus quod est
superius.
Inferiora hac cum superioribus illis, istaque cum
iis vicissim veres sociant.
3. Operator miraculorum unus solus est Deus, a quo
descendit omnis operacio mirabilis.
Ad perpetranda miracula res unius.
Per hoc acquiruntur et perficiuntur mirabilia
operis unius rei, ut producant rem unam omnium mirincissimam.
4. Sic omnes res generantur ab una sola substancia,
una sua sole disposicione.
Et sicut omnes res fuerunt ab uno meditatione
unius, sic omnes res natae fuerunt ab hac una re adaptatione.
Quemadmodum etiam omnia ex uno fiunt per
considerationem unius ita omnia ex uno hoc facta sunt per conjunctionem.
Acquemadmodum cuncta educta ex uno fuere verbo Dei
Unius, sic omnes quoque res perpe’tuo ex hac una re generantur disposicione
Naturae.
5. Quarum pater est Sol, quarum mater est Luna.
Pater ejus est sol, mater ejus luna.
Pater ejus est sol, mater luna.
Patrem ea habet solem, matrem lunam.
6. Que portavit ipsam naturam per auram in utero,
terra impregnata est ab ea.
Portavit illud ventus in ventre suo, nutrix ejus
terra est.
Ventus in utero gestavit, nutrix ejus est terra.
Ab acre in utero quasi gestatur, nutritur a terra.
7. Hinc dicitur Sol causatorum pater, thesaurus
miraculorum, largitor virtutum.
Pater omnis thelesmi (coelestini) totius mundi est
hie. Vis ejus integra est.
Mater omnis perfectionis. Potentia ejus perfecta
est.
Causa omnis perfectionis rerum ea est per universum
hoc.
8. Ex igne facta est terra.
Si versa fuerit in terram.
Si mutatur in terram.
Ad sum mum ipsa perfectionem virium pervenit si
redierit in
humum.
9. Separa terrenum ab igneo, quia subtile dignius
est grosso, et
rarum spisso. Hoc fit sapienter et discrete.
Separabis terram ab igne, subtile a spisso suaviter
cum magno
ingento.
Terram ab igne separate subtile et tenue a grosso
et crasso,
et quidem prudenter cum modestia et sapientia.
In partes tribuito humum ignem passam, attermant
densitatem
ejus re omnium suavissima.
10. Ascendit enim de terra in celum, et ruit de
celo in terram, et inde interficit superiorem et inferiorem virtutem.
Ascendit (lapis) a terra in coelum, iterumque
descendit in terram, et recipit vim superiorum et inferiorum.
In hoc a terra ascendit, in coelum hoc a terra, et
a coelho rursus in terram descendit, et potentiam et efficaciarn superiorum et
inferiorum recipit.
Summa ascende ingenii sagacitate a terra in coelum,
indique rursum in terram descende ac vires superiorum inferiorumque coge in
unum.
11. Sic ergo dominatur inferioribus et
superioribus, et tu dominaberis sursum et deorsum, tecum est lux luminum, et
propter hoc fugient a te omnes tenebre.
Sic habebis gloriam totius mundi, ideo fugiat a te
omnis obscuritas.
(Et ita habebis gloriam claritatis totius mundi, et
a te fugiet omnis obscuritas).
Hoc modo acquiris gloriam totius mundi, propulsabis
igitur tenebras omnes et coecitatem.
Sic potiere gloria totius mundi; atque ita abjectae
sortis homo amplius non habere.
12. Virtus superior vincit omnia.
Hie est totius fortitudinis fortitude fortis.
Haec enim fortitudo omni alia fortitudine ac
potentiae palmam praeripiens.
Ita haec jam res ipsa fortitudine fortior existet.
13. Omne enim rarum agit in omne densum.
Quia vincet omnem rem subtilem, omnemque solidam
penetrabit.
Omnia namque subtilia et crassa duraque penetrare
ac subigere potest.
Corpora quippe tam tenuia quam solida penetrando
subige.
14. Et secundum disposicionem majoris mundi currit
hec operacio.
Sic mundus creatus est.
Hoc mundus hie conditus est.
Atque sic quidem quaecunque mundus continet creata
fuere.
15. Et propter hoc vocatur Hermogenes triplex in
philosophia. (Ita erunt in re ista adaptationes et dispositiones mirabiles.)
Hinc adaptationes erunt mirabiles quarum modus est
hie.
Itaque vocatus sum Hermes Trismegistus, habens tres
partes Philosophiae totius mundi.
Et hinc conjunctiones ejus mirabiles et effectus
mirandi; cum haec via sit per quam haec mira efficiantur. Et propter hoc
Hermetis Trismegisti nomine me appellarunt: cum habeam partes tres sapientiae
et Philosophicae universi mundi.
Hinc admiranda evadunt opera, quae ad eundem modum instituuntur. Mihi vero
ideo nomen Hermetis Trismegisti impositum fuit, quod trium mundi Sapientiae
partium Doctor deprehensus sum”.
BACON, Roger. Secretum
Secretorum.
Opera hactenus inedita Rogeri Baconi. Fasc. V. Cum glossis et notulis.
Tractatus brevis et utilis ad declarandum quedam obscure dicta Fratris Rogeri.
Nunc primum edidit Robert Steele. Accedunt versio anglicana ex arabico edita
per A. S. Fulton. Versio vetusta anglo-normanica nunc primum edita Oxonii e
Typographeo Clarendoniano. MCMXX. Oxford:
Humphrey Milford, 1920, p. xlviii: “From this point to the end of the section
is the famous Emerald Table of Hermes, which appears here in its earliest known
form. It has every appearance of considerable antiquity and is probably of
Egyptian origin, passing through Byzantine treatises. There are several
distinct translations of it current, but this is probably the best, as it is,
on the whole, the simplest. The Arabic text appears to have received some
additions. The following are some of the forms in which it is found”, p. xlviii
a li.
[172] BONARDEL, Françoise. Filosofar pelo Fogo; antologia de textos
Alquímicos. Trad. Idalina Lopes. São Paulo: Madras, 2012, p. 65-77.
Ver
tb POLYDORUS, Chrysogonus in Alchemiae Gebri
Arabis; philosophi solertissimi, Libri vum teliquis, ut versa pagella
indicabit. Ioan Pettrius Nurembergen denuo Bernae excudi faciebat. Anno MDXLV.
Nuremberge 1545.
[173] Os Sete Governantes Planetários
no Submundo, in Musaeum Hermeticum. Franckfurt
am Mayn: Luca Jennis,
1625, frontispício, versão colorida por Adam McLean, 2011, in https://www.alchemywebsite.com/Adam.html.
[174] Nota 81 no original: A.-J. FESTUGIÈRE, La
Révélation d’Hermès Trismégiste. I: L’Astrologie et les sciences occultes, París,
1952; II: Le
Dieu cosmique, 1949; III: Les doctrines de l’ame, 1953; IV: Le
dieu inconnu et la gnose, 1954.
______, Hermétisme et mystique païenne. París:
1967, p. 240-260.
[175] NEBOT, Xavier Renau (Introducción,
traducción y notas). Textos
Herméticos. 3 ed. Madri: Gredos, 2014, p. 22 e
23, tradução minha.
[176] Op. cit., p. 35.
[177] WILHELM, Richad
(tradutor). O Segredo da Flor de Ouro.
3 ed. Trad. Dora Ferreira da Silva e Maria Luíza Appy. Petrópolis: Vozes, 1986.
[178] Alcorão Sagrado. Trad. Samir El Hayek. São Paulo: Folha de São
Paulo, 2010, A Família de ‘Imran, 3ª surata, versículo 184, p. 73.
[179] UYLDERT, Mellie. A Magia dos metais; os segredos ocultos
do mundo mineral. Trad. Maio Miranda. São Paulo: Pensamento, 1990, p. 167.
[180] Op. Cit., 177.
[181] HERMES
TRISMEGESTOS. Hermès Trismégiste (Œuvres).
Traduction complete précédée d’une Étude sur l’origine de les livres
Hermétiques, par Louis Ménard, deux tomes. Deuxième édition. Paris: Librairie
Acadèmique, Didier et Ce., Libraires-Éditeurs, 1867.
[182] DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a Filosofia.
Trad. Edmundo Fernandes Dias e Ruth Joffily Dias. Rio de Janeiro: Rio, 1976, p.
4-5.
[183] UYLDERT, Mellie.
A Magia dos Metais; os segredos
ocultos do mundo mineral. Trad. Maio Miranda. São Paulo: Pensamento, 1990, p.
172.
[184] BACON, Roger. Secretum Secretorum [Kitab sirr al-Asrar]. Opera hactenus
inedita Rogeri Baconi. Fasc. V, p. xlviii a li.
[185] EVOLA, Julius. A Tradição Hermética. Trad. Maria Teresa
Simões. Lisboa: Edições 70, 1979, p. 37, 38 e 39, adaptado.
[186] FOUCAULT,
Michel. As Palavras e as Coisas.
Trad. Salma Tannus Muchail. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1987, p. 33 ss.
[187] L’Adepte en Prière, gravura anônima do século XVII, in LENNEP,
Jacques van. Alchimie. Bruxelles:
Crédit Communal de Belgique, 1985, p. 32.
[188] ALEXANDRIAN. A Alquimia
Triunfante, in História da Filosofia Oculta. Trad. Carlos Jorge Figueiredo Jorge.
Lisboa: Edições 70, /s.d./, p. 159.
[189]
FLUDD, Robert. Of the Excellence of
Wheate, in A Philosophical Key. Robert
Fludd and his Philosophical Key, being a Transcription of the manuscript at
Trinity College, Cambridge, with an Introduction by Allen G. Debus. Science
History Publications. New York: Neale Watson, 1979, p. 91-92: “And yet is she
not many Natures but indiuisible & only one in number, governing like the
very image of the generall Creatour in all & ouer all, for as much as she
being the life of all things is with the indiuiall soule of the vniuerse sayd
to be in all & therefore in every part of the Microcosmicall edifice:
Thinke therefore seriously yt she hath chosen for her cheefest
mansion in the Animall Kingdome the body of Man that most excellent of all
sensible creatures; In hir vegitable Empire she hath elected Wheat that most
worthy of all vegetables for hir richest tabernacle in wch she most
plentifully is obserued to dwell and kepe hir most royall court in the
vegetable Kingdom & in her Minerall nature she most delighteth in &
principaly inhabiteth hir goulden palace, burnishing it about with the streams
of hir brightest glory”.
[190] Ver BONDER,
Nilton. A Cabala do Dinheiro. 9 ed.
Rio de Janeiro: Imagon, 1991.
Ver tb: ______. A Cabala da Comida; a dieta do Rabino. 3 ed. Rio de Janeiro: Imago;
Tikun Olam, 1989.
______. A Cabala da Inveja. Rio de Janeiro: Imago, 1992.[191] SHAKESPEARE, William.
“Sonnet 154”, in Complete Works.
Oxford: Wordsworth Editions, 2007, p. 1244.
[192] MATOS, Gregório
de. Poemas Escolhidos. Seleção,
prefácio e notas José Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.
232.
[193] CASTELOT, F. Jollivet. Le Grande Œuvre Alchimique; brochure de
propagande de la Societé Alquimique. Paris: Édition de L’Hyperchimie,
1901:
La Matière est une.
Elle
vit, elle evolue et se transforme.
Il n’y a pas des corps simples.
[194] COELHO, Paulo. O Alquimista. Rio de Janeiro: Rocco,
1989.
[195] ______. Hippie. São Paulo: Paralela, 2018.
[196] COELHO, Paulo. “Sou
o intelectual mais importante do Brasil”, disponível
emhttps://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2012/09/13/sou-o-intelectual-mais-importante-do-brasil-diz-paulo-coelho.html.
Ver tb a resposta de Stuart Kelly, crítico de literatura do Guardian,
jornal e portal de notícias de Londres (disponível em http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/08/paulo-coelho-provoca-ulysses-james-joyce.html.
[197] JOYCE, James. Ulisses. Trad. Antônio Houaiss. São
Paulo: Abril Cultural, 1983.
[198]
https://voltaaosupremo.com/artigos/artigos/o-significado-do-mantra-hare-krishna/.
[199] O Mundo em que Vivemos. Volume 1: Formação da Terra. Volume 2: A Luta pela Vida. São Paulo: Abril
Cultural, 1973.
[200] SAGAN, Carl. Cosmos. New York: Random House, 1980.
______.
Cosmos. Trad. Angela do Nascimento
Machado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.
[201] AQUINO, Santo Tomás de. Traité de la Pierre Philosophale Suivi du Traité sur
L’Art de l’Alchimie; traduit du Latin pour la première fois, introduction
et notes inedites par Grillot de Givry. Paris:
Archè - Sebastiani, 1979.
Tradução
brasileira, sem o estudo de Givry, com introdução de Gustav Meyrink: Tratado da Pedra Filosofal e A Arte da
Alquimia. Ed. Gustavo Llanes Caballero. São Paulo: Ísis, 2015.
[202] Sb 19:18-22, Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2019, p. 1239.
[203] A cerusa é o pigmento branco composto por carbonato de chumbo ou
cálcio, o mesmo que alvaiade, isto é, o carbonato básico de chumbo
[2PbCO3·Pb (OH)2], um sal complexo que contém tanto íons
de hidróxido quanto de carbonato.
[204] Variedade de calcita estalagmítica, no Egito e na Argélia, variedade de
gipsita finamente granulada ou maciça, que, quando translúcida e pura, é usada
para fins ornamentais.
[205] Mármara ou Proconeso, ilha da Turquia,
situada no mar de Mármara:
“É a maior ilha
neste mar, e administrativamente pertence à província de Balikesir. É acessível
por ferribote a partir de Istambul e por barcos a motor a partir de Tekirdaq
e Erdek. O seu nome provém do grego antigo μάρμαρον (mármaron) e
depois de μάρμαρος (mármaros), “rocha cristalina”,
“pedra brilhante”, talvez do verbo μαρμαίρω (marmáirō),
“brilhar”, pois a ilha é famosa pelo seu mármore. Sob o nome Proconeso (Proconnesus)
é uma sé titular da Igreja Católica. /.../”, in https://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_de_Mármara.
[206] ZÓSIMO DE PANÁPOLIS.
Lecciones de
Alquimia, in ZALBIDEA, Victor; PANIAGUA, Victoria;
FERNANDEZ DE CERRO, Elena; AMO, Casto del. Alquimia
y Ocultismo. Barcelona: Barral, 1973, p. 25-32.
[207] ALEXANDRIAN. A Alquimia
Triunfante, in História da Filosofia Oculta. Trad. Carlos Jorge Figueiredo Jorge.
Lisboa: Edições 70, /s.d./.
ÉLIPHAS LÉVI. História da Magia. Trad. Rosabis
Camaysar. São Paulo: Pensamento, 2010.
PAPUS. Tratado Elementar de Magia Prática;
adaptação, realização, teoria e magia. Trad. E. P. São Paulo: Pensamento, 2008.
[208] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix.
O que é a Filosofia? Trad. Bento Prado Jr. E Alberto Alonso
Muñoz. Rio de Janeiro: 34, 1992.
[209] ROSA, Noel;
PINTO, Sylvio, “Com mulher não quero mais nada”.
[210] BAPTISTA,
Arnaldo. Uma inscrição de uma pintura sua, que pode ser vista no documentário Loki – Arnaldo Baptista, direção e
roteiro de Paulo Henrique Fontenelle (2007):
1:55:45.
[211] MORAIS JUNIOR, Lui Carlos de. Encontros nas Esquinas das Palavras: cinematótica
transtemporal e complexistória na lírica brasileira atual ou: impressões de
vertigens, ou ainda: devires do soneto brasileiro. Rio de Janeiro: livro do pós-doutorado em Estudos Culturais realizado
no PACC da Faculdade de Letras/UFRJ, 2015. Rio de Janeiro: Quártica, 2021.
______. O
Superprocessador de Emoções do Aquecimento Global {novelo ou:
contogeração}. Rio de Janeiro: publicado na internet, 2016.
[212] ARTAUD, Antonin.
Trad. Teixeira Coelho. São Paulo: Martins Fontes, 1993, O Teatro e seu Duplo, p. 43.
[213] ROSSET, Clément.
O Real e seu Duplo; ensaio sobre a
ilusão. Trad. José Thomaz Brum. Porto Alegre: L&PM, 1988.
[214] RANK, Otto. El
Doble. Trad. Floreal Mazía. Buenos Aires: Orión, 1976.
[215] DOSTOIÉVSKI,
Fiódor. O Duplo. Trad. Paulo Bezerra.
São Paulo: 34, 2011.
[216] BOEHME, Jacob. A Aurora Nascente. 3 ed. Trad. Américo
Sommerman. Polar: São Paulo: 2011.
[217] PARACELSO. A Chave da Alquimia. Trad. Antonio
Carlos Braga. São Paulo: Editora Três, 1973.
[218] TOMÁS DE AQUINO.
Aurora
Consurgens, in Mysterium
Coniunctionis. Texto
original completo mais a análise de Carl Gustav Jung com a colaboração de
Marie-Louise von Franz. 5 ed. 3 v.
[219] MORAIS JUNIOR,
Lui Carlos de. Alquimia o Arquimagistério
Solar. Rio de Janeiro: Quártica, 2013, p. 94-6.
[220] GILCHRIST, Cherry. A Alquimia e seus Mistérios; história
concisa da filosofia e prática da Alquimia desde sua origem até o século XX –
avaliação da tradição hermética ocidental. Trad. Aydano Arruda. São Paulo:
IBRASA, 1988, p. 9.
[221] MATURANA, Humberto; VARELA,
Francisco. A Árvore do Conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. Tradução Jonas Pereira dos Santos. São Paulo: Palas Athena, 1995.
[222] FULCANELLI. As Mansões Filosofais. Trad. António
Last e António Lopes Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1977, “A salamandra de
Lisieux V”, p. 221.
[223] MYLIUS,
Johann Daniel. Opus Medico Chymicum; continens tres tractatus sive Basilica Medica, Secundus Basilica
Chymica, Tertius Basilica Philosophica. Frankfurt: Lucas Jennis, 1618. A
gravura consta do terceiro tratado, Basilica Philosophica.
[224] In Internet Sacred Text Archive https://www.sacred-texts.com/alc/hm2/index.htm (adaptado e traduzido).
[225] CASTANEDA, Carlos. Porta para o Infinito. Trad. Luzia
Machado da Costa. São Paulo: Círculo do Livro, /s.d./, p 16.
[226]
“Soil, water and forests are the foundation not only of our national economy
but of our very existence and civilization”, in https://www.malabarfarm.org/.
[227] https://pt.wikipedia.org/wiki/Signo_astrológico.
[228] Earth Sky, Updates on your cosmos and world:
The forgotten constellation, in https://earthsky.org/tonight/ophiuchus-highest-on-august-evenings-2/.
[230] AGRIPPA DE NETTESHEIM,
Henrique Cornélio. Três Livros de
Filosofia Oculta. Compilação e notas Donald Tyson. Trad. Marcos Malvezzi.
São Paulo: Madras, 2008, p. 83, 84.
[231] Op. cit., p. 89
[232] D’ARÈS, Jacques. Prefácio, in FULCANELLI. Finis Gloriæ Mundi; ou a transformação
alquímica do mundo. Trad. Gilson César Cardoso de Sousa. São Paulo: Pensamento,
2008, p. 12.
[233] ALIGHIERI,
Dante. A Divina Comédia. Paraíso. Trad. José Pedro Xavier
Pinheiro. São Paulo: Principis, 2020, p. 239.
[234] BREUIL, Paul du.
Zoroastro: Religião e Filosofia.
Trad. Noé Gertel. São Paulo: IBRASA, 1987, p. 218.
[235] Mateus 22:37-40.
Bíblia de Jerusalém. Novo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1980, p. 94
[236] FULCANELLI. O Mistério das Catedrais. Trad. António
Carvalho. Lisboa: Edições 70, 1986, caderno de ilustrações depois da página
112, XXXI. CAPELA S. TOMÁS DE AQUINO.
[237] MERTON, Thomas. Águas de Siloé. Trad. Oscar Mendes. Belo
Horizonte: Itatiaia, 1957.
[238] In https://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Bromfield.
[239] BROMFIELD, Louis. Eu
e a Terra.
Trad, Oswaldo de Araújo Souza. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959, p.
200.
[240] Idem, ibidem, p. 205-206.
[241] GERMAIN, Walter
M. O Mágico Poder da sua Mente. Trad.
Urbano M. Noronha. São Paulo: Bestseller, 1971.
[242] DÄNIKEN, Erich
von. Eram os Deuses Astronautas?
Enigmas Indecifrados do Passado. Trad. E. G. Kalmus. 8 ed. São Paulo:
Melhoramentos, 1971.
______.
De Volta às Estrelas. Argumentos para
o Impossível. Trad. Else Graf Kalmus e Trude von Laschan Solstein. 9 ed. São
Paulo; Melhoramentos, 1971.
______.
Semeadura e Cosmos. Vestígios e
Planos de Inteligências Alienígenas. Trad. Trude von Laschan Solstein. São
Paulo: Melhoramentos, 1972.
[243] SITCHIN, Zecharia. O livro perdido
de Enki: Memórias e profecias de um Deus extraterrestre. Trad. São Paulo:
Madras, 2017.
[244] CARLES,
Jacques e GRANGER, Michel. Alquimia Superciência
Extraterrestre?
Trad. Hélio Pinheiro Carneiro. Rio de Janeiro: Eldorado, 1973.
[245] CHURCHWARD,
James. O Continente Perdido de Mu;
decifrando o enigma das tabuinhas sagradas. São Paulo: Hemus, 1990.
[246] PLATÃO. Timeu e Crítias ou a Atlântida. Trad. Norberto de Paula Lima. São
Paulo: Hemus, 1981.
[247] PICKNETT, Lynn; PRINCE, Clive. The Forbidden Universe; the occult
origins of Science and the Search for the Mind of God. London: Constable, 2011.
[248] PICKNETT, Lynn; PRINCE, Clive. El Universo Prohibido; los orígenes
ocultos de la Ciencia moderna. Trad. Alfonso Barguñó
Viana. Barcelona: Ediciones Luciérnaga, 2018.
[249] TALAMONTI, Leo. Universo Proibito. Milano: Sugar, 1966.
______. Universo Prohibido. Trad. Vicente Villacampa. Barcelona: Plaza
& Janes, 1970.
[250] KAHN, Didier. “Présence et absence de l’alchimie dans
la littérature romanesque médiévale”. Savoirs et fictions au Moyen Âge et à la
Renaissance. Paris: maio de 2008.
[251] VERNET, André:
“Jean Perréal, poète et alchimiste”, Bibliothèque
d’Humanisme et Renaissance, 3. Paris: 1943, p. 214-252.
Também
pode ser lido em: ______. Études
Médiévales. Paris: Études Augustiniennes, 1981, p. 416-454, com adendo às
p. 672-673.
E
no site: https://www.persee.fr/doc/crai_0065-0536_1943_num_87_1_77599.
[252] MORAIS JUNIOR, Luis Carlos de. O Estudante do Coração. Rio de Janeiro:
Quártica, 2010.
A
mesma pintura também é a capa de ROOB, Alexander. O Museu Hermético: Alquimia e Misticismo. Trad.
Teresa Curvelo. Köln: Taschen, 2001.
[253]
https://www.universalis.fr/encyclopedie/jean-perreal/.
[254]
https://dame-licorne.pagesperso-orange.fr/VERSION%20LONGUE/19c-%20perreal%20alchimiste.htm.
[255] Ibidem.
[256]
https://about-meaning.com/11039071-meaning-of-fleur-de-lis.
[257] SANTOS, Yedda
Pereira dos. Dicionário de Alquimia;
a Chave da Vida. São Paulo: Madras, 2012, p. 223.
[258] PERRÉAL, Jehan. La Complainte de Nature à l’Alchimiste Errant. 1515/1517.
Manuscrito sem número de páginas, versos 991 a 1000, Musée Marmottan Monet,
Paris, in https://archive.org/details/BSG_MS3220;
bibliothequesaintegenevievemanuscrit.
[259] LICHT, Friedrich Von. El Fuego Secreto, versão eletrônica, p. 91-93, traduzido e
adaptado.
[260]
ANDRADE, Oswald de. Pau-brasil, in
Poesias Reunidas. 4 ed. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974, p. 104.
[261] FLUDD, Robert.
Of the Excellence of Wheate, in A Philosophical key. Robert Fludd and his Philosophical Key,
being a Transcription of the manuscript at Trinity College, Cambridge, with an
Introduction by Allen G. Debus. Science History Publications. New York: Neale
Watson, 1979.
[262] CASTELLO BRANCO, Anselmo Caetano
Munho’s de Avreu Gusmão. Ennoea; ou
aplicação do entendimento sobre a pedra filosofal. Apresentação Y. K. Centeno.
Lisboa: Fundação Caloustre Gulbenkian, 1987 (edição fac-similiar do original).
Volume dois. Lisboa Ocidental: Nova Officina de Maricio Vicente de Almeida,
1732, p. 42, e continua na p. 43.
[263] ADRIÃO, Vitor Manuel. As 12 Fases da Grande Obra
Alquímica, disponível em: http://radeisis.blogspot.com.br/2013/06/as-12-fases-da-grande-obra-alquimica_15.html,
adaptado.
[264] UYLDERT, Mellie. A magia dos metais; os segredos ocultos
do mundo mineral. Trad. Maio Miranda. São Paulo: Pensamento, 1990, p. 178-179.
[265] BEN, Jorge. “Luz
polarizada”, do lp Solta o pavão,
Philips, 1975.
[266] PAUWELS, Louis; BERGIER, Jacques.
O Despertar dos Mágicos; introdução
ao Realismo Fantástico. 7 ed. Trad. Gina de Freitas. São Paulo: Difusão
Europeia do Livro, 1971, A Alquimia como exemplo, p. 99.
[267] João 6: 5-15. A Bíblia Sagrada. Trad. João Ferreira de
Almeida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, /s. d./, p 105
[268] Primeiro estágio da Grande Obra ou O Laboratório do Alquimistapor Hans Vredeman de Vries, do livro Amphitheatrum Sapientiae Aeternae – Schauplatz der ewigen allein wahren Weisheit (Anfiteatro da Sabedoria Eterna – Arena da eterna sabedoria única, 1595) de Heinrich Khunrath. Apresenta uma caprichada edição brasileira, bem traduzida do francês, sem atribuição do nome do tradutor: KHUNRATH, Henri. Anfiteatro da Eterna Sabedoria. /s. t./. Joinville: Clube de Autores, 2018. Nessa edição, o desenho citado figura na página 425. No original latino está nas páginas 97-8.
[270] SHAKESPEARE, William.
“Sonnet 33”, in Complete Works.
Oxford: Wordsworth Editions, 2007, p. 1229.
[271] GOULART, Luiz. Átomo
Vital;
à luz da auto-realização consciente no homem e em a natureza. Rio de Janeiro:
Atlântida, 1977, p. 43.
[272] TRIGUEIRINHO. O
livro dos sinais. 3 ed. São Paulo: Pensamento, 2008, p. 56.
[273] MOORE, Jeffrey. Os Artistas da Memória. Trad. Marcelo
Mendes. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 115.
Essa citação é usada no site da
Université de Montréal – Departement de chimie: Que’est que la chinie?, in http://chimie.umontreal.ca/departement/quest-ce-que-la-chimie/:
«À
certains égards, on peut considérer la chimie comme un mariage entre la science
et l’art, une poésie de la terre, un kaléidoscope sensoriel d’odeurs, de
saveurs, de couleurs, de textures. Des peintres et des sculpteurs ont été
attirés par elle, et particulièrement certains musiciens. Sir Edward Elgar a
barboté dans la chimie, et Alexandre Borodine était chimiste. Il gribouillait
distraitement des notes de musique partout sur les murs du laboratoire tout en
faisant ses expériences. Il y a également eu des poètes-chimistes comme Humphry
Davy, qui a découvert le sodium et le potassium. Ses cahiers étaient remplis
d’un fouillis d’expériences chimiques et de nouveaux vers. Lui et Coleridge
avaient même pensé monter un laboratoire ensemble! Et il ne faut pas oublier
Primo Levi, bien sûr, qui considérait la chimie comme l’art de peser et de
séparer, tout comme l’écriture.» MOORE,
Jeffrey. Les Artistes de la Mémoire. Montréal: XYZ Éditeur, 2007. Na edição em inglês: The Memory Artists. Montréal: Penguin,
2006.
[274] O pedagogo de si. Rio de Janeiro: Litteris, 2019. Utilizo a imagem
de Ouroboros em vários livros meus, na capa, logo no começo ou da capo. A minha obra filosófica,
teórica, poética, teatral e literária está inteira/mente ligada à Filosofia
Hermética.
[275] A Chave de Salomão o Rei (Clavicula
Salomonis). Traduzida e editada dos Manuscritos Antigos do Museu Britânico,
por S. Lidell MacGregor Mathers. London: George Redway, 1889, p. 28.
[276] ANDRADE, Mário. Namoros com a Medicina. São Paulo:
Martins Fontes, Brasília: MEC, 1972, p. 15.
[277]
GUATTARI, Félix. As três ecologias.
Trad. Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas: Papirus, 1990.
[278] Textos Herméticos. Introducción, traducción y notas de Xavier Renau
Nebot. Madrid: Editorial Gredos, 1999: “El epíteto Trismégistos proviene seguramente del titulo egípcio de Tot: aā aā, grande grande, es decir,
grandísimo, que, desde el tiempo de Tolomeo IV Filópator [Ptolemeu IV Filópator] (221-205 a. C.) se traducía al grieco con el
superlativo repetido três veces: mégistos
kaì mégistos kaì mégistos; sólo falta abreviar la fórmula mediante el
prefijo tris (tres veces) para dar Trismégistos, el tres veces muy grande,
o, como en los papiros mágicos: Trismégas
Hermês”, p. 10.
[279] “A palavra em
sânscrito kṛṣṇa é essencialmente um adjetivo que significa ‘negro’, ‘azul’
ou ‘azul-escuro’. Como um substantivo feminino, kṛṣṇa é usado
no sentido de ‘noite’, ‘escuridão’ no Rigveda. Krishna é um nome de Deus que
significa ‘o Todo Atraente’, a Verdade Absoluta. A palavra ‘krish’
é a característica atrativa da existência divina, e ‘na’ significa ‘prazer
espiritual’. Quando o verbo ‘krish’ é adicionado ao ‘na’, ele se torna Krishna,
que indica a Suprema Verdade Absoluta. Krishna também é conhecido
por diversos nomes, epítetos e títulos, que refletem suas múltiplas qualidades
e atividades. Entre os mais usados, estão Hari (‘Aquele que
tira’ [pecados, ou que afasta samsara, o ciclo de nascimentos e
mortes]), Govinda (‘Aquele que dá prazer às vacas, à Terra e
aos sentidos’) e Gopala (‘Protetor das vacas’ ou, mais
precisamente, ‘Protetor da vida’)”, in
https://pt.wikipedia.org/wiki/Krishna.
[280] HERMES
TRISMEGISTOS. Corpus Hermeticum.
Trad. Márcio Pugliesi e Norberto de Paula Lima. São Paulo: Hemus, 1978, p.
11-12. Considero essa tradução muito útil e boa, não concordo com as críticas
que lhe foram feitas quando do lançamento da edição do Corpus pela editora Polar.
Também
utilizei:
Corpus Hermeticum. Tradução, edição, introdução e
notas: Américo Sommerman. São Paulo: Polar, 2019.
Corpus Hermeticum Graecum. Texto bilíngue
(Grego-Português). Prefácio, introdução, tradução e glossário Grego-Português
de David Pessoa de Lira. São Paulo: Cultrix, 2023.
Ensinamentos Herméticos. Coord. Charles Veja Parucker.
Paraná: Ordem Rosacruzz, 1990.
Hermès
Trismégiste (Œuvres).
Traduction complete précédée d’une Étude sur l’origine de les livres
Hermétiques, par Louis Ménard, deux tomes. Deuxième édition. Paris: Librairie Acadèmique, Didier et Ce.,
Libraires-Éditeurs, 1867.
HORTULANO; FULCANELLI. Comentarios
a la Tabla de Esmeralda. La Tabla de
Esmeralda. Org. Miguel Algel Muñoz Moya. Madrid: Mestas, 1997.
Textos Herméticos. Introducción, traducción y notas de Xavier Renau Nebot. Madrid:
Editorial Gredos, 1999.
WESTCOTT, William Wynn. Coletânea Hermética; uma introdução ao
universo da Magia, da Cabala, da Alquimia e do Ocultismo. Trad. Martha Malvezzi
Leal. São Paulo: Madras, 2003. (Esta coletânea traz uma tradução do Corpus Hermeticum como Volume II, como o
título O Divino Pymander de Hermes
Mercurius Trismegistos em XVII Livros, traduzido do árabe para o inglês pelo
Dr. Everard, 1650.)
[281] NEBOT,
Xavier Renau (Introducción, traducción y notas). Textos Herméticos. 3 ed. Madri: Gredos, 2014, p. 7 e 8, tradução minha.
[282] HOPKINS, Arthur John. Alchemy, Child of Greek Philosophy. New York: Columbia University
Press, 1934.
[283] Novo
dicionário enciclopédico luso-brasileiro. Direção Jaime de Séguier. Volume
1: A – J. Porto: Lello & Irmão, 1960, p. 39.
[284] https://osegredo.com.br/akiane-kramarik-jovem-que-diz-ter-visto-o-rosto-de-jesus-e-o-pintou-em-um-quadro/,
https://akiane.com/.
[285] Aurea Catena Homeri (La Nature Dévoilée). Traduction
de l’original allemand de 1723 par Monsieur Dufournel édité pour la première
fois en 1772 (chez Edmie, Libraire, rue Saint-Jean-Beauvais). Paris: Editions Dervy, 1993.
O Grande Tratado de Alquimia. (Aurea Catena Homeri). Trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins
Fontes, 2006.
[286] HOMERO. Ilíada. Trad. Odorico Mendes. Clássicos de Jackson. Volume XXI. Rio
de Janeiro: Jackson, 1950, p. 130.
[287]
LENNEP, Jacques van. Alchimie.
Bruxelles: Crédit Communal de Belgique, 1985.
[288] ROLA, Stanislas Klossowski de. El Juego Áureo: 533 grabados alquímicos del siglo XVII. Trad. Jose Antonio Torres Almodovar. Madrid:
Siruela, 1988.
______. The
Golden Game: Alchemical Engravings of the Seventeenth Century. London: Thames and Hudson, 1988.
[289] LIMOJON DE SAINT-DIDIER. Le Triomphe Hermétique. Bibliotheca Hermetica. Collection dirigée
par René Alleau. Introduction et notes d’Eugène Canseliet. Précédées du Mutus Liber, avec une hypotypose de
Magophon. Paris: E. P. DENOËL, 1971, p. 108 e ss.
[290] Ver JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Alquimia. 4 ed. Trad. Maria
Luiza Appy et alii. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.
______.
Mysterium Coniunctionis. Com a
colaboração de Marie-Louise von Franz. 5 ed. 3 v. Trad. Frei Valdemar do
Amaral. Rio de Janeiro: Vozes, 2011.
FRANZ, Marie-Louise von. Alquimia. 9
ed. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1993.
[291] Alguns exemplos:
DOYLE,
Arthur Conan. Aventuras Inéditas de
Sherlock Holmes. Trad. Lia Alverga-Wyler. Porto Alegre: LÇ&PM, 2011.
As
novas aventuras de Sherlock Holmes.
Org. Otto Penzler. 2 volumes. Trad. Maria Helena Rouanet e Celina Portocarrero.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.
LEBLANC, Maurice. Arsène Lupin Ladrão de Casaca. Trad.
Paulo Hecker Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
______. Arsène
Lupin contra Herlock Sholmes. 2 ed. Trad. Paulo Hecker Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1979.
[292] Sobre complicatio em Duns Scot ver TÔRRES,
Moises Romanazzi. João Duns Scot e a Prova Metafisica da Existencia de Deus, in ANAIS do XIII Congresso Internacional
de Filosoia Medieval: Metafísica,
Arte e Religiao na Idade Média. Org. Jorge Augusto da Silva Santos; Ricardo
da Costa. Vitória: Universidade Federal do
Espírito Santo/Departamento de Línguas, 2011, p. 799-830.
[293] SAINT-HILAIRE,
Isidore Geoffroy. Histoire Générale et
Particulière des Anomalies de l’Organisation chez l’Homme et les Animaux. 2
volumes. Paris: J.-B. Baillière: 1832-37.
[294] YOGANANDA, Paramhansa. Autobiografia de um Yogue. /s. t./. 2
ed. São Paulo: Self Realization Fellowship, 2008, p.
256-257.
[295] HOLMYARD, E. J. Alchemy.
2 ed. New York: Dover Publications, 1990, p. 15-6: “Alchemy is of a twofold
nature, an outward or exoteric and a hidden and esoteric. Exoteric alchemy is
concerned with attempts to prepare a substance, the philosopher’s stone, or
simply the Stone, endowed with the power of transmuting the base metals lead,
tin, copper, iron, and mercury into the precious metals gold and silver. The
Stone was also sometimes known as the Elixir or Tincture, and was credited not
only with the power of transmutation but with that of prolonging human life
indefinitely. The belief that it could be obtained only by divine grace and
favour led to the development of esoteric or mystical alchemy, and this
gradually developed into a devotional system where the mundane transmutation of
metals became merely symbolic of the transformation of sinful man into a
perfect being through prayer and submission to the will of God”.
[296] MORAIS JUNIOR,
Lui Carlos de. Alquimia o arquimagistério
solar. Rio de Janeiro: Quártica, 2013, p. 25.
A citação que faço sendo: FLAMEL,
Nicolas. “O Desejo Desejado”, in O Livro
das Figuras Hieroglíficas. Trad. Luis Carlos Lisboa, Rio de Janeiro,
Editora Três, 1973, p. 147 e ss.
[297] BLAKE, William. The
Marriage of Heaven and Hell, in The
Alchemy Web Site, http://www.levity.com/alchemy/blake_ma.html,
acesso em 04/05/2006.
[298] GEBER. Summa perfectionis
magisterii, Marget, I, 383.
